O Acordo UE-Mercosul, que se desenrola em um cenário global complexo, posiciona o Brasil como um ator central para a Europa. Longe de ser apenas um pacto comercial, ele reflete uma guinada estratégica de Bruxelas para assegurar sua economia.
A União Europeia, confrontada por conflitos no Leste Europeu e o avanço chinês em mercados tradicionais, vê no bloco sul-americano uma oportunidade de “hedging geopolítico”, ou seja, uma proteção contra riscos de dependência excessiva. Este movimento busca garantir a segurança de suprimentos e diversificar suas alianças.
Essa complexa teia de interesses e estratégias, que envolve desde a segurança alimentar até a modernização industrial, foi detalhada por especialistas e fontes do mercado, incluindo professores da FIA Business School e da PUC-PR, além de dados do Banco Central e da Secretaria de Comércio Exterior, conforme as informações analisadas.
O Contexto Geopolítico e a Nova Estratégia Europeia
A União Europeia não está apenas de olho em um novo mercado de 720 milhões de pessoas com o Acordo UE-Mercosul. Para Bruxelas, o pacto representa uma virada estratégica fundamental. José Carlos de Souza Filho, professor da FIA Business School, aponta que a Europa percebe a Rússia exercendo hegemonia no Leste Europeu e a China expandindo-se na África e América Latina.
Nesse contexto, o acordo transcende a liberalização comercial, tornando-se uma ferramenta de sobrevivência estratégica. Trata-se de uma forma de proteger-se contra a dependência excessiva de fornecedores instáveis, o que é conhecido como hedging geopolítico. A busca é por previsibilidade em um ambiente internacional volátil.
João Alfredo Lopes Nyegray, professor da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), enfatiza que a Europa busca construir estabilidade. Ele ressalta que o Brasil é um parceiro raro, combinando uma escala agroindustrial significativa com uma base industrial diversificada, mesmo que com alguns gargalos.
Essa combinação única transforma o Brasil em um fornecedor confiável para um mercado de alta renda e padrões regulatórios elevados. O país serve como uma âncora essencial para os europeus, fortalecendo sua posição na geopolítica global.
O ‘Fatiamento’ do Acordo: Uma Manobra Jurídica
A estratégia de Bruxelas, no entanto, enfrenta resistência considerável dentro da própria Europa. O pragmatismo de países como Berlim e Madri colide com o protecionismo agrário de Paris e Varsóvia. Governos como o da França utilizam critérios ambientais, como o desmatamento, como arma de pressão.
José Carlos de Souza Filho lembra que a França se manifesta contrária devido à intensa pressão de seus agricultores. Estes se sentem ameaçados pelo diferencial competitivo brasileiro, o que gera um impasse político complexo.
Diante desse cenário, a Comissão Europeia elaborou uma estratégia jurídica para contornar bloqueios em parlamentos nacionais, o fatiamento do acordo. Essa tática divide o tratado em partes com diferentes regimes de aprovação, agilizando o processo.
O acordo foi dividido em dois blocos jurídicos. As cláusulas comerciais, que incluem tarifas, cotas e comércio de bens, são de competência exclusiva da União Europeia. Elas exigem apenas o consentimento do Parlamento Europeu e a aprovação pelo Conselho por maioria qualificada, ou seja, 55% dos países representando 65% da população.
Já as cláusulas que envolvem investimentos, proteção de dados, compras governamentais e cooperação regulatória dependem da ratificação pelos 27 parlamentos nacionais. Críticos alertam que o fatiamento reduz o poder de fiscalização dos parlamentos, embora Bruxelas argumente ser necessário para a segurança jurídica dos investidores.
Benefícios e Desafios para o Brasil: Agronegócio e Indústria
Para o lado brasileiro, essa agilidade no processo de aprovação significa que a redução de tarifas e a abertura de cotas para produtos como carne e etanol podem ser implementadas mais rapidamente. Não será preciso aguardar anos de debates em assembleias distantes, o que é um ganho significativo.
A previsibilidade jurídica é o principal atrativo para o capital produtivo europeu. O estoque de investimentos europeus no Brasil já atingiu US$ 321,4 bilhões em 2023, conforme dados do Banco Central. O Acordo UE-Mercosul fortalece o bloco como plataforma de inserção internacional.
Além disso, o acordo incorpora compromissos de defesa comercial e cooperação regulatória, criando um ambiente de negócios mais seguro para o investidor. Mais do que isso, o Brasil ganha um ativo institucional. O pacto trava compromissos de longo prazo que transcendem governos, reduzindo o espaço para medidas arbitrárias.
Ele também aumenta a transparência regulatória e sinaliza que o país está disposto a se inserir em cadeias produtivas globais complexas. Isso é crucial para o posicionamento do Brasil na geopolítica e economia mundial.
O Impacto no Agronegócio Brasileiro e as Exigências Ambientais
O agronegócio brasileiro é, sem dúvida, o protagonista do Acordo UE-Mercosul. Cerca de 99% das exportações agrícolas do Mercosul terão algum nível de liberalização tarifária. Isso permitirá ao Brasil competir em igualdade de condições em um mercado de alto poder aquisitivo.
Café solúvel, sucos de laranja, frutas frescas e óleos vegetais lideram a lista de setores ganhadores. A eliminação de tarifas aumenta a margem de lucro e a capacidade de investimento. O acordo também prevê cotas para setores sensíveis, como 99 mil toneladas de carne bovina com tarifa reduzida e etanol para uso industrial com tarifa zero.
Rafael Cervone, presidente do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp), destaca que o acesso preferencial ao mercado europeu estimula a integração das empresas brasileiras às cadeias globais de valor.
Contudo, os benefícios não serão uniformes. As cláusulas ambientais deixaram de ser meros adereços diplomáticos para se tornarem o centro da disputa comercial. O governo francês, por exemplo, utiliza esses critérios como arma de pressão, suspendendo importações de produtos que usam defensivos proibidos na Europa.
Isso transforma o debate tarifário em uma barreira regulatória custosa. José Luiz Mendes, consultor de estratégia e M&A da StoneX, ressalta que o acordo premia a eficiência e os padrões internacionais. Ele afirma que quem operar sob rastreabilidade e controle ambiental capturará mais valor, indicando que a sustentabilidade precisa ser vista como estratégia de negócio, não apenas como custo.
Indústria Nacional: Modernização e Pressão Competitiva
Se o agronegócio celebra, a indústria nacional encara o Acordo UE-Mercosul com uma mistura de cautela e esperança. O pacto representa uma chance de reverter o declínio das exportações industriais para a Europa. Ele pode reposicionar o Brasil em um mercado estratégico de alto valor agregado.
Isso abre espaço para setores intensivos em conhecimento e serviços de alta especialização, como engenharia e serviços técnicos. O acesso preferencial facilita a modernização produtiva e a cooperação científica com a União Europeia.
Flávio Roscoe, presidente da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), afirma que é fundamental que a implementação considere períodos de adaptação e instrumentos de apoio à competitividade. Para a indústria, diversificar mercados é uma estratégia vital para reduzir vulnerabilidades externas e fortalecer cadeias produtivas.
No entanto, há um preço a pagar, pois o livre mercado funciona em ambas as direções. Queijos, leite em pó e ingredientes lácteos europeus chegarão com força às prateleiras brasileiras, junto com vinhos e bebidas premium. Isso pressionará os preços e as margens de lucro dos produtores nacionais.
Essa realidade exigirá uma reestruturação forçada do mercado interno. Analistas preveem uma aceleração no processo de consolidação das empresas de laticínios no Brasil. Quem não buscar eficiência produtiva e padrões internacionais enfrentará dificuldades para sobreviver.
Diante dessa pressão competitiva, o papel do Estado e das entidades de classe será crucial para reduzir o custo de adaptação. Políticas de modernização industrial, acesso a crédito subsidiado, programas de inovação e apoio à certificação técnica podem determinar quem sairá fortalecido desse processo.
Além dos bens de consumo, a indústria europeia domina o fornecimento de alta tecnologia, como insumos químicos, farmacêuticos e maquinário de precisão, essenciais para a cadeia produtiva brasileira. Em 2025, 98,8% das importações brasileiras da União Europeia, totalizando US$ 49,7 bilhões, foram bens industriais, segundo a Secretaria de Comércio Exterior (Secex).
O acordo preserva instrumentos essenciais de política industrial e assegura prazos de adaptação para setores sensíveis, como o automotivo. Isso permite que montadoras e a cadeia de suprimentos se reestruturem. A proteção caminha junto com o acesso facilitado a tecnologias europeias, vital para a competitividade global do Brasil.
O objetivo final não é apenas exportar mais, mas exportar melhor, aproveitando o Acordo UE-Mercosul para escalar na cadeia de valor e fortalecer setores de maior sofisticação tecnológica. Este é um avanço estrutural necessário para o crescimento econômico de longo prazo, como aponta Rafael Cervone do Ciesp.