Após um impasse de 25 anos, o bom senso finalmente prevaleceu e o Acordo Comercial entre a União Europeia (UE) e o Mercosul está prestes a ser assinado. Este pacto histórico não apenas criará a maior zona de livre comércio do planeta, com 720 milhões de consumidores e um PIB combinado de US$ 22 trilhões, como também promete remodelar profundamente a economia brasileira.
Para o Brasil, este acordo representa uma encruzilhada. Ele impulsiona uma modernização forçada, exigindo que o país se adapte a novos padrões ou enfrente um protecionismo decadente. Mais do que vantagens tarifárias, o pacto oferece a chance de reposicionar as cadeias produtivas brasileiras como fornecedoras confiáveis para mercados de alta renda e rigor regulatório.
A decisão de avançar com o Acordo UE-Mercosul, com o apoio qualificado da maioria dos países da UE, marca a reinserção do Brasil no circuito das economias de mercado e a busca por previsibilidade regulatória, atraindo capital produtivo essencial para o desenvolvimento, conforme informações divulgadas.
O Brasil no Centro da Geopolítica Global com o Acordo UE-Mercosul
A assinatura do Acordo UE-Mercosul não é apenas uma vitória comercial, é um movimento estratégico para o Brasil. Segundo o professor João Alfredo Lopes Nyegray, da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), a grande vantagem do Brasil reside em seus ativos raros: escala produtiva agroindustrial, uma base industrial diversificada e um mercado doméstico robusto. Estes fatores são cruciais para sustentar investimentos e encadeamentos produtivos.
A União Europeia, por sua vez, busca mais do que apenas comprar. Ela almeja construir previsibilidade de suprimentos e diversificação geoeconômica em um ambiente internacional cada vez mais instável. Para a UE, acordos como este se tornam instrumentos de estratégia, superando a mera lógica comercial, afirma Nyegray.
O Brasil, portanto, ganha a possibilidade de reposicionar suas cadeias produtivas como fornecedoras seguras para um mercado que exige alta renda e elevados padrões regulatórios. Isso gera efeitos de reputação e aprendizado institucional que se estendem para outros mercados, fortalecendo a posição do país no tabuleiro global.
Agronegócio Celebra Acesso Premium, mas Enfrenta Novas Exigências
O agronegócio brasileiro é, sem dúvida, o grande protagonista do Acordo UE-Mercosul. A eficiência dos produtores rurais superou o protecionismo europeu, garantindo que cerca de 99% das exportações agrícolas do Mercosul terão algum nível de liberalização tarifária. Isso permite ao Brasil competir em igualdade de condições em um mercado de alto poder aquisitivo.
Especialistas como Jackson Campos, de comércio exterior, e Rafael Cervone, presidente do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp), destacam que o acordo reposiciona o Brasil geopoliticamente. O acesso preferencial ao mercado europeu estimula a integração das empresas brasileiras às cadeias globais de valor, um passo fundamental para o crescimento.
Produtos como café solúvel, sucos de laranja, frutas frescas e óleos vegetais são os grandes ganhadores, com a eliminação de tarifas aumentando margens de lucro e capacidade de investimento. O acordo também prevê cotas para setores sensíveis, como 99 mil toneladas de carne bovina com tarifa reduzida e etanol para uso industrial com tarifa zero.
Contudo, o benefício não será uniforme. José Luiz Mendes, consultor da StoneX, alerta que o acordo premia a eficiência e o cumprimento de padrões internacionais. Somente empresas com rastreabilidade e controle ambiental rigoroso conseguirão capturar mais valor. A vantagem competitiva virá da qualidade e da adesão a normas sanitárias rigorosas.
As cláusulas ambientais do Acordo UE-Mercosul se tornaram um ponto central. O governo francês, por exemplo, já utilizou critérios ambientais para proteger seus produtores, suspendendo importações de produtos agrícolas brasileiros que utilizam defensivos proibidos na Europa. Isso transforma o debate tarifário em uma barreira regulatória custosa.
Para Mendes, o agronegócio brasileiro precisa encarar a sustentabilidade como uma estratégia de negócio, não apenas como um custo. As normas sanitárias e ambientais forçarão o Brasil a adotar melhores práticas internacionais, consolidando sua liderança global se houver pragmatismo.
Indústria: Desafios Competitivos e a Chance de Modernização
Se o agronegócio celebra, a indústria brasileira encara o Acordo UE-Mercosul com uma mistura de cautela e esperança. O pacto representa uma chance de interromper o declínio das exportações industriais para a Europa e de reposicionar o país em um mercado estratégico de alto valor agregado.
O acesso preferencial ao mercado europeu abre portas para as exportações industriais brasileiras, com a expectativa de modernização produtiva e inovação tecnológica por meio da cooperação científica com a UE. Flávio Roscoe, presidente da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), ressalta que a implementação deve considerar períodos de adaptação e instrumentos de apoio à competitividade.
No entanto, o livre mercado é uma via de mão dupla. Setores europeus de alto valor agregado, como laticínios e bebidas finas, entrarão com força no mercado brasileiro. Queijos, leite em pó, ingredientes lácteos e vinhos premium europeus devem pressionar preços e margens dos produtores nacionais, exigindo uma reestruturação e aceleração no processo de consolidação das empresas brasileiras.
Além dos bens de consumo, a indústria europeia domina o fornecimento de alta tecnologia, incluindo insumos químicos, farmacêuticos e maquinário de precisão, essenciais para a cadeia produtiva brasileira. Em 2025, 98,8% das importações brasileiras da UE, avaliadas em US$ 49,7 bilhões, foram bens industriais, segundo a Secretaria de Comércio Exterior (Secex).
O acordo, contudo, preserva instrumentos de política industrial e assegura prazos de adaptação para setores sensíveis como o automotivo. Rafael Cervone, do Ciesp, vê o pacto como um avanço estrutural necessário para o crescimento econômico de longo prazo, reforçando que o protecionismo perde terreno para a eficiência.
O setor automotivo, em particular, terá prazos para se adaptar e acesso facilitado a tecnologias europeias, vital para a competitividade global. O objetivo é integrar a indústria às cadeias globais de valor, elevando o padrão de produção sem sacrificar empregos qualificados, garantindo segurança jurídica para o investidor.
Desoneração de Insumos e Projeções de Crescimento com o Acordo UE-Mercosul
A modernização da indústria brasileira ganha um impulso significativo com a desoneração de insumos e bens de capital europeus. Ao reduzir o custo de máquinas e componentes de alta precisão, o Acordo UE-Mercosul permite que as fábricas brasileiras invistam em inovação e abandonem o sucateamento, aumentando sua eficiência e competitividade.
O pacto também estabelece regras modernas em propriedade intelectual e padrões sanitários, alinhando o Brasil às melhores práticas internacionais e elevando a sofisticação técnica da produção. Além disso, prevê cooperação científica em áreas de fronteira, como captura de carbono e reciclagem de baterias, transferência de conhecimento essencial para atender às exigências de sustentabilidade do mercado global.
Os ganhos institucionais são imediatos. O acordo sinaliza ao investidor que o Brasil respeita regras e busca estabilidade. A União Europeia já é o principal investidor produtivo no Brasil, com um estoque de US$ 321,4 bilhões em 2023, liderado por França, Espanha, Países Baixos e Alemanha, segundo o Banco Central. A formalização do pacto consolida essa posição e atrai novos fluxos de capital.
No médio e longo prazo, as projeções são animadoras. Estimativas do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) apontam um crescimento de 0,46% no PIB até 2040, equivalente a US$ 9,3 bilhões em riqueza adicional. O impacto social também é relevante, com cada R$ 1 bilhão exportado para a UE gerando 21,8 mil empregos no Brasil, segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI).
O cronograma para a assinatura é acelerado. Com o aval dos embaixadores em Bruxelas, Ursula von der Leyen deve viajar ao Paraguai na próxima semana para a assinatura oficial. Embora a oposição, liderada pela França, tenha utilizado critérios ambientais como instrumento de pressão, o pragmatismo de Berlim e Madri prevaleceu, isolando as resistências francesas.
Para a UE, o Acordo UE-Mercosul é uma necessidade estratégica em um mundo fragmentado. O bloco busca diversificar riscos diante da agressividade comercial da China e das tarifas dos Estados Unidos, garantindo acesso a minerais críticos e alimentos. Em troca, o Brasil ganha acesso a tecnologias de ponta e investimentos em pesquisa e desenvolvimento.
O simbolismo do acordo vai além dos números comerciais. Em uma era de protecionismo e nacionalismos populistas, Mercosul e UE optam pelo multilateralismo. O pacto reafirma a crença na liberdade de empreender e na ordem institucional como motores do desenvolvimento, sendo uma resposta clara às tendências de fechamento econômico global.