A recente ação militar dos Estados Unidos na Venezuela, que culminou na prisão do ditador Nicolás Maduro, acende um alerta significativo para o Brasil. A operação, justificada pelo combate ao narcotráfico, levanta a preocupação de que líderes e membros de facções criminosas transnacionais busquem refúgio em território brasileiro.
Este cenário de instabilidade no país vizinho pode desencadear uma fuga de traficantes e outros criminosos. Eles antes se sentiam protegidos pelo regime de Maduro, mas agora temem ser alvos das forças americanas, dada a principal justificativa para a ação da Casa Branca.
A extensa e porosa fronteira amazônica do Brasil torna-se, então, um potencial caminho para a entrada desses indivíduos. A situação gera debates acalorados entre especialistas em segurança pública e pesquisadores do crime organizado, que avaliam os riscos e a capacidade do Brasil de responder a essa ameaça iminente, conforme informações divulgadas.
Ameaça na Fronteira Amazônica: Falta de Capacidade Operacional
O coronel da reserva da Polícia Militar e advogado Alex Erno Breunig, integrante da Federação Nacional de Entidades de Oficiais Militares, avalia que o governo federal não dispõe, hoje, de capacidade operacional para impedir o ingresso ilegal de criminosos pela fronteira com a Venezuela.
Ele ressalta uma lacuna no controle efetivo, indicando que o país carece de recursos para enfrentar essa possível ameaça de fuga de traficantes. Segundo Breunig, a atuação do Estado brasileiro se concentra basicamente na triagem e no acolhimento de refugiados que entram de forma regular, sobretudo pela ponte internacional de Pacaraima, em Roraima.
Contudo, essa abordagem não alcança de maneira efetiva os fluxos clandestinos, que são os mais preocupantes para a segurança nacional. Para Breunig, conter uma eventual fuga de criminosos exigiria um esforço logístico e operacional que o país não consegue mobilizar.
Isso incluiria um recobrimento permanente da fronteira terrestre, monitoramento contínuo dos rios e uma vigilância eficaz do espaço aéreo. O coronel alerta que o risco mais sensível não está na entrada de criminosos comuns, mas na possível “importação” de líderes de organizações criminosas.
Estes contam com redes de relacionamento e recursos financeiros suficientes para ingressar no Brasil de forma “discreta e confortável”. Eles utilizariam aeronaves particulares ou embarcações de luxo, inclusive com escalas em outros países, dificultando a fiscalização.
Posição do Governo: Fronteira “Sob Controle”
Em contraste, o ministro da Defesa, José Múcio Monteiro Filho, ameniza os riscos percebidos. Ele declarou que a fronteira segue aberta e sob controle, destacando que o efetivo disponível é considerado adequado para garantir a segurança da região.
De acordo com o ministro, desde o fim de semana da operação americana, há cerca de 200 militares posicionados diretamente na fronteira. Além disso, aproximadamente 2.300 estão em Roraima e um contingente total de dez mil homens está distribuído pela Amazônia, fortalecendo a segurança local.
Múcio avaliou que, neste momento, “não há necessidade de reforçar o efetivo na área fronteiriça”. Ele afirmou ainda que a situação é de tranquilidade, e que as Forças Armadas acompanham o cenário com atenção, “em meio a informações divergentes que circulam sobre os desdobramentos do caso”.
Inteligência e Vigilância Redobrada: O Caminho para a Contenção
Para o investigador aposentado das forças federais de segurança, Sérgio Leonardo Gomes, a fronteira amazônica brasileira exige vigilância redobrada. Ele explica que essa região é historicamente explorada por organizações criminosas estrangeiras devido à sua extensão territorial e às dificuldades de fiscalização permanente.
Gomes aponta que o caminho mais eficaz para conter eventuais fugas de criminosos passa por um trabalho intenso de inteligência. Este trabalho seria capaz de antecipar movimentos e identificar rotas utilizadas pelos criminosos, sendo a proatividade crucial para evitar surpresas na segurança.
No entanto, o investigador ressalta que a efetividade dessas ações depende diretamente do grau de interesse e do empenho do governo brasileiro em impedir a entrada no país. Isso inclui tanto líderes do narcotráfico venezuelano quanto eventuais integrantes do alto escalão militar ligados ao regime de Nicolás Maduro. A vontade política é fundamental.
O Cenário de Intensificação e Grupos Criminosos Já Atuantes
Apesar de ainda não haver evidências de que a ação militar dos Estados Unidos para capturar Maduro já tenha provocado uma debandada de membros de cartéis e facções para países da América do Sul, analistas avaliam que isso possa ocorrer no médio prazo.
Isso acontecerá conforme as ações americanas se intensificarem contra o narcoterrorismo na Venezuela. Para o Brasil, esse caminho seria facilitado porque se tratam de grupos criminosos venezuelanos já identificados em território brasileiro. Eles oferecem preocupações estruturais anteriores à captura de Maduro, especialmente na região da Amazônia.
“Se houver uma debandada, ela pode ocorrer nos capítulos seguintes das ações dos Estados Unidos em solo venezuelano e especificamente contra os cartéis e traficantes. São pelo menos três rotas prováveis de fuga: Colômbia, Guiana Francesa e Brasil”, alerta o sociólogo e especialista em segurança pública Marcelo Almeida.
Outro item de atenção é que a organização criminosa conhecida como Tren de Aragua, a principal da Venezuela, é apontada por autoridades e relatórios de segurança como já presente em Boa Vista, Roraima. Ela está envolvida em tráfico de drogas, contrabando, exploração sexual e chegou a estabelecer ligações com organizações brasileiras, como o Primeiro Comando da Capital (PCC).
Fontes ligadas às investigações de fronteira relataram, sob condição de anonimato à Gazeta do Povo, que relatórios de inteligência indicam que rotas transfronteiriças já vêm sendo usadas por esse e outros grupos regionais há anos para escoamento de cocaína, armas e outros ilícitos. Eles aproveitam a fronteira porosa e a complexidade geográfica da Amazônia.
Isso demandaria uma vigilância contínua das forças de segurança brasileiras. “O que efetivamente não temos e o Estado não se mostra capaz de oferecer”, reforça o coronel Alex Erno Breunig, enfatizando a vulnerabilidade da região diante da possível fuga de traficantes.
Uma eventual debandada mais significativa para o Brasil tenderia a envolver seus membros se houver uma intensificação, a partir de agora, dos Estados Unidos contra o núcleo de controle desses criminosos. Isso vai além de embarcações no mar do Caribe e de portos por onde sairiam as drogas.
“Seria preciso atacar o sistema logístico, operacional e financeiro e então veríamos esses criminosos que não forem presos buscarem desesperadamente refúgios regionais”, analisa Almeida. A captura de Maduro foi um passo, mas o narcotráfico tem uma base estruturada que deve seguir operante se nada for feito contra ela, destaca Gomes.
A preocupação com o crime organizado transnacional na fronteira Norte do Brasil é fundamentada na presença e expansão de grupos criminosos antes mesmo da crise atual. Para especialistas, é indispensável manter a atenção e o serviço de inteligência ativos para registros confiáveis de que a captura de Maduro possa estimular uma fuga de traficantes para o Brasil.
“Porém, para que isso não ocorra, as fronteiras precisam estar vigiadas, controladas. Com um cenário favorável aos criminosos, o Brasil será, sem dúvidas, uma opção”, completa Sérgio Gomes. A atenção das autoridades brasileiras precisa estar focada no monitoramento, controle migratório e cooperação policial para evitar que essas redes se fortaleçam no lado brasileiro da fronteira.
Para Marcelo Almeida, a segurança na fronteira Brasil–Venezuela envolve preocupações conjuntas que vão além da ordem pública e presença militar contínua. “É indispensável a vigilância de fluxos migratórios, combate reforçado a crimes transfronteiriços e reforço de instituições de controle, com vigilância integrada e cooperação entre Ministérios e forças de segurança brasileiras”.
Enquanto isso, o Ministério da Justiça informou, sem dar detalhes sobre ações operacionais específicas sobre segurança pública e combate ao crime organizado, que se prepara para um possível aumento no número de refugiados venezuelanos que podem ingressar no Brasil. A pasta afirmou que acompanha a situação de forma permanente, especialmente em Roraima.
“Esse efetivo precisa estar reforçado e capacitado ao ponto de não permitir que, no meio de migrantes que chegam em uma situação legal e de refúgio, avancem criminosos ou membros do alto escalão do governo Maduro”, completa Gomes. A Venezuela enfrenta uma prolongada crise há quase duas décadas, e o Brasil é o terceiro país da América Latina que mais recebeu refugiados venezuelanos.