Acadêmicos de Niterói rebaixada após polêmico desfile em homenagem a Lula no Carnaval do Rio
A Acadêmicos de Niterói sofreu o rebaixamento para a Série Ouro do Carnaval do Rio de Janeiro após conquistar a última colocação no Grupo Especial. A escola de samba, que escolheu o presidente Luiz Inácio Lula da Silva como tema de seu enredo, acumulou 264,6 pontos, recebendo apenas duas notas 10 no quesito samba-enredo, o que selou seu destino na competição.
O desfile, intitulado “Do alto do mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”, buscou traçar a trajetória do presidente, atraindo a atenção do próprio Lula, que acompanhou a apresentação de um camarote oficial. No entanto, a homenagem se estendeu a críticas a opositores políticos, com menções a Jair Bolsonaro como “palhaço” e “presidiário”, além de uma alegoria que ridicularizou símbolos conservadores.
As controvérsias em torno do desfile foram além da apuração das notas. A escola declarou ter sofrido “perseguição política” e “ataques de setores conservadores”, além de tentativas de interferência em sua autonomia artística. A situação também gerou desdobramentos judiciais, com ações que apontavam propaganda eleitoral antecipada, embora tenham sido rejeitadas. A notícia detalha os desdobramentos desse desfile que marcou o Carnaval carioca, conforme informações divulgadas pela imprensa.
Desfile Polêmico e Reações Políticas: O Enredo que Dividiu Opiniões
A Acadêmicos de Niterói optou por um enredo ousado em sua estreia no Grupo Especial, dedicando sua apresentação ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O tema “Do alto do mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil” narrou a trajetória do petista, desde suas origens como metalúrgico até a presidência. A escolha gerou grande repercussão, com o próprio presidente acompanhando o desfile no camarote da Prefeitura do Rio.
No entanto, o que poderia ser apenas uma homenagem se transformou em um campo de batalha político e artístico. A escola não se limitou a exaltar a figura de Lula, mas também incluiu críticas contundentes a seus opositores. Trechos do desfile mencionaram o ex-presidente Jair Bolsonaro de forma pejorativa, rotulando-o como “palhaço” e “presidiário”. Essa abordagem, embora esperada por alguns dada a polarização política, intensificou as tensões.
A primeira-dama, Rosângela Silva, a Janja, chegou a desistir de participar como destaque em uma das alegorias, citando as inúmeras ações judiciais que o desfile enfrentou. Antes mesmo da apresentação, a oposição acionou a Justiça Federal e o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), alegando propaganda eleitoral antecipada. Apesar das contestações, todas as ações foram rejeitadas pela Justiça.
Controvérsia da Alegoria “Conservadores em Conserva” e a Reação da Direita
Um dos carros alegóricos que mais gerou indignação foi o intitulado “Conservadores em Conserva”. A estrutura apresentava componentes fantasiados como latas e xícaras, em uma clara sátira a símbolos e grupos conservadores, incluindo representações que ridicularizavam a Bíblia, os evangélicos e o agronegócio. Essa alegoria se tornou um dos pontos centrais das críticas e debates posteriores ao desfile.
A reação de setores conservadores não tardou. Em resposta à alegoria, a tendência “Família em Conserva” ganhou força nas redes sociais, com usuários postando fotos de suas famílias em latas de conserva, como forma de protesto e ironia. O deputado Otoni de Paula (MDB-RJ) classificou o desfile como um “desastre total” e um “ataque deliberado às famílias”. Ele expressou a dificuldade em acreditar que Lula não estivesse ciente do conteúdo da ala.
O presidente do PT, Edinho Silva, por sua vez, considerou a reação da direita como “ridícula” e uma tentativa de desviar o foco de questões mais relevantes para o país. Ele minimizou a possibilidade de uma nova crise com o eleitorado evangélico, afirmando que “tentar desgastar o presidente politicamente por conta das escolhas de alegorias da Acadêmicos de Niterói chega às raias do ridículo”.
Acusações de Preconceito e Queixa-Crime contra a Escola de Samba
A representação dos evangélicos e de outros grupos conservadores na alegoria “Conservadores em Conserva” provocou reações severas e levou à apresentação de uma queixa-crime. Senadores da oposição formalizaram a denúncia junto à Procuradoria-Geral da República (PGR), acusando a Acadêmicos de Niterói de crime de preconceito, equiparado ao racismo, pela forma como esses grupos foram retratados.
A escola, por meio de nota, defendeu-se das acusações e declarou que a sua apresentação artística sofreu “perseguição política” e “ataques de setores conservadores”. A agremiação também mencionou “tentativas de interferência direta na nossa autonomia artística, com pedidos de mudança de enredo, questionamentos sobre a letra do samba e outras ações que buscaram nos enquadrar e nos silenciar”.
A polêmica em torno da alegoria e das acusações de preconceito adicionou mais uma camada de complexidade ao já turbulento desfile da Acadêmicos de Niterói. A questão levanta debates sobre os limites da liberdade de expressão artística no Carnaval e o impacto das representações em grupos sociais específicos.
Financiamento Público e a Polêmica Verba de R$ 1 Milhão
A Acadêmicos de Niterói, assim como as demais escolas do Grupo Especial, recebeu um aporte financeiro significativo para o Carnaval. O Ministério da Cultura e a Embratur firmaram um Termo de Cooperação Técnica com a Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (Liesa), no valor total de R$ 12 milhões. Desse montante, cada uma das 12 escolas do Grupo Especial recebeu R$ 1 milhão.
O recebimento dessa verba pública, em um contexto de desfile com forte teor político e que gerou tantas controvérsias, intensificou o debate sobre o uso de recursos públicos em manifestações artísticas que podem, ou não, agradar a todos os segmentos da sociedade. A escola, por sua vez, defendeu sua autonomia artística e a liberdade de expressão como pilares de sua atuação.
A distribuição igualitária dos recursos entre as escolas do Grupo Especial visava garantir a estrutura e a qualidade dos desfiles, independentemente dos temas escolhidos. Contudo, a polêmica em torno do enredo sobre Lula e as críticas direcionadas à alegoria “Conservadores em Conserva” colocaram em xeque a neutralidade do financiamento público, gerando discussões sobre a responsabilidade e os critérios de seleção de temas para o Carnaval.
Desempenho na Sapucaí: O Resultado Final e o Rebaixamento
Apesar de toda a repercussão midiática e política em torno de seu desfile, o desempenho da Acadêmicos de Niterói na avenida resultou em seu rebaixamento para a Série Ouro. A escola obteve a menor pontuação entre as agremiações do Grupo Especial, totalizando 264,6 pontos. A pontuação final reflete a avaliação dos jurados em diversos quesitos, como harmonia, evolução, enredo, samba-enredo, fantasias e alegorias.
O quesito samba-enredo, que deveria ser um dos pontos fortes de uma homenagem, recebeu apenas duas notas 10, evidenciando que, mesmo com a escolha de um tema de grande projeção nacional, a execução e a qualidade musical não alcançaram o nível esperado pelos avaliadores em sua totalidade. Outros quesitos, como alegorias e adereços, também podem ter impactado a pontuação final.
O rebaixamento para a Série Ouro significa que a Acadêmicos de Niterói terá que disputar o acesso de volta ao Grupo Especial no próximo ano. A escola, em sua conta nas redes sociais, demonstrou resiliência e espírito de luta, publicando uma imagem do desfile com a mensagem: “A arte não é para covardes. Comunidade, vocês foram gigantes. Quanto vale entrar para a história?”. A declaração sugere que a escola se sente vitoriosa pela ousadia artística, mesmo diante do resultado adverso na competição.
A Defesa da Escola: Perseguição Política e Autonomia Artística
Após o desfile e a divulgação do resultado que culminou em seu rebaixamento, a Acadêmicos de Niterói emitiu um comunicado oficial alegando ter sido alvo de “perseguição política”. A escola afirmou que sofreu “ataques de setores conservadores e, de forma ainda mais grave, de gestores do Carnaval carioca”. Segundo a agremiação, houve “tentativas de interferência direta na nossa autonomia artística”, incluindo pedidos para alterar o enredo e questionamentos sobre a letra do samba.
A escola de samba argumentou que tais ações buscavam “nos enquadrar e nos silenciar”, minando a liberdade criativa que, segundo eles, é essencial para a arte. Essa declaração reforça a visão da escola de que o resultado adverso não foi apenas uma questão de desempenho na avenida, mas também influenciado por pressões externas e um ambiente político hostil.
A defesa da autonomia artística é um ponto crucial para as escolas de samba, que frequentemente utilizam seus desfiles como plataforma para abordar temas sociais, históricos e políticos. A Acadêmicos de Niterói, ao escolher um enredo sobre Lula e incluir críticas a opositores, exerceu essa prerrogativa, mas acabou por enfrentar as consequências dessa escolha em um cenário de intensa polarização política.
O Papel do TSE e as Ações Eleitorais Contra o Desfile
A polêmica em torno do desfile da Acadêmicos de Niterói extrapolou os limites do Carnaval e chegou à esfera eleitoral. Antes mesmo da apresentação na Sapucaí, a oposição acionou a Justiça Eleitoral, incluindo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e a Justiça Federal, com ações que apontavam suposta propaganda eleitoral antecipada. O argumento era que o enredo e a homenagem a Lula configurariam uma promoção indevida do então pré-candidato.
No entanto, todas as ações movidas contra a escola foram rejeitadas pelos órgãos competentes. A Justiça entendeu que a homenagem, dentro do contexto do Carnaval e de uma manifestação artística, não configurava, de forma clara e incontestável, propaganda eleitoral antecipada. Essa decisão permitiu que o desfile ocorresse conforme planejado pela agremiação.
Apesar das rejeições, o partido Novo protocolou uma ação no TSE pedindo a inelegibilidade do presidente Lula, alegando que o desfile, mesmo que judicialmente liberado, teria servido como plataforma para a sua promoção política. Essa ação demonstra a persistência da oposição em buscar vias legais para contestar eventos que consideram prejudiciais à sua imagem ou favoráveis aos seus adversários políticos, mesmo fora do período eleitoral oficial.
O Futuro da Acadêmicos de Niterói na Série Ouro
Com o rebaixamento para a Série Ouro, a Acadêmicos de Niterói inicia um novo ciclo com o objetivo de retornar ao Grupo Especial. A escola, que teve sua estreia na elite do Carnaval carioca marcada por um enredo de forte teor político e controvérsias, agora terá a tarefa de reconquistar seu espaço entre as principais agremiações.
A experiência deste ano, embora tenha culminado em um resultado desfavorável, certamente trará lições importantes para a escola. A capacidade de mobilização da comunidade e a ousadia artística demonstrada, mesmo que criticada, podem ser fatores a serem capitalizados em futuras apresentações. A escola já demonstrou, em suas redes sociais, que não se arrepende da escolha temática e que vê o desfile como um marco histórico.
O desafio agora é manter a força e a paixão de sua comunidade, ao mesmo tempo em que se prepara para um novo desfile na Série Ouro. A expectativa é que a escola mantenha a qualidade de suas produções e, com a experiência adquirida, consiga superar os obstáculos e retornar ao Grupo Especial, provando sua resiliência e a força de sua arte.