O Fim da Era ESG: A Reversão Inesperada de Wall Street em Seus Compromissos Climáticos, Deixando o Aquecimento Global em Segundo Plano
Em um movimento que surpreendeu o mundo financeiro e ambiental, as grandes instituições de Wall Street, que antes clamavam por uma “reformulação fundamental das finanças” para combater o aquecimento global, agora parecem ter virado as costas para seus próprios compromissos. O entusiasmo inicial por investimentos com foco ambiental, social e de governança (ESG) deu lugar a um recuo significativo, com alianças se desfazendo e menções ao clima caindo drasticamente nas comunicações corporativas.
Essa mudança representa um marco na forma como o setor financeiro global aborda a crise climática. O que começou como uma promessa ambiciosa de usar o capitalismo como ferramenta para salvar o planeta, impulsionada por figuras proeminentes como Larry Fink da BlackRock, agora se depara com um cenário de desengajamento e “pragmatismo energético”.
Acompanhe a seguir como a capital financeira dos Estados Unidos se afastou da agenda verde e quais foram os fatores que levaram a essa guinada, conforme informações detalhadas divulgadas pelo jornal The New York Times.
O Impulso Verde de Wall Street e a Ascensão do ESG
O pontapé inicial para o engajamento de Wall Street com as mudanças climáticas ocorreu em janeiro de 2020. Naquele momento, Larry Fink, CEO da BlackRock, a maior gestora de ativos do mundo, chocou o mercado ao declarar que usaria os trilhões de dólares sob sua gestão para enfrentar o aquecimento global. “Cada governo, empresa e acionista deve enfrentar as mudanças climáticas”, escreveu Fink, exigindo uma “reformulação fundamental das finanças”.
Poucos dias depois, em Davos, Suíça, para o Fórum Econômico Mundial, Fink usava um cachecol com as “listras de aquecimento”, um símbolo do aumento das temperaturas globais ao longo de 150 anos. Seu apelo apaixonado deu início a um movimento. Rapidamente, quase todas as principais instituições financeiras se comprometeram a reduzir emissões, aderindo a alianças ambiciosas para eliminar gradualmente os combustíveis fósseis e apoiar a energia limpa.
Os fatores ambientais, sociais e de governança, conhecidos como ESG, tornaram-se uma característica definidora dos investimentos em Wall Street. O JPMorgan, por exemplo, declarou que adotaria um “compromisso de financiamento alinhado aos objetivos do Acordo de Paris”, visando manter o aquecimento global abaixo de 1,5° Celsius. Bancos como JPMorgan, Citigroup e Bank of America prometeram coletivamente destinar US$ 5 trilhões em financiamento sustentável até 2030.
Na cúpula do clima da ONU em 2021 (COP26), em Glasgow, a ambição cresceu ainda mais. Mark Carney, ex-governador do Banco da Inglaterra, convocou a Aliança Financeira de Glasgow para o Net Zero, que prometeu aproveitar o poder coletivo de seus membros, cerca de US$ 130 trilhões em ativos, para deter o aquecimento global. Mais de 450 grupos financeiros aderiram, incluindo BlackRock, Bank of America e Citi.
A Lógica Financeira por Trás da Ação Climática
Apesar da retórica idealista, o dinheiro foi o principal motivador para Wall Street se importar com as mudanças climáticas. Em 2019, grandes clientes da BlackRock, como fundos soberanos japoneses e europeus e fundos de pensão, começaram a demandar mais fundos com foco ambiental. A promessa de criar produtos que beneficiassem o planeta significava mais dinheiro sob gestão.
Larry Fink percebeu a oportunidade. “Larry decidiu ser um líder na tendência”, disse Mindy Lubber, diretora executiva da Ceres, uma organização que trabalha com empresas em questões climáticas. “Funcionou até deixar de funcionar”. Outros gigantes de Wall Street seguiram o exemplo, vendo a oportunidade de lucrar com a transição energética. John Kerry, então enviado presidencial especial dos EUA para o clima, afirmou: “Os maiores players financeiros do mundo reconhecem que a transição energética representa uma vasta oportunidade comercial, além de um imperativo planetário.”
No entanto, a prática de atingir as metas do Acordo de Paris significaria uma rápida transição dos combustíveis fósseis para fontes de energia limpa, como eólica e solar. Para um banco como o JPMorgan, um dos maiores financiadores de projetos de combustíveis fósseis, isso implicaria reduzir uma linha de negócios extremamente lucrativa. Dentro da própria BlackRock, havia ceticismo, como o de Terrence Keeley, um alto executivo que supervisionava fundos soberanos e pensões.
“Todos esses fundos ESG estão errados”, disse Keeley, que deixou a BlackRock em 2022. “Eles não iriam gerar melhores retornos. Eles não vão tornar o mundo um lugar melhor. O ESG como tese de investimento deveria ser completamente encerrado”. Apesar das dúvidas internas, 2021 foi um ano de sucesso para a BlackRock, atraindo quase US$ 25 bilhões em novos ativos para seus fundos ESG.
A Reação Conservadora e o Contra-Ataque ao ESG
Quase no mesmo momento em que os executivos em Glasgow celebravam seus planos, um grupo de tesoureiros estaduais republicanos se reunia em Orlando, Flórida, para planejar como deter o que viam como uma agenda liberal imposta pelo setor financeiro. Em questão de meses, esses tesoureiros retiraram mais de US$ 1 bilhão de fundos da BlackRock, dando início a uma ampla reação contra a agenda ESG.
Políticos conservadores e comentaristas da mídia começaram a pressionar Wall Street para se distanciar da causa climática. Esses esforços foram apoiados por organizações de pesquisa como a Heritage Foundation e o Heartland Institute, grandes financiadores conservadores, incluindo os irmãos Koch e Leonard Leo, e grupos da indústria de combustíveis fósseis, como o American Petroleum Institute.
A situação escalou quando, em 2022, um grupo apoiado pela ONU, o Race to Zero, parceiro da aliança de Glasgow, atualizou suas expectativas, pressionando as instituições financeiras a parar de fazer negócios com empresas de carvão. Isso acendeu um alerta em Wall Street, e os conservadores aproveitaram a oportunidade, discutindo ações antitruste contra empresas participantes da aliança.
Críticos também acusaram as empresas que seguiam estratégias ESG de negligenciar seu dever de maximizar lucros para os acionistas. Em resposta às preocupações, a aliança de Glasgow rompeu seus laços com o Race to Zero no final de 2022. No entanto, o dano já estava feito. Legislaturas republicanas introduziram mais de 100 projetos de lei para penalizar empresas financeiras que apoiavam práticas ESG, e investigações foram abertas contra a BlackRock e outras empresas por seus compromissos climáticos.
O Colapso dos Compromissos e o Futuro Incerto
O ponto de virada definitivo ocorreu após a reeleição do presidente Donald Trump em novembro de 2024. Quase todos os principais bancos e instituições financeiras americanas se retiraram da Net-Zero Banking Alliance, levando ao colapso do grupo. Em seguida, grandes bancos e instituições financeiras se retiraram da iniciativa Net Zero Asset Managers, que logo depois “suspendeu atividades”, com planos de ser relançada este ano.
O Bank of America, que havia prometido parar de financiar carvão e perfuração no Ártico, recuou desses compromissos. A BlackRock, por sua vez, reduziu drasticamente seu apoio a propostas de acionistas sociais e ambientais. Em um comunicado, Chris Berger, porta-voz da BlackRock, afirmou que a empresa construiu a maior plataforma do setor para investir em práticas empresariais sustentáveis e na transição energética, com mais de US$ 1 trilhão em ativos sob gestão.
Contudo, a mudança de tom é inegável. Na carta mais recente de Larry Fink aos investidores, não houve menção às mudanças climáticas. Em vez disso, ele enfatizou a necessidade de “pragmatismo energético”. Um ex-executivo da BlackRock, que pediu anonimato, resumiu a situação: “Foi um monte de promessas vazias de um monte de tipos de Wall Street que abandonaram seus compromissos quando não era mais conveniente. Marchamos colina acima e marchamos de volta para baixo.”
A história de como Wall Street virou as costas para as mudanças climáticas serve como um lembrete da complexa interação entre ideais ambientais, interesses financeiros e pressões políticas, moldando o futuro da sustentabilidade no cenário global.