O cenário da teledramaturgia brasileira perde um de seus mais brilhantes arquitetos. O renomado autor de novelas Manoel Carlos faleceu neste sábado (10), no Rio de Janeiro, aos 92 anos. A notícia foi confirmada pela família, que não divulgou a causa da morte.
Conhecido por suas obras que retratavam o cotidiano e as complexidades humanas, Maneco, como era carinhosamente chamado, deixa um legado de histórias que se tornaram parte da memória afetiva de milhões de brasileiros. Ele estava internado no hospital Copa Star, em Copacabana, tratando a Doença de Parkinson.
Sua partida marca o fim de uma era, mas suas criações, especialmente as icônicas ‘Helenas’, continuarão a ecoar. O velório será restrito à família e amigos, conforme informação divulgada pelo g1.
O Legado Imortal das “Helenas” e Tramas Marcantes
Manoel Carlos ficou famoso por escrever novelas de grande repercussão na TV Globo, como ‘Por Amor’ e ‘Laços de Família’, que se tornaram clássicos. Ele também foi responsável por minisséries aclamadas, como ‘Presença de Anita’, que cativaram o público.
Um dos traços mais distintivos de sua obra era a escolha de protagonistas chamadas ‘Helena’. Segundo o autor, essa preferência não se dava por uma mulher específica, mas pela admiração que ele tinha pela figura mitológica de Helena de Troia, por sua força e independência.
A primeira Helena de Maneco foi interpretada por Lilian Lemmertz em ‘Baila Comigo’, de 1981, uma mulher comum e batalhadora presa em uma mentira. Essa novela também marcou a estreia de Fernanda Montenegro na TV Globo e apresentou um dos primeiros casais interraciais da teledramaturgia, interpretado por Milton Gonçalves e Beatriz Lyra.
Nas décadas de 1990 e 2000, Manoel Carlos consolidou seu nome com ‘Laços de Família’ (2000), estrelada por Vera Fischer como Helena, e ‘Mulheres Apaixonadas’ (2003), com Christiane Torloni no papel principal. Essas tramas abordaram temas que ressoaram profundamente na sociedade.
Em ‘Laços de Família’, por exemplo, a cena em que a personagem Camila, interpretada por Carolina Dieckmann, raspa a cabeça por causa da leucemia, se tornou um dos momentos mais marcantes da televisão brasileira. O impacto foi tão grande que levou a um aumento significativo nas doações de medula óssea no país.
Pioneirismo na TV Brasileira: Do Ator ao Criador
A carreira de Manoel Carlos é um testemunho de seu pioneirismo na televisão brasileira. Ele iniciou sua jornada como ator na década de 1950, participando do Grande Teatro Tupi, ao lado de nomes como Fernanda Montenegro e Nathália Timberg.
Além de atuar, Maneco adaptava peças de teatro para a televisão, os chamados teleteatros. Em entrevista a Jô Soares, ele confessou que não se considerava um ator “brilhante”, mas que sempre escrevia um papel para si nas adaptações.
Nos anos 1960, na TV Excelsior, criou o programa ‘Bibi 60’, conduzido por Bibi Ferreira. Posteriormente, na TV Record, formou a célebre Equipe A, responsável por programas históricos como o humorístico ‘A Família Trapo’ e os musicais ‘Esta Noite se Improvisa’ e ‘O Fino da Bossa’, com Elis Regina e Jair Rodrigues.
Com o declínio da TV Record, Manoel Carlos se transferiu para a TV Globo e participou da criação do semanal ‘Fantástico’. Em 1978, deu início ao ofício que o consagraria: autor de telenovelas diárias, estreando com ‘Maria, Maria’ e, em seguida, ‘A Sucessora’, ambas no horário das seis.
Olhar Social e Controvérsias: Temas que Geraram Debate
Manoel Carlos sempre utilizou suas novelas como um espelho da sociedade, abordando questões complexas e muitas vezes polêmicas. Ele fez parte da equipe de roteiristas do seriado ‘Malu Mulher’, um marco ao tratar de feminismo, divórcio, aborto e violência doméstica.
Em ‘Mulheres Apaixonadas’, o autor explorou temas como adoção, alcoolismo, violência doméstica, etarismo e homofobia. Uma cena em que a personagem Fernanda é atingida por uma bala no Leblon causou protestos do setor de turismo do Rio, em um período de crescente preocupação com a violência urbana.
Apesar do sucesso e da relevância social de suas tramas, Maneco enfrentou algumas críticas. Foi acusado de elitismo por frequentemente retratar a zona sul carioca, e a falta de protagonismo negro em suas obras também foi alvo de reclamações por parte do público.
Em 2009, Manoel Carlos escalou Taís Araúja para ser a Helena de ‘Viver a Vida’, marcando a primeira protagonista negra de uma novela das 8 da Globo. Apesar de a novela não ter tido a audiência esperada, Taís, em 2024, ressignificou a personagem, afirmando: “Não tinha nada de errado comigo. Eu, inclusive, estava atuando muito bem”.
A Última Obra e a Vida Pessoal do Mestre
A última novela escrita por Manoel Carlos foi ‘Em Família’, exibida em 2014. Coube à atriz Júlia Lemmertz, filha de Lilian Lemmertz, a primeira Helena de Maneco, dar vida à protagonista, criando um ciclo simbólico em sua obra.
O autor também teve uma carreira internacional, escrevendo novelas e seriados para diversos países, incluindo Estados Unidos, México, Chile e Argentina, expandindo seu alcance para além das fronteiras brasileiras.
Em uma de suas conversas com Jô Soares, Maneco afirmou que, em sua opinião, os homens sabiam escrever melhor sobre mulheres, pois “Eles têm uma visão até mais generosa do que elas mesmas”, citando Gustave Flaubert e Balzac como exemplos.
Nascido no bairro do Pari, em São Paulo, Manoel Carlos viveu no Rio de Janeiro por mais de 50 anos. Foi casado com a atriz Cidinha Campos e, desde 1981, com Elisabety Gonçalves de Almeida. Ele era pai da escritora Maria Carolina e da atriz Júlia Almeida, e enfrentou a dolorosa perda de outros três filhos: Ricardo, Manoel Carlos Júnior e Pedro Almeida.