ADRs brasileiros em baixa contrastam com otimismo em Nova York, reflexo de preocupações globais e específicas

Na terça-feira de Carnaval, enquanto o mercado brasileiro esteve fechado, os recibos de ações de empresas brasileiras negociados nos Estados Unidos (ADRs) registraram perdas. O índice Dow Jones Brazil Titans 20 ADR, que agrupa as principais companhias brasileiras com ADRs listados, fechou em queda de 1,04%. Paralelamente, o EWZ, principal ETF (fundo de índice) que replica o MSCI Brazil, também apresentou desvalorização de 0,84%.

Essa performance diverge significativamente do desempenho das bolsas de Nova York no mesmo dia, que encerraram a sessão em alta. O otimismo nos EUA foi impulsionado pela recuperação de grandes empresas de tecnologia e pelo alívio em tensões geopolíticas, além de falas cautelosas do Federal Reserve (Fed). A movimentação dos ADRs brasileiros reflete, em parte, preocupações globais e específicas do setor de commodities.

Os ADRs da Vale foram os que mais sentiram o impacto negativo, com uma queda expressiva de 4,53%, em um dia marcado pelo feriado na China e pela desvalorização do minério de ferro. Os ativos da Petrobras também acompanharam a tendência de baixa, com o ADR PBR caindo cerca de 1%, em sintonia com a desvalorização internacional do petróleo. As informações foram divulgadas pela Bloomberg e pelo Estadão Conteúdo.

Bolsas americanas em alta: tecnologia e geopolítica ditam o ritmo

Em contraste com o recuo dos ADRs brasileiros, as bolsas de Nova York operaram em alta durante a terça-feira. O Dow Jones registrou um ganho de 0,07%, fechando aos 49.533,19 pontos. O S&P 500 avançou 0,10%, atingindo 6.843,22 pontos, enquanto o Nasdaq Composite ganhou 0,14%, terminando o dia aos 22.578,38 pontos. Essa performance positiva foi sustentada pela recuperação de gigantes da tecnologia e pela diminuição da percepção de risco em relação ao conflito entre Estados Unidos e Irã.

Setores como o imobiliário (+1,03%), financeiro (+0,99%) e de tecnologia (+0,49%) foram os que mais se beneficiaram do movimento. Destaque para a Apple, cujas ações dispararam 3,17% após a notícia de que a empresa planeja acelerar o lançamento de produtos com inteligência artificial (IA), como colares, AirPods e óculos inteligentes. A Warner Bros. Discovery também teve um dia positivo, com alta de 2,72%, após anunciar a votação da fusão com a Netflix (+1,20%) para março e reabrir conversas com a Paramount (+4,94%). A Masimo se destacou com um salto de 34,22% diante da possibilidade de ser adquirida pela Danaher.

Vale e Petrobras pressionadas por fatores específicos e cenário de commodities

Os ADRs da Vale apresentaram a maior queda entre as empresas brasileiras, recuando 4,53%. A desvalorização pode ser atribuída, em parte, ao feriado na China, um dos principais destinos do minério de ferro brasileiro, e a um cenário de incertezas no mercado de commodities. A empresa, que é uma das maiores produtoras de minério de ferro do mundo, é sensível a qualquer sinal de desaceleração na economia chinesa ou a questões de oferta e demanda global.

Os ativos da Petrobras, representados pelo ADR PBR, também fecharam em baixa, com uma desvalorização de aproximadamente 1%. Esse movimento acompanha a tendência de queda nos preços internacionais do petróleo. O Brent, referência para a commodity, voltou a ter perdas após uma manhã de alta, influenciado por notícias sobre exercícios militares do Irã perto do Estreito de Ormuz, ao mesmo tempo em que o país participa de negociações nucleares com os EUA. A volatilidade nos preços do petróleo impacta diretamente os resultados da estatal brasileira.

Inteligência Artificial em foco: euforia e preocupações no mercado global

O mercado global de tecnologia tem sido impulsionado por investimentos em inteligência artificial (IA), mas essa euforia vem acompanhada de crescentes preocupações. Aneeka Gupta, diretora de pesquisa macroeconômica da WisdomTree, comentou que há uma “ansiedade persistente sobre se os gastos com IA serão suficientemente lucrativos, preocupações com a concorrência e uma redução de riscos mais ampla nos investimentos mais populares após uma valorização significativa”. Essa cautela pode ter reflexos em empresas que dependem fortemente desse setor.

Uma pesquisa recente do Bank of America Corp. com gestores de fundos revelou que um número recorde de investidores acredita que as empresas estão gastando demais em IA. Um quarto dos participantes considera uma “bolha de IA” como o principal risco para os mercados, enquanto 30% apontam o investimento em IA pelas grandes empresas de tecnologia como a fonte mais provável de uma crise de crédito. Esses receios podem justificar a maior seletividade dos investidores, mesmo em um cenário de alta para as bolsas americanas.

Mercado asiático em compasso de espera: dados fracos e feriados reduzem liquidez

Enquanto as bolsas americanas celebravam altas, o mercado da Ásia apresentava um quadro diferente. A Bolsa de Tóquio fechou em queda, estendendo as perdas do dia anterior. Dados fracos de crescimento no Japão, que expandiu apenas 0,1% no trimestre até dezembro (abaixo das expectativas de 0,4%), e a cautela com o impacto da IA nos negócios contribuíram para o pessimismo. Além disso, feriados na China e em outros mercados asiáticos, como Hong Kong, Singapura, Taiwan e Coreia do Sul, reduziram significativamente a liquidez no pregão.

Os ativos ligados ao setor industrial no Japão foram particularmente pressionados, refletindo a absorção dos dados econômicos abaixo do esperado. A desaceleração global e a incerteza sobre o futuro de setores tradicionais diante do avanço tecnológico são fatores que pesam sobre as economias asiáticas, que têm forte dependência do comércio internacional e da manufatura. A falta de liquidez nesses mercados pode ter intensificado os movimentos de queda.

Análise do cenário: o que explicaria a divergência entre Brasil e EUA?

A divergência entre o desempenho dos ADRs brasileiros e os índices de Nova York pode ser explicada por uma combinação de fatores. Primeiramente, a forte dependência da economia brasileira e de suas empresas de commodities, como minério de ferro e petróleo, torna o país mais vulnerável a flutuações nos preços desses ativos e a sinais de desaceleração global, especialmente na China. A queda da Vale e da Petrobras reflete essa sensibilidade.

Em segundo lugar, as preocupações com a inteligência artificial, embora presentes nos EUA, parecem ter um impacto mais imediato e direto em empresas que lideram essa corrida tecnológica. No Brasil, o foco ainda está em setores mais tradicionais, e a maior parte das empresas cujos ADRs são negociados está mais exposta a riscos de commodities e a questões macroeconômicas internas. A falta de liquidez no mercado asiático, devido aos feriados, também pode ter contribuído para um sentimento de aversão ao risco que se estendeu a outros mercados emergentes.

Perspectivas futuras: volatilidade e atenção aos indicadores macroeconômicos

O cenário para os ADRs brasileiros e para o mercado em geral sugere um período de volatilidade. A recuperação em Nova York, impulsionada por avanços em tecnologia e um alívio geopolítico, contrasta com as preocupações estruturais sobre o superaquecimento de investimentos em IA e a saúde financeira das grandes empresas de tecnologia. A manutenção de falas cautelosas por parte do Federal Reserve também indica que a política monetária nos EUA continuará sendo um fator de atenção.

Para o Brasil, o desempenho futuro dos ADRs estará intrinsecamente ligado à evolução dos preços das commodities, à dinâmica da economia chinesa e aos desdobramentos da política econômica doméstica. A busca por uma maior diversificação na carteira de empresas brasileiras negociadas no exterior, com foco em setores menos dependentes de commodities, pode ser uma estratégia para mitigar riscos. Acompanhar os indicadores macroeconômicos globais e locais será crucial para entender os próximos movimentos do mercado.

O que os investidores devem observar daqui para frente?

Os investidores devem ficar atentos a diversos fatores que moldarão o comportamento dos ADRs brasileiros e do mercado global. A evolução das negociações sobre inteligência artificial, o impacto real desses investimentos na lucratividade das empresas e a possibilidade de uma “bolha” nesse setor são pontos cruciais. A dinâmica dos preços das commodities, especialmente do petróleo e do minério de ferro, continuará sendo um motor importante para as empresas brasileiras.

Além disso, as decisões de política monetária dos principais bancos centrais, como o Federal Reserve, e a saúde da economia chinesa terão influência direta. No cenário doméstico, a capacidade do Brasil de atrair investimentos e de manter a estabilidade macroeconômica será fundamental. Acompanhar os balanços trimestrais das empresas, as notícias corporativas e os indicadores de atividade econômica, tanto no Brasil quanto no exterior, fornecerá insights valiosos para a tomada de decisões de investimento em um mercado cada vez mais interconectado e dinâmico.

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