A forma como o Brasil de hoje será lembrado amanhã está em disputa. A narrativa dos anos recentes, marcados por intensos debates políticos e a atuação do Supremo Tribunal Federal (STF), está sendo construída por diversas fontes, muitas das quais já são consideradas definitivas para as próximas gerações.
Nesse cenário, a Wikipedia, uma enciclopédia online de alcance global, emerge como um campo de batalha ideológico. Seus verbetes sobre fenômenos como o bolsonarismo e o lulismo, e até mesmo sobre eventos cruciais como as eleições de 2022, revelam uma abordagem que levanta sérias questões sobre imparcialidade e a construção da história.
A análise a seguir, baseada em um conteúdo jornalístico, explora como essa plataforma e a grande mídia podem estar influenciando profundamente a percepção dos brasileiros sobre sua própria história recente, especialmente os anos sob o poder do STF.
A Batalha pela Narrativa: Bolsonarismo na Wikipedia
Conforme o conteúdo analisado, a Wikipedia descreve o bolsonarismo como um “fenômeno político de extrema-direita e cariz fascista”. O verbete associa a ideologia a elementos como autoritarismo, neofascismo, negacionismo científico e rejeição aos direitos humanos, além de citar Olavo de Carvalho como “guru”.
A introdução do artigo, segundo a análise, vai além, afirmando que o bolsonarismo atraiu “fanáticos” que realizaram “diversos ataques extremistas e/ou atos terroristas”, mencionando os eventos de 8 de janeiro em Brasília. Há também a alegação de que figuras bolsonaristas, como Eduardo Bolsonaro, buscam “punições e sanções internacionais para o Brasil” para livrar Jair Bolsonaro de ser julgado.
Deputados ligados ao movimento são acusados de tentar “interditar, intimidar, desestabilizar e causar impedimento do funcionamento dos órgãos legais do Legislativo” como “chantagem”, dificultando projetos do governo. A crítica aponta para uma linguagem carregada de adjetivos valorativos e pejorativos, distanciando-se de uma descrição enciclopédica neutra.
O Lulismo em uma Versão “Fofinha”
Em contraste, a descrição do lulismo na Wikipedia, conforme o conteúdo, é significativamente mais branda e positiva. É apresentado como um “fenômeno político de esquerda” que “busca transformações sem confrontar o capital”, sendo caracterizado como progressista, social-democrata, centro-esquerda e keynesiano.
A análise ressalta a ausência notável de menções a grandes escândalos de corrupção que marcaram os governos petistas, como o mensalão, petrolão, Odebrecht, o triplex da OAS, a Andrade Gutierrez ou o sítio em Atibaia. Também não há referências a polêmicas envolvendo apoio a regimes como os do Irã, Hamas, chavismo, Rússia e China.
A falta de críticas e a predominância de elogios no verbete sobre o lulismo criam uma imagem idealizada, que, segundo a análise, não reflete a complexidade e as controvérsias associadas a esse movimento político, oferecendo uma narrativa histórica unilateral.
Eleições de 2022: A Versão Oficial e as Controvérsias Ignoradas
O artigo da Wikipedia sobre as eleições de 2022 também é alvo de críticas pela sua abordagem. O texto afirma que “Bolsonaro espalhou constantemente desinformação sobre as urnas eletrônicas e o sistema eleitoral”. Em seguida, menciona a preocupação do STF e do TSE com redes sociais e aplicativos de mensagem, como o Telegram, que “ignorava ordens jurídicas do Brasil”.
A análise aponta que o verbete não faz menção a episódios de censura, como a proibição de um documentário não finalizado pela então presidente do TSE, Cármen Lúcia, ou o que foi percebido como um controle unilateral sobre o que poderia ser dito pelos candidatos. A narrativa histórica apresentada parece validar as ações judiciais sem questionar sua legalidade ou motivação.
O conteúdo critica a omissão de polêmicas envolvendo supostas “fake news do PT” e a falta de um panorama equilibrado sobre as controvérsias que culminaram nos eventos de 8 de janeiro. A Wikipedia, segundo a fonte, adota uma postura que silencia críticas e deslegitima qualquer questionamento sobre o processo eleitoral como “especulações sem nenhum fundamento em evidência fática”.
O Perigo da Histeria Jornalística e o Legado para o Futuro
A crítica se estende ao que é chamado de “jornalismo histérico” da grande mídia, que, assim como a Wikipedia, estaria calcado em “repetição de marcas sentimentais”, transformando a cobertura em um “grito, um xingamento, um bate-boca, uma valoração subjetiva”. Essa forma de escrita é descrita como “histriônica, teatral e barraqueira”, distorcendo a narrativa histórica.
A preocupação central é que a Wikipedia se tornará a fonte primária para a maioria dos trabalhos estudantis nos próximos anos, moldando a percepção de futuras gerações sobre a direita brasileira e os anos de atuação do STF. Além disso, a plataforma é uma fonte prioritária para inteligências artificiais como o ChatGPT, amplificando seu impacto.
A disputa pela narrativa histórica é vista como crucial, indo além da mera disputa por cargos. O conteúdo argumenta que a esquerda, por meio de ONGs, associações e investimentos em órgãos que “além de nos censurar, ainda contam a história, como vencedores”, está controlando o imaginário e a transmissão de uma herança cultural, intelectual, moral e religiosa. A questão é: quem contará a história dos anos sob o poder do STF?