A Seleção Brasileira, por décadas, foi mais que um time de futebol, era um verdadeiro símbolo nacional. Sua presença parava o país, unia torcidas rivais e mobilizava gerações inteiras. Contudo, esse vínculo profundo parece ter se desfeito, e os jogos da equipe já não provocam a mesma comoção coletiva de outrora, mesmo em anos de Copa do Mundo.

O distanciamento não se deve a uma única derrota ou a uma geração ruim de jogadores. Pelo contrário, é o resultado de anos de fracassos esportivos, má gestão, falta de identificação e uma profunda transformação cultural. A Seleção Brasileira já não representa o país da mesma forma, e a indiferença cresce, especialmente entre os mais jovens.

Um levantamento feito em 2025, pelo Ipsos-Ipec em parceria com O Globo, enquadrou esse fenômeno, mostrando que um em cada três brasileiros não se interessa pela Seleção Brasileira de futebol. Nem mesmo os jogos do escrete canarinho no país causam a comoção de antigamente, como visto em outubro de 2024, quando Brasil e Peru não lotaram sequer a metade do Estádio Mané Garrincha, em Brasília.

Fracassos em campo e o protagonismo de Neymar

O Brasil, pentacampeão mundial, enfrenta um longo jejum de títulos. A última glória foi em 2002, no Japão e na Coreia do Sul, o que já totaliza mais de duas décadas sem levantar a taça mais cobiçada do futebol. Para a única seleção com cinco estrelas, um período tão extenso sem conquistas é uma verdadeira eternidade, desmotivando qualquer torcedor.

Nas últimas cinco edições da Copa do Mundo, a Seleção Brasileira tombou nas quartas de final em quatro delas, sempre diante de seleções europeias. E em 2014, quando chegou à semifinal em casa, o país testemunhou a humilhação suprema. O Mineirão foi palco de uma derrota por 7 a 1 para a Alemanha, um revés amplamente considerado a pior da história do esporte, transformando o Brasil em motivo de chacota internacional.

Nesse cenário, o craque Neymar se tornou um protagonista de fracassos. Apesar do talento inquestionável, ele disputou três mundiais sem conseguir conduzir o Brasil a uma conquista, algo que Pelé, Romário e Ronaldo fizeram. Em 2018, na Rússia, Neymar se destacou mais como meme mundial por simular faltas. Aos 33 anos, com seu último título de expressão em 2014-15, e chamando atenção por casos extraconjugais e gostos duvidosos, há dúvidas sobre sua convocação para a próxima Copa.

O distanciamento da torcida e a “seleção da Europa”

A Seleção Brasileira se transformou em uma espécie de “Harlem Globetrotters” do futebol, uma atração que viaja o mundo. Os últimos dez amistosos da equipe, por exemplo, foram disputados longe do território nacional, em países como França, Inglaterra e Estados Unidos. Em 2025, a equipe não fez nenhum duelo amistoso em casa, jogando diante de seu torcedor apenas pelas Eliminatórias, o que é obrigatório.

Esse distanciamento geográfico influencia diretamente a relação com os brasileiros. Sem jogos no país, sem caravanas e sem estádios cheios, a Seleção Brasileira se tornou um produto distante, virtual, vista apenas pela televisão. Além disso, o êxodo de jogadores para o exterior, que começou nos anos 80 e explodiu nos 90, faz com que o Brasil exporte promessas adolescentes, que partem cedo e despontam em clubes europeus.

Essa dinâmica gera a pergunta: “Quem é esse jogador?”. Muitos dos atletas convocados são super jovens, sem laços com clubes brasileiros, sem tempo para virarem ídolos nacionais. Enquanto em 2002, na última conquista mundial, 12 dos 23 convocados defendiam times brasileiros, esse número despencou para apenas dois em 2006 e três em 2022. Quando o elenco joga quase todo na Europa, o elo do cotidiano se perde, e os jogadores se tornam figuras distantes, diminuindo a identificação da torcida.

A camisa em disputa e a gestão questionada

A camisa amarela da Seleção Brasileira, reconhecida globalmente como um dos mais importantes símbolos do futebol, tem sua imagem em disputa. Por décadas, o manto representou a identidade nacional e o orgulho esportivo. No entanto, desde 2015, com as manifestações políticas, a amarelinha foi apropriada em atos de rua e campanhas associadas a visões políticas específicas. Vestir o amarelo deixou, para muitos, de significar apenas torcer pelo Brasil e passou a sinalizar um alinhamento ideológico.

Esse processo teve um efeito colateral significativo, fazendo com que parte da população evitasse a camisa por questões políticas. A amarelinha, que sempre representou uma paixão em comum, perdeu seu caráter agregador.

Paralelamente, a cartolagem do futebol brasileiro, nunca totalmente confiável, parece ter piorado. A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) se viu envolvida em uma série de escândalos e disputas internas. Desde Ricardo Teixeira, quase todos os dirigentes tiveram problemas com a Justiça. A falta de transparência, um projeto consistente e a desconexão com os torcedores transformaram a Seleção Brasileira em um produto gerido por cartolas, e não mais um patrimônio nacional.

Novas formas de consumo e o fim do “País do Futebol”

A fragmentação dos direitos de transmissão esportivos alterou profundamente a relação do público com o futebol. Antigamente, a Seleção era um evento nacional transmitido em TV aberta, acessível a todos. Hoje, as partidas estão espalhadas entre TV paga, streaming, aplicativos e pacotes distintos. Para acompanhar, o espectador precisa assinar múltiplos serviços, pagar mais para ver menos, e muitas vezes, simplesmente desiste. Esse modelo quebrou a experiência coletiva e o futebol perde centralidade cultural.

Outro fator crucial está fora do campo. Desde 2002, houve uma explosão de alternativas de lazer. Redes sociais, games e serviços de streaming competem diretamente com os 90 minutos de jogo. A Seleção Brasileira já não ocupa o centro da experiência cultural do país, tornando-se apenas “mais um conteúdo” em meio a milhares.

Finalmente, a ideia de que o Brasil é o “país do futebol” pode ser superdimensionada. Somos o país dos jogadores de futebol, mas a paixão do torcedor local nem sempre é tão intensa quanto se pensa. Diversos levantamentos demonstram que uma parcela considerável de habitantes não tem o menor interesse pelo esporte, não torce por nenhum time, nem mesmo pela Seleção Brasileira. Uma pesquisa encomendada por O Globo identificou que os “desinteressados” somam 24,4% da população, apontando que o futebol, talvez, não seja mais a paixão nacional inquestionável que um dia foi.

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