A busca por serenidade em um dia de contrastes urbanos

Em um dia marcado pelo calor intenso e pela agitação típica de Quarta-feira de Cinzas no centro de Curitiba, uma experiência pessoal de introspecção se desenrola. O cenário de tumulto urbano, com suas ruas cheias e o sol implacável, contrasta com a busca por um refúgio interior, mediado pela música clássica. A narrativa explora como a percepção do ambiente e dos próprios sentimentos pode ser alterada pela arte e pela disposição em acolher a melancolia.

A vivência, descrita com detalhes sensoriais, revela um momento de silêncio voluntário em meio ao ruído externo e interno. A escolha de se entregar à música de Villa-Lobos, especificamente a Bachiana n.º 4, serve como catalisador para uma jornada de autoconhecimento. O texto aborda a complexidade de lidar com a tristeza, não como um inimigo a ser combatido, mas como uma emoção a ser experimentada em paz, permitindo que os sentimentos se manifestem sem resistência.

A reflexão se aprofunda ao contrastar a paisagem física da cidade, com seus edifícios imponentes e as tentativas de modernização, com o “sertão urbano” que se forma na indiferença e na desconexão. Essa dualidade entre o concreto e o interior, entre o barulho externo e o silêncio buscado, é o cerne da experiência relatada, conforme detalhado no relato.

O poder transformador da música erudita em meio ao caos urbano

Em uma Quarta-feira de Cinzas de calor escaldante no centro de Curitiba, a busca por um refúgio da opressão ambiental e da melancolia se materializa na escolha de ouvir a Bachiana n.º 4, de Heitor Villa-Lobos. O prelúdio da obra, descrito como um prelúdio em um deserto, inicialmente intensifica a sensação de desolação provocada pela luminosidade agressiva do sol e pela falta de alívio nas sombras. A música, longe de oferecer uma fuga imediata, parece ecoar a “gastura” e o “cansaço mortal” do ambiente, permitindo que a tristeza ganhasse forma e fosse reconhecida.

A narrativa descreve um abandono voluntário às influências externas, permitindo que a música guiasse o indivíduo através de um “sertão que há dentro da gente”. Essa metáfora aponta para a paisagem interior, que, embora possa parecer vazia, está repleta de “ruídos e distrações”. Em vez de lutar contra esses elementos, a decisão tomada foi a de “se calar”, permitindo que tudo falasse e, crucialmente, que o “coração sofresse em paz”. Essa aceitação da tristeza, sem a necessidade de combate, emerge como um ponto central da experiência.

A paisagem urbana de Curitiba, com a brutalidade do concreto e os edifícios que se estendem pela Avenida Marechal Deodoro, serve como pano de fundo para essa introspecção. A menção à iniciativa da prefeitura de criar uma “Times Square” local, com telas gigantes de LED, é vista com ceticismo, sugerindo que a cidade não precisa de mais “entulhos” ou “distrações”, mas sim de um olhar mais atento às suas próprias dinâmicas.

O sertão urbano: indiferença em meio à multidão

O conceito de “sertão urbano” é apresentado como uma experiência distinta da melancolia rural. Enquanto o sertão tradicional pode evocar imagens de vastidão e solidão, o sertão urbano, segundo a perspectiva do relato, cimenta a tristeza na indiferença. Em meio à multidão e ao bombardeio de estímulos visuais e sonoros, o indivíduo se desconecta dos apelos comerciais, como os megafones de lojas de cosméticos anunciando descontos, e ignora o fluxo incessante de pessoas se esbarrando nas esquinas. As vitrines, sejam elas convidativas ou fechadas e à venda, perdem seu poder de atração.

Essa desconexão se estende à percepção de elementos mais grandiosos, como os telões de LED que começam a dominar a paisagem urbana, e até mesmo ao céu azul que teima em se mostrar entre os prédios. A indiferença se torna um escudo, uma forma de proteger o espaço interior da invasão de um mundo que parece superficial e excessivamente estimulante. É um estado de reclusão voluntária, onde o barulho externo é silenciado pela barreira da apatia, permitindo que o foco se volte para o universo particular.

A indiferença, neste contexto, não é necessariamente um estado negativo, mas uma ferramenta para navegar em um ambiente saturado. É a capacidade de filtrar o que é supérfluo e preservar a energia mental para processar as próprias emoções. O “sertão urbano” é, portanto, um espaço de isolamento autoimposto, onde a observação se torna mais focada e a escuta, mais seletiva, abrindo caminho para uma compreensão mais profunda de si mesmo, longe das demandas e distrações do cotidiano.

A transfiguração da paisagem pela música: do deserto ao paraíso

O segundo movimento da Bachiana n.º 4 de Villa-Lobos opera uma profunda transfiguração na percepção do ambiente. A mesma luminosidade solar que, momentos antes, parecia recoberta de melancolia e “imolar”, agora suaviza a arquitetura da cidade. Os edifícios, antes percebidos como elementos opressores, passam a ser emoldurados pelo azul do céu, que subitamente assume o protagonismo. Essa mudança na percepção não é apenas visual, mas uma alteração na atmosfera emocional que envolve o indivíduo.

A música, com sua progressão e suas nuances, parece ter o poder de reinterpretar a realidade. O que era hostil se torna acolhedor, e a desolação inicial dá lugar a uma nova apreciação estética do espaço urbano. A capacidade da arte de alterar nosso estado de espírito e, consequentemente, nossa visão de mundo é evidenciada nesse momento, onde a música atua como uma lente que refina e embelezam a paisagem.

Essa transformação culmina com o reconhecimento, no terceiro movimento, da referência à cantiga popular “Caicó”: “Ó, mana, deix’eu ir / Ó, mana, eu vou só”. Essa conexão com a música popular e com a ideia de partida solitária, mas não necessariamente triste, preenche as sombras com doçura. Uma “saudade de não sei quê” refresca o tempo, sugerindo que a tristeza, em sua essência, pode ser uma forma de nostalgia por um estado de graça ou felicidade perdida, talvez uma “nostalgia do Paraíso”.

O encontro com o destino e a pausa na jornada musical

Ao se aproximar do final da experiência, o último movimento da obra de Villa-Lobos anuncia uma “chegada” iminente. A música, que até então servira como guia e catalisadora de emoções, parece preparar o terreno para um encontro, descrito metaforicamente como um “encontro em forma de cruz”. É neste ponto que o indivíduo chega ao seu destino, e a música é interrompida abruptamente, permanecendo inacabada.

Essa interrupção não é vista como uma falha, mas como um evento com significado próprio. A percepção de que “ainda é começo de Quaresma” sugere que a jornada de reflexão e introspecção está longe de terminar. A música inacabada se torna um reflexo desse processo em andamento, um convite para continuar a exploração interior. A pausa na escuta musical permite que os sons da cidade e as reflexões pessoais retomem seu espaço, mas agora sob uma nova perspectiva.

O destino alcançado pode ser tanto um local físico quanto um estado de espírito. A interrupção da música marca o fim de uma fase da jornada, mas não o fim da jornada em si. A “Quarta-feira de Cinzas”, com seu simbolismo de penitência e reflexão, estende-se, e a música inacabada serve como um lembrete de que o caminho para a serenidade e o autoconhecimento é contínuo e, por vezes, interrompido por novas etapas.

O retorno ao cotidiano: a resignação e a volta dos ruídos

Com as cinzas sobre a cabeça, símbolo da reflexão e do retorno a um estado de humildade, o indivíduo inicia o caminho de volta. A experiência de serenidade e introspecção proporcionada pela música gradualmente se dissipa, dando lugar ao retorno dos ruídos da cidade. A luminosidade do sol, que antes parecia agressiva e depois se tornou suave, agora enfraquece, enquanto as sombras se agigantam, marcando o fim do dia e, talvez, de um período de clareza.

Um pequeno deslize em relação ao jejum quaresmal é quase cometido, com a tentação de comprar um picolé de limão, mas a lembrança do propósito religioso e da disciplina a ser mantida prevalece. Esse episódio ilustra a fragilidade da vontade diante dos prazeres imediatos e a importância de manter o foco nos objetivos estabelecidos, mesmo em meio a distrações e tentações.

O brilho das televisões expostas nas vitrines de lojas de departamento atrai o olhar, exibindo cenas da apuração do desfile de carnaval carioca. As legendas das notícias na tela, com menções a assuntos como o banco Master, o STF e operações da Polícia Federal, reforçam o retorno à realidade e à complexidade do mundo exterior. A frase final, “e ao pó retornei”, encapsula um sentimento de resignação e a volta à condição terrena, após um breve interlúdio de profunda reflexão e conexão espiritual.

A reflexão sobre a tristeza e a busca pela paz interior

A experiência descrita no centro de Curitiba levanta questões profundas sobre a natureza da tristeza e a busca pela paz interior. Longe de ser um estado a ser evitado a todo custo, a tristeza é apresentada como uma emoção que pode ser acolhida e processada. A decisão de “deixar o coração sofrer em paz” é um ato de coragem e maturidade, que reconhece a importância de vivenciar todas as emoções humanas, sem julgamento ou resistência excessiva.

A música de Villa-Lobos, nesse contexto, funciona não como uma fuga da realidade, mas como uma ferramenta para aprofundar a compreensão de si mesmo e do mundo. Ao permitir que a música guiasse a experiência, o indivíduo se abre para novas percepções, transformando a paisagem urbana e seus próprios sentimentos. A transfiguração da luz e da arquitetura pela música demonstra o poder da arte em recontextualizar nossa realidade.

A “saudade de não sei quê” que surge ao final da jornada sugere que a tristeza pode estar intrinsecamente ligada a uma busca por algo perdido, talvez um estado de plenitude ou felicidade primordial. Essa “nostalgia do Paraíso” é uma forma de anseio por um estado ideal, que pode ser tanto individual quanto coletivo. Ao final, a volta ao “pó” não é um fim, mas um retorno à condição humana, com suas complexidades, alegrias e tristezas, sempre em busca de um equilíbrio e de uma paz que transcenda as circunstâncias externas.

Francisco Escorsim: um olhar filosófico sobre a experiência cotidiana

O autor da narrativa, Francisco Escorsim, é um intelectual com formação em Direito e Filosofia, atuando como professor e escritor. Sua obra se dedica a explorar temas filosóficos e literários, com publicações que abordam desde o imaginário até guias de entendimento de figuras contemporâneas como Jordan Peterson. A perspectiva apresentada em seus textos, como o relato sobre a Quarta-feira de Cinzas em Curitiba, oferece uma visão aprofundada sobre a experiência humana, utilizando o cotidiano como ponto de partida para reflexões mais amplas.

A forma como Escorsim descreve a experiência em Curitiba demonstra sua habilidade em conectar o observável – o calor, a paisagem urbana, a música – com o intangível – as emoções, os estados de espírito, as reflexões filosóficas. A capacidade de transformar um momento de introspecção em uma narrativa rica em metáforas e significados é uma marca de seu estilo, que convida o leitor a olhar para suas próprias experiências com um olhar mais crítico e reflexivo.

É importante notar que os textos de Francisco Escorsim, conforme ressaltado na própria fonte, não expressam necessariamente a opinião da Gazeta do Povo, veículo onde a coluna pode ser publicada. Essa ressalva reforça a autonomia intelectual do autor e a natureza pessoal e interpretativa de suas crônicas, que buscam estimular o debate e a introspecção em seus leitores.

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