A recente ação militar do governo Trump na Venezuela, que culminou na derrubada do ditador Nicolás Maduro, trouxe à tona uma discussão que parecia adormecida no Brasil, a respeito da criação de uma arma nuclear nacional.
O cenário geopolítico regional gerou uma convergência de opiniões entre diferentes espectros políticos, desde a direita liberal até a esquerda, sobre a importância de o Brasil reavaliar sua postura nuclear.
Este ressurgimento do debate sobre a bomba atômica brasileira levanta questões profundas sobre segurança, soberania e o papel do país no cenário internacional, com a opinião pública também dividida, conforme dados divulgados pela Fundação Getúlio Vargas.
A Defesa da Força Nuclear: Vozes da Direita e Esquerda
Renan Santos, líder do Movimento Brasil Livre (MBL) e pré-candidato à Presidência, foi um dos defensores da bomba atômica brasileira. Em um vídeo publicado no X, ele rememorou o clima de piada em torno de Enéas Carneiro, ex-candidato à Presidência, quando este sugeria a criação de tal armamento.
Santos argumentou que a soberania se constrói, principalmente, através da força. Ele classificou o Brasil como um país corrupto e fraco, onde as Forças Armadas estariam mais preocupadas em ganhar dinheiro do que em proteger a nação.
Para o líder do MBL, o país corre o risco de ser facilmente conquistado nos próximos anos, a menos que desenvolva um programa nuclear que envie uma mensagem clara não apenas às nações vizinhas, mas também aos Estados Unidos.
“Não foi o direito internacional que salvou a população da Venezuela de Maduro, foi a força de outra nação. A força se estabelece, e faz o que ela quer”, afirmou Santos, enfatizando a necessidade de o país se militarizar e se tornar economicamente forte e sólido.
Do lado da esquerda, o ex-deputado federal pelo PT do Rio de Janeiro e vice-presidente do partido, Washington Quaquá, classificou como uma “desgraça” o que chamou de abandono do programa nuclear brasileiro.
Para Quaquá, a ação de Trump na Venezuela foi um “absurdo anti-civilizatório” que impõe ao Brasil a necessidade de atualizar suas leis para permitir a criação da bomba atômica brasileira.
“Só é respeitado nesse mundo quem tem tecnologia nuclear e bomba nuclear. Vê se eles [Estados Unidos] se metem com o doidinho da Coreia do Norte”, disse Quaquá. Ele defende que o Brasil precisa mudar a Constituição para se estabelecer como potência do Sul e ter condições de dissuadir ofensivas como a da Venezuela.
Opinião Pública e o Paradoxo da Proteção Externa
A discussão sobre a bomba atômica brasileira reflete-se na opinião pública. Uma pesquisa Datafolha, divulgada em 2024 pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), revelou que 47% dos brasileiros apoiam a ideia da bomba atômica como forma de proteção contra ameaças de outros países.
No entanto, esse apoio cai para 27% quando a ameaça parte especificamente dos Estados Unidos, um dado que Matias Spektor, coordenador da pesquisa e professor da Escola de Relações Internacionais da FGV (FGV RI), considera significativo.
Spektor aponta duas implicações diretas: o risco de manipulação da opinião pública por atores políticos interessados na proliferação nuclear e a percepção da população brasileira de que os Estados Unidos são uma fonte de proteção.
“Minorias bem organizadas são capazes de polarizar sociedades inteiras e desfazer consensos que antes pareciam firmes”, afirmou Spektor. Ele acrescenta que a promessa estadunidense de apoio ao Brasil parece acabar com a polarização em torno da questão nuclear, como se houvesse uma confiança tácita do povo brasileiro em uma eventual proteção militar dos EUA.
Propostas no Congresso e a Reação Científica
A questão da bomba atômica brasileira não se restringe aos debates políticos e acadêmicos, chegando também ao Congresso Nacional.
Uma proposta popular, apresentada no Senado em 2020 pelo médico paranaense Vito Angelo Duarte Pascaretta, autoriza o Brasil a construir uma bomba atômica para dissuadir uma eventual “interferência estrangeira”. A iniciativa conta com o apoio de mais de 31,4 mil pessoas.
Para Pascaretta, a adesão do Brasil ao Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares (TNP) serviu para “reforçar hierarquias de poder internacional”, e o fim da Guerra Fria influenciou as nações a assinarem o tratado, acreditando em prometidos benefícios da globalização.
“Tendo em vista as alterações no cenário mundial, o Brasil precisa estar de prontidão para respeitar a vontade soberana de seu povo sobre como conduzir sua política nuclear”, alertou o autor da proposta em 2020. O senador Marcos Pontes (PL-SP) assumiu a relatoria em abril de 2025, mas ainda não se manifestou.
Em outubro de 2025, o deputado Kim Kataguiri (União-SP) apresentou uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que sugere a retirada da expressão “para fins pacíficos” do trecho constitucional sobre atividade nuclear no Brasil, permitindo a criação de armamento para responder a ameaças.
Em resposta, a comunidade científica se posicionou fortemente contra. A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), a Academia Brasileira de Ciências (ABC), a Sociedade Brasileira de Física (SBF) e a Sociedade Brasileira de Química (SBQ) divulgaram uma nota conjunta pedindo a rejeição integral da PEC da bomba atômica brasileira.
As entidades alertaram que tal alteração representaria um “retrocesso civilizatório”, com graves implicações éticas, diplomáticas e morais. Elas afirmam que o Brasil construiu sua reputação internacional como promotor da paz e cooperação científica, e que “não precisa de bombas atômicas para ser soberano”.
Segundo o documento, o verdadeiro fortalecimento do país depende de investimentos em educação, saúde, ciência e inovação, considerados os pilares da soberania moderna.
O Brasil e o Desafio Tecnológico da Bomba Atômica Brasileira
Apesar do debate político, a capacidade técnica do Brasil para desenvolver uma bomba atômica brasileira apresenta complexidades.
O desenvolvimento da tecnologia de enriquecimento de urânio no Brasil foi mantido em sigilo por muitos anos, dentro de um programa nuclear paralelo da Marinha, revelado apenas na década de 1990, durante o governo Fernando Collor de Mello.
Em 1998, o Brasil aderiu ao Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares, abandonando sua política de sigilo em favor de um programa exclusivamente pacífico e sob salvaguardas internacionais.
Atualmente, o Brasil é capaz de enriquecer urânio para alimentar as usinas nucleares de Angra dos Reis, mas essa capacidade é subutilizada. A Frente Parlamentar Mista da Tecnologia e Atividades Nucleares (FPN) destacou em 2022 que, apesar de possuir a 7ª maior reserva de urânio do mundo, o país ainda depende da importação de combustível nuclear, inclusive da Rússia.
A FPN aponta que, paradoxalmente, o Brasil domina o ciclo do combustível nuclear, tendo a tecnologia para a conversão, mas a falta de urânio suficiente torna o custo desse processo muito dispendioso internamente.
O país também trabalha na construção de instalações e tecnologia para produzir combustível para um submarino movido a energia nuclear, mas o desenvolvimento do motor nuclear para a embarcação ainda não está claro. Reatores para essas embarcações podem usar urânio enriquecido a 20% na forma metálica ou a 90% na forma gasosa.
Analistas ressaltam que, mesmo que o Brasil fosse tecnicamente capaz de desenvolver uma arma nuclear, o país ainda enfrentaria dificuldades significativas para criar um programa de mísseis capaz de transportar esse armamento. Atualmente, o Brasil não possui capacidade para construir mísseis balísticos, aviões bombardeiros ou submarinos capazes de lançar bombas nucleares, o que representa um grande obstáculo para a efetividade de uma eventual bomba atômica brasileira.