A imagem de Nicolás Maduro com olhos cobertos, abafadores de ouvido e trajes civis sob custódia americana entrou para a história. Divulgada pelo presidente Donald Trump em 3 de dezembro, a fotografia rapidamente viralizou, ilustrando de forma crua a queda de um líder que por anos desafiou Washington.
O retrato chocou o mundo, marcando o fim de uma era em que Maduro construiu sua imagem política a partir do confronto retórico com os Estados Unidos. Durante muito tempo, o venezuelano demonstrou grande desenvoltura em minimizar, ironizar e até debochar da escalada de tensões com a potência norte-americana, mesmo diante de sanções severas e acusações criminais.
Esse comportamento performático, segundo apuração do New York Times com funcionários da administração republicana, teve um peso real nas avaliações internas em Washington sobre como lidar com o regime de Maduro. Foi, inclusive, decisivo para Trump autorizar a captura do líder venezuelano em Caracas.
A ‘Última Dancinha’ e o Desafio Musical
O episódio mais recente e simbólico do deboche de Maduro ocorreu em 31 de dezembro, durante um evento oficial transmitido pela televisão estatal. O líder venezuelano apareceu dançando ao som de uma música eletrônica que remixava frases usadas por ele próprio em discursos anteriores, como “paz sim” e “não à guerra”.
Em tom de zombaria, Maduro comentou ao microfone: “É a música número um da temporada venezuelana, não poderia barrar da lista da Billboard [a parada de sucesso musicais nos EUA]”. Antes, em 23 de outubro, ele já havia adotado tom semelhante em uma assembleia com sindicatos chavistas, misturando inglês para ironizar os alertas vindos da Casa Branca.
“Sim, paz, sim, paz, para sempre, paz para sempre. Nenhuma guerra louca! Não à guerra louca! Nenhuma guerra louca!”, bradou Maduro, conforme repercutido nas redes oficiais do regime. Essa encenação destacava sua postura de desafio aos EUA.
Ironia e Canções: O ‘John Lennon’ da Venezuela
A postura de Nicolás Maduro não era nova. Em fevereiro de 2019, após os Estados Unidos anunciarem novas sanções e reforçarem que “todas as opções estavam sobre a mesa”, Maduro foi à TV. Em cadeia nacional, o líder respondeu cantando trechos de “Imagine”, o clássico pacifista do ex-beatle John Lennon.
Na ocasião, o venezuelano se apresentou como vítima de uma suposta perseguição imperialista e ironizou o discurso norte-americano. Caracas já vivia um momento de forte isolamento internacional, mas Maduro mantinha sua postura de deboche.
Hollywood e Risadas: Subestimando as Acusações
Maduro voltou ao sarcasmo já em março de 2020, quando o Departamento de Justiça dos EUA formalizou acusações de narcoterrorismo e ofereceu uma recompensa milionária por informações que levassem à sua captura. O líder classificou as denúncias como um “show de Hollywood” e riu diante das câmeras ao afirmar que os Estados Unidos estavam “desesperados” e não tinham provas concretas.
Em 2022, com a manutenção das sanções econômicas e novas advertências do governo americano, o venezuelano voltou a zombar da pressão externa. Em discurso televisionado, disse que as punições eram “papéis sem valor” e que a Venezuela havia aprendido a “rir das ameaças” vindas do Norte, reforçando seu comportamento desafiador.
O ‘Latir sem Morder’ que Virou Realidade
O tom jocoso se repetiu em 2024. Após falas de autoridades dos EUA sobre possíveis medidas mais duras contra o regime, o venezuelano ironizou os alertas em um ato público transmitido pelas redes oficiais. Chamou-os de “ameaças recicladas” e afirmou que os Estados Unidos “latem muito, mas não mordem”, arrancando aplausos de apoiadores.
As piadas, músicas, encenações e bravatas consolidaram a imagem de um líder que tratava a pressão americana como blefe. Uma sucessão de gestos que, segundo avaliações em Washington, contribuiu para a percepção de que Maduro subestimava os riscos ao desafiar repetidamente os EUA em público.
O desfecho, materializado na imagem divulgada por Trump, mostrou que o confronto, até então apenas no discurso, teve consequências reais. A prisão de Maduro marcou o fim da brincadeira para o líder venezuelano, transformando o deboche em uma realidade implacável.