Por que Presidentes Brasileiros São Derrubados: A Lição da Fragilidade do Poder Executivo

A história recente do Brasil é marcada por presidentes que, apesar de eleitos democraticamente e com apoio popular, enfrentaram processos de impeachment ou renunciaram. Fernando Collor, Dilma Rousseff e Jair Bolsonaro são exemplos de líderes que não conseguiram sustentar seus mandatos. A análise desses eventos sugere que a queda de um presidente no Brasil não se dá por simples mudanças de humor político ou descontentamento ideológico da população.

Em vez disso, as crises que levam à destituição de um chefe de Estado estão intrinsecamente ligadas à capacidade do governo de funcionar e de manter a ordem no sistema de poder que o cerca. A narrativa pública frequentemente aponta para corrupção, traição ou divergências ideológicas como causas, mas a raiz do problema reside na falha em organizar e gerenciar as forças políticas e institucionais.

Essa dinâmica, marcada pela dependência de uma base parlamentar sólida, é um padrão que se repete, independentemente da ideologia do governante. Conforme informações divulgadas por analistas políticos e publicações especializadas, a governabilidade no Brasil, na prática, assemelha-se a um parlamentarismo informal, onde a negociação e a formação de coalizões são essenciais para a sobrevivência e o sucesso de qualquer agenda governamental.

O Congresso Nacional: O Eixo da Governança Brasileira

A experiência de governos recentes demonstra que a falta de organização e articulação com o Congresso Nacional é um caminho quase certo para a instabilidade. Fernando Collor, o primeiro presidente eleito pelo voto direto após a redemocratização, apesar de seu simbolismo de reconstrução democrática, caiu justamente por perder o controle do Legislativo. Sua legitimidade popular não foi suficiente para mantê-lo no cargo diante da fragmentação do apoio parlamentar.

Da mesma forma, Dilma Rousseff, que sucedeu Lula e representava a continuidade de um projeto político considerado sólido, também enfrentou a queda. A análise de seu processo de impeachment aponta para a subestimação do custo institucional de governar sem uma maioria parlamentar estável. A dificuldade em negociar e construir pontes com os diversos blocos partidários no Congresso foi um fator determinante em sua derrocada.

Esses casos não são exceções, mas sim a evidência de um padrão de funcionamento do sistema político brasileiro. O presidencialismo de coalizão, como é frequentemente descrito, exige que o presidente estabeleça uma base de apoio consistente no parlamento para aprovar leis, implementar reformas e, fundamentalmente, garantir a governabilidade. Sem essa base, o governo se torna vulnerável a crises e à paralisia.

O Papel do Centrão e a Lógica da Sobrevivência Política

O termo “Centrão” tornou-se um rótulo popular para descrever um conjunto de partidos que, muitas vezes, atuam como moeda de troca para a formação de maiorias no Congresso. Embora frequentemente demonizado no debate público, o Centrão é, na verdade, a manifestação mais visível de um mecanismo que o próprio sistema político brasileiro exige: a necessidade de formar maiorias para governar.

Em democracias parlamentaristas clássicas, a formação de maiorias se dá por meio de pactos programáticos, onde partidos se unem em torno de propostas e ideologias comuns. No Brasil, no entanto, a lógica muitas vezes se inverte, e os arranjos são frequentemente baseados em interesses de sobrevivência política e na distribuição de cargos e recursos. Essa dinâmica, quando sai do controle, pode levar a excessos, como o escândalo do Mensalão, onde a busca por governabilidade se transformou em promiscuidade política.

A existência do Centrão, portanto, não é um defeito intrínseco do grupo em si, mas uma resposta à estrutura do sistema político brasileiro, que demanda a articulação de grandes coalizões para que o governo consiga avançar. A falta de um sistema partidário mais coeso e ideologicamente definido leva à formação desses blocos pragmáticos, que se tornam cruciais para a sustentação do poder executivo.

A Tentativa de Bolsonaro e a Entrega de Poder ao Centrão

Jair Bolsonaro, em sua tentativa de governar, apostou em uma estratégia diferente da negociação parlamentar tradicional. Ele buscou exercer o poder por meio da pressão pública, da comunicação direta com sua base eleitoral e da mobilização de suas redes sociais, apesar de sua própria experiência de seis mandatos no Congresso.

Essa abordagem, contudo, mostrou-se insuficiente para garantir a governabilidade a longo prazo. Para sobreviver e conseguir avançar em sua agenda, Bolsonaro acabou por entregar ao Centrão um poder de barganha e influência maior do que qualquer outro presidente desde a redemocratização. A nomeação de aliados do Centrão para ministérios estratégicos, como a Casa Civil com Ciro Nogueira, exemplifica essa entrega de poder, evidenciando a necessidade de acomodação com as forças parlamentares para a manutenção do governo.

A estratégia de Bolsonaro, de tentar prescindir da negociação política tradicional, acabou por reforçar a importância do Congresso na dinâmica de poder brasileira. A incapacidade de construir uma base sólida no Legislativo limitou sua margem de manobra e o forçou a ceder a demandas que, em última instância, enfraqueceram sua autonomia e reforçaram o poder dos blocos partidários.

Lula e o Governo por Contenção: Um Equilíbrio Delicado

O terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva apresenta um cenário de governabilidade construído de forma distinta. Em vez de uma força política própria avassaladora, o governo opera por meio de um complexo arranjo de contenção entre as diversas esferas de poder: o Congresso Nacional, o Poder Judiciário, o mercado financeiro e os governadores estaduais.

Nesse modelo, o país funciona, mas sob uma tensão permanente. A estabilidade não emana de uma maioria parlamentar consolidada, mas sim de um equilíbrio delicado entre interesses diversos, onde cada um dos atores exerce uma influência significativa e, por vezes, limitadora. Essa configuração busca evitar a paralisação, mas também impõe restrições à capacidade de ação do Executivo.

Essa forma de governar, marcada pela negociação constante e pela necessidade de gerenciar expectativas de diferentes grupos, reflete a complexidade do sistema político brasileiro. A busca por consenso e a evitação de conflitos abertos tornam-se estratégias centrais, mas também podem gerar lentidão na tomada de decisões e na implementação de políticas.

Experiências Internacionais: Grandes Coalizões e Estabilidade

A fragmentação política e a dificuldade em formar maiorias estáveis não são exclusividades do Brasil. Países como Alemanha, Dinamarca e Áustria já enfrentaram períodos de instabilidade e perda de governabilidade devido a sistemas partidários pulverizados.

A resposta a essas crises, em tais nações, não foi ideológica, mas sim institucional. Adotaram-se soluções como a formação de “grandes coalizões” de centro, reunindo os principais partidos para garantir a estabilidade do Estado e a continuidade das políticas públicas. Essas experiências demonstram que, em contextos de alta fragmentação, a colaboração entre forças moderadas pode ser um caminho eficaz para assegurar o funcionamento da democracia.

Esses exemplos internacionais reforçam a ideia de que a estabilidade política não é um resultado de discursos inflamados ou de polarização, mas sim de uma engenharia política cuidadosa. A construção de consensos, a previsibilidade nas ações governamentais e a capacidade de gerenciar conflitos são fundamentais para atrair investimentos, promover o desenvolvimento e reduzir as tensões sociais.

O Futuro da Governança no Brasil: Engenharia Política e Estado Funcional

O Brasil se encontra, mais uma vez, em um limiar decisivo. A polarização política gera muito barulho e debate, mas o poder real, nas democracias modernas, opera por meio da acomodação e da negociação entre as forças moderadas. O desafio reside em transformar essa realidade em um projeto explícito de governo, com lideranças capazes de articular essas tendências.

A eleição de 2026, assim como as próximas disputas políticas, não será decidida apenas por quem fala mais alto ou por divisões ideológicas superficiais. O fator determinante será a capacidade de um candidato ou grupo político em convencer o país de que possui as ferramentas e a visão para fazer o Estado funcionar de maneira eficaz e previsível.

A lição da história recente é clara: Collor caiu por falta de apoio parlamentar, Dilma foi derrubada por não conseguir gerenciar sua base no Congresso, e Bolsonaro precisou ceder ao poder do Legislativo para sobreviver. Lula, por sua vez, governa sob um delicado arranjo de contenção. O sistema político em si não demonstra sinais de mudança drástica. O que precisa ser transformado é a forma como ele é ocupado e gerido.

A Necessidade de um Estado que Volte a Funcionar

Em última análise, o Brasil não precisa de um “salvador” que resolva todos os problemas com discursos messiânicos. O que o país verdadeiramente necessita é de um Estado que funcione de maneira eficiente e previsível, capaz de entregar serviços públicos de qualidade, promover o desenvolvimento econômico e garantir a estabilidade social.

Isso requer uma liderança política que compreenda as complexidades do sistema e saiba navegar pelas suas engrenagens, construindo pontes, negociando consensos e, acima de tudo, priorizando a governabilidade e o bom funcionamento das instituições. A engenharia política, e não apenas a retórica, será a chave para superar os desafios e garantir um futuro mais estável e próspero para o Brasil.

A busca por um Estado funcional é um imperativo que transcende ideologias. É a base sobre a qual se constrói a confiança dos cidadãos e a credibilidade do país no cenário internacional. As próximas eleições e os anos vindouros serão um teste para a capacidade de o Brasil encontrar essa fórmula de governança que garanta estabilidade e progresso, superando a lógica do conflito permanente.

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