Universidades públicas brasileiras são conhecidas pela rigidez de seus processos, especialmente em casos de expulsão de alunos. Por isso, a notícia do desligamento de uma estudante da Universidade Federal Fluminense (UFF) gerou imediata suspeita sobre os bastidores da decisão.
A aluna, Beatriz Bueno, de 28 anos, afastada do mestrado em ‘Cultura e Territorialidades’ em dezembro, alegou ser vítima de perseguição ideológica. O motivo central seria o tema de sua pesquisa: a parditude, um conceito que se refere à identidade do brasileiro mestiço.
Esse debate sobre a identidade parda tem provocado uma verdadeira guerra civil interna na esquerda brasileira, dividindo o movimento negro e a academia, conforme informações divulgadas pela Gazeta do Povo.
O Conceito de Parditude e o Incomodo na Academia
O termo parditude descreve a identidade do brasileiro mestiço e suas múltiplas raízes, sejam africanas, indígenas ou europeias. Ele também representa a experiência pessoal de quem não se encaixa nem como branco, nem como negro, buscando um reconhecimento autônomo.
Aparentemente natural, esse conceito parece incomodar setores da academia e da esquerda, tanto a tradicional marxista quanto a identitária. A razão não é complexa de entender, pois a parditude desafia estruturas estabelecidas.
Quando os pardos se impõem como um grupo autônomo, e não uma subcategoria, eles ameaçam as divisões raciais rígidas que fortalecem as narrativas identitárias e as políticas afirmativas atuais. Isso inclui cotas, editais e cargos comissionados, gerando uma disputa por reconhecimento e recursos.
A divergência vai além do campo intelectual. A controvérsia envolve diretamente recursos públicos, espaços de poder e a própria definição de quem tem direito a ser reconhecido como alvo do racismo e das ações afirmativas.
De acordo com o IBGE, 45,3% da população brasileira se declarou parda no último censo, tornando este o maior e potencialmente mais influente grupo demográfico do país. Essa proporção massiva intensifica a relevância do debate sobre a identidade parda.
A Estratégia do Movimento Negro e a Heteroidentificação
O termo “pardo” não é uma invenção recente no Brasil, estando presente nos censos desde 1872. Historicamente, já foi usado para suavizar a condição negra, descrever a miscigenação ou como um rótulo genérico, variando conforme o contexto.
Hoje, o debate não se foca na palavra em si, embora a expressão parditude cause desconforto em alguns círculos. O ponto central é a voz, a visibilidade e a legitimidade que essa identidade pode ganhar ao entrar em cena.
Quando o debate racial se intensificou no Brasil pós-redemocratização, a estratégia do movimento negro foi clara: unificar pretos e pardos em uma única categoria, a dos negros, para fins estatísticos e políticos.
Essa fusão, estabelecida pelo Estatuto da Igualdade Racial de 2010, permitiu demonstrar que mais de 50% da população estava na base da pirâmide social. Abriu, principalmente, caminho para medidas como a Lei de Cotas de 2012 e a distribuição proporcional de recursos partidários.
Um grande problema surgiu quando a política saiu do papel e, como acontece com frequência, entrou em choque com a realidade das universidades. Se no censo do IBGE vale a autodeclaração, nas instituições de ensino superior ganhou força a heteroidentificação.
Isso significa que comissões passaram a analisar traços físicos para determinar se um candidato tem direito ou não às cotas. Dentro dessa lógica, o pardo, com sua aparência ambígua, se tornou a principal vítima dessa nova burocracia racial, ou dos “tribunais raciais”, como chamam os críticos.
A imprensa ainda hoje registra situações em que as bancas de avaliação consideram “insuficientes” os traços físicos apresentados. Isso leva à anulação da autodeclaração parda, criando um cenário de incerteza e injustiça.
Casos como o de Williane Muniz, barrada na Universidade Federal de Pernambuco após anos tentando ingressar em Medicina, ou de Letícia Lacerda, expulsa da Universidade Federal do Sul da Bahia a seis meses da formatura, ilustram bem essa problemática.
O Supremo Tribunal Federal (STF) já foi acionado diversas vezes para lidar com essas questões. Recentemente, o ministro Nunes Marques reforçou que o único critério válido para as cotas é a aparência, não a ancestralidade ou fotos antigas.
O resultado dessa abordagem é uma armadilha institucional: a mesma pessoa pode ser considerada parda em um concurso e branca em outro, dependendo da composição da banca avaliadora, gerando uma inconsistência preocupante na aplicação da lei.
A Voz da Parditude: Beatriz Bueno e a Reação
O debate recente sobre a identidade parda não começou com o trabalho de Beatriz Bueno. Diversos especialistas já apontavam a complexidade e as falhas do sistema.
Denis Moura dos Santos, da Universidade Federal de São Paulo, critica o Estado por desconsiderar as múltiplas ascendências desse grupo. José Eustáquio Diniz Alves, demógrafo do IBGE, alerta há anos para o que chama de “genocídio estatístico dos pardos”.
Geísa Mattos, da Universidade Federal do Ceará, demonstra como a mestiçagem afro-indígena é mal compreendida pelas bancas de heteroidentificação. Dagoberto José Fonseca, da Universidade Estadual Paulista, sugere que o Estado pressiona as pessoas a se encaixarem em moldes específicos para fins administrativos.
A lista de estudiosos que abordam a questão é extensa, mas nenhuma dessas figuras sofreu tantos ataques quanto Beatriz Bueno. A diferença está na forma como ela trouxe o debate à tona, não apenas no conteúdo de sua pesquisa.
Jovem e com um perfil de influenciadora, Beatriz Bueno retirou a discussão do ambiente hermético das universidades e a traduziu para o grande público, alcançando 110 mil seguidores apenas no Instagram. Sua postura passou a ser vista como uma ameaça política.
Para quem domina hoje o debate identitário, o conceito de parditude não é neutro. O movimento negro organizado o considera uma “estratégia da branquitude” para fragmentar sua categoria e enfraquecer as políticas afirmativas e de reparação.
Mas a reação não veio apenas do segmento “woke”. A “guerra” contra os pardos virou uma bandeira até de setores da esquerda marxista mais tradicional, que veem a questão sob outra ótica.
Para muitos comunistas da linha “raiz”, a parditude é mais um reflexo do mundo neoliberal, pois é centrada no corpo, prioriza a experiência individual e desloca o foco da luta de classes. Em outras palavras, ela dividiria a classe trabalhadora em vez de uni-la contra o capitalismo.
Esse roteiro previsível ainda inclui associar o trabalho de Beatriz Bueno às pautas do Movimento Pardo-Mestiço Brasileiro, um grupo que apoiou Jair Bolsonaro e brigou no STF contra as cotas raciais. Essa aproximação temática foi o suficiente para carimbar o debate como uma “porta de entrada para a direita”, mesmo com a pesquisadora se definindo como de esquerda e social-democrata.
Quando Beatriz começou a se destacar nas redes sociais, há cerca de três anos, a resposta dos críticos veio em bloco, na forma de uma avalanche de artigos publicados em sites progressistas.
Os títulos desses artigos já indicavam o tom da abordagem. Exemplos incluem “Por que retrocedemos à parditude?” (Revista Cult), “Parditude: o velho projeto do Brasil mestiço como retrocesso político” (Opinião Socialista), e “Parditude, uma contradição” (Casa Marx).
Outras chamadas na mesma linha eram: “Parditude: uma nova moeda do capital racial?” (Le Monde Diplomatique Brasil), “Noção de parditude é equivocada e representa regressão no debate racial do país” (Instituto Búzios), e “Parditude é uma intenção política, não a consequência automática da diferença” (Alma Preta).
A Polêmica com Camila Pitanga e a Expulsão da UFF
A tensão em torno da parditude aumentou em agosto do ano passado, quando Beatriz Bueno questionou, em suas redes, a identidade racial de Camila Pitanga. A atriz havia se declarado negra no podcast do rapper Mano Brown, gerando controvérsia.
Camila Pitanga é filha do ator Antonio Pitanga, que é negro, e da bailarina Vera Manhães, cuja família “é muito misturada”, nas palavras da própria artista. A questão levantada por Beatriz Bueno era a discrepância na aplicação das regras.
O argumento da pesquisadora era simples: pessoas comuns com aparência similar à da artista frequentemente são barradas em bancas de heteroidentificação, enquanto celebridades parecem escapar desse mesmo filtro.
Para piorar a situação, no calor da polêmica, Beatriz compartilhou no X uma especulação infundada sobre a paternidade de Camila Pitanga, um passo em falso baseado em um boato antigo de bastidor. A fofoca sugeria que a atriz poderia ser filha de um ex-marido francês de sua mãe, e não de Antonio Pitanga.
A acadêmica apagou o post duas horas depois e pediu desculpas à atriz. No entanto, já era tarde demais, e o episódio teve um impacto significativo na percepção de seu trabalho e de suas ideias.
O incidente passou a ser utilizado como uma “prova definitiva” de que a ideia de parditude seria uma arma contra as pessoas negras, e os ataques contra Beatriz Bueno se tornaram ainda mais pessoais e implacáveis.
A hostilidade contra Beatriz Bueno, que já vinha se acumulando nas redes sociais, ganhou força na Universidade Federal Fluminense. Seus colegas começaram a organizar manifestações para pedir seu desligamento do programa de mestrado, intensificando a pressão sobre ela.
Inicialmente acusada de racismo, por supostamente defender o enfraquecimento das políticas afirmativas, ela também passou a ser rotulada como transfóbica. Essa segunda acusação surgiu de sua ligação com a Associação Mátria, um grupo que defende direitos para mulheres baseados no sexo biológico.
A perseguição, segundo Beatriz, tornou-se institucional quando a coordenação do programa autorizou a fixação de manifestos contra ela nas paredes da universidade. Ela também relatou que a UFF chegou a permitir que a turma inteira se retirasse da sala durante um seminário que ela apresentava, deixando-a sozinha na sala.
Procurada pela reportagem, a assessoria da universidade se limitou a enviar um link para uma nota oficial divulgada em seu site. A posição da UFF é de que não há perseguição ideológica.
De acordo com o texto da UFF, a decisão de afastá-la “teve como fundamento o descumprimento de pressupostos previstos no regimento do programa, especialmente no que se refere à participação e à aprovação nas atividades e disciplinas obrigatórias do curso, não havendo qualquer relação entre o desligamento e o tema de pesquisa desenvolvido pela ex-aluna”.
Em entrevista à Gazeta do Povo, Beatriz Bueno reafirmou que sua saída da UFF não foi motivada por problemas acadêmicos. Ela sustenta que a causa foi a perseguição política e ideológica ligada à sua pesquisa sobre a parditude e às suas opiniões públicas.
Segundo a pesquisadora, a universidade recorreu de forma irregular ao “jubilamento”, embora ela estivesse no programa há menos de um ano e ainda dentro de todos os prazos regimentais, o que tornaria a medida inválida.
Beatriz também diz que o curso virou um “tribunal interno”, onde a direção agia de forma conivente com a pressão dos alunos militantes. “A coordenação veio solicitar que eu pedisse desculpas pela minha associação com a Mátria. Mas eu não me desculpei, não me desassociei e continuei falando”, afirmou.
Ainda de acordo com a pesquisadora, a UFF alegou faltas em atividades que ela classifica como eventos de doutrinação ideológica organizados para confrontar suas ideias. Ela citou um exemplo: “Eles fizeram, por exemplo, uma palestra com um homem que se veste de mulher, Rita von Hunty, e queriam me obrigar a ir”, referindo-se ao personagem do ator e drag queen Guilherme Terreri, conhecido no YouTube por difundir discursos marxistas.
Apesar de afirmar ter reunido provas documentais de assédio e de falhas no processo, hoje analisadas com a ajuda de uma advogada, Beatriz garante não pretender recorrer para retornar à universidade. “Não volto para aquele hospício”, declarou, demonstrando sua firme decisão.
A Jornada Pessoal de Beatriz Bueno
Beatriz Bueno cresceu em uma família multirracial e conta que seus conflitos de identidade começaram dentro de sua própria casa. Antes da vida acadêmica, a pesquisadora trabalhou como operadora de caixa e chegou a se identificar como negra, influenciada pelo ativismo em alta no país a partir das manifestações de 2013.
Com o tempo e o avanço nos estudos, ela percebeu que essa identidade era uma “simulação” desconfortável. Assumiu-se como parda e, mais recentemente, converteu-se ao cristianismo, frequentando a Igreja Batista.
O foco de seu trabalho, diz Beatriz, vai além da reflexão acadêmica. Seu objetivo principal é dar o devido reconhecimento a quem se sente perdido no chamado “limbo racial”, um espaço de indefinição identitária.
“O objetivo, no fundo, é acolher as pessoas. Elas veem os meus vídeos e comentam: ‘Nossa, eu não estou louca! Não estou sozinha. Achei que era só eu que sentia isso’”, afirma Beatriz Bueno, ressaltando o impacto de sua pesquisa na vida de muitos.