A Dualidade Persa: Como o Regime Iraniano Manipula a História para Enganar o Mundo
Em tempos de crise e escrutínio global, o regime iraniano emprega uma tática recorrente e eficaz: abandona a retórica de ditadura revolucionária islâmica para se apresentar como a personificação de uma civilização milenar. Essa mudança de discurso não é acidental; visa confundir observadores estrangeiros e sugerir que qualquer pressão contra a República Islâmica seria, na verdade, um ataque à própria história persa, com seus milhares de anos de legado cultural.
A estratégia é notória. A própria linguagem oficial do sistema frequentemente alude à construção de uma “nova civilização islâmica”, ao mesmo tempo em que autoridades do regime, quando lhes convém, evocam a “civilização persa”. Essa dualidade serve para criar uma falsa equivalência entre o Irã contemporâneo e sua antiga glória, uma manobra que ignora as profundas rupturas históricas e ideológicas.
A República Islâmica, estabelecida em 1979, é fundamentalmente uma teocracia xiita baseada na doutrina do Velayat-e Faqih (a tutela do jurista islâmico), com um líder supremo no comando. Sua legitimidade não emana dos grandes impérios persas, como o Aquemênida, cujos vestígios são hoje relíquias históricas. Pelo contrário, o regime atual é um produto da visão revolucionária de Ruhollah Khomeini, que propôs um governo supervisionado por clérigos. Essa é uma ruptura com o passado imperial, e não uma restauração. A Constituição da República Islâmica, em seu preâmbulo, já aponta para as aspirações da “Ummah”, a nação islâmica unificada sob a liderança clerical, distanciando-se do modelo imperial persa.
A Verdadeira Natureza da República Islâmica: Uma Ruptura, Não Uma Continuidade
É crucial desmistificar a ideia de que o Irã de hoje é uma continuação direta da antiga Pérsia. A realidade é que a República Islâmica representa uma negação deliberada de grande parte da história iraniana, intencionalmente obscurecida para servir a um projeto ideológico contemporâneo. A Pérsia antiga, um império com estruturas administrativas, religiosas e civilizacionais próprias, difere radicalmente da teocracia revolucionária islâmica que emergiu em 1979.
O Império Aquemênida, fundado por volta de 550 a.C. e desmantelado em 330 a.C., já era ruínas quando os muçulmanos conquistaram a região no século VII d.C. Portanto, a conexão histórica não se baseia em continuidade política ou administrativa, mas em laços linguísticos e territoriais que foram profundamente transformados por séculos de islamização. Reduzir o Irã atual a uma mera “Pérsia com turbante” é, portanto, uma simplificação enganosa e uma forma de propaganda.
A própria Constituição da República Islâmica deixa clara a base de sua legitimidade. Seu preâmbulo invoca as aspirações da “Ummah”, a comunidade islâmica global, sob a égide de um clérigo, distanciando-se do legado imperial persa, que era um modelo de governança distinto e anterior à expansão islâmica.
As Duas Máscaras do Regime: Propaganda Interna e Externa
O regime dos aiatolás opera com uma estratégia de comunicação dual. Internamente, e para sua base ideológica, o discurso foca na revolução, no martírio, na resistência, na unidade islâmica e na construção de uma nova civilização islâmica. Essa retórica reforça a identidade do regime como um bastião contra influências externas e como um líder do mundo islâmico.
Por outro lado, quando o objetivo é obter legitimidade cultural ou despertar simpatia no Ocidente, o regime reorienta sua narrativa. Apresenta-se como o herdeiro direto da alta civilização persa, evocando imagens de reis antigos, impérios gloriosos e uma história rica e ininterrupta. Essa “operação de camuflagem” permite que Teerã se posicione ora como um centro de fervor religioso e resistência (evocando Karbala, um local sagrado para o xiismo), ora como um guardião de um legado cultural ancestral (remetendo a Persépolis, a antiga capital persa).
Essa alternância de narrativas é fundamental para a sobrevivência política do regime. Ao associar-se à Pérsia antiga, busca-se desviar a atenção de suas políticas internas, de sua ideologia revolucionária e de seu papel no cenário geopolítico atual. A estratégia visa criar uma imagem de profundidade histórica e cultural que, segundo o regime, deveria ser respeitada e protegida de interferências externas.
A Manipulação da História em Confrontos Internacionais
A propaganda iraniana frequentemente tenta transformar qualquer confronto com a República Islâmica em uma suposta “guerra contra uma civilização milenar”. Essa tática busca humanizar o regime e demonizar seus oponentes, criando uma falsa equivalência entre o regime teocrático e o patrimônio histórico do povo iraniano. Ninguém, ao confrontar a máquina de poder estabelecida em 1979, está atacando a história aquemênida.
Da mesma forma, impor sanções ao Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) não representa uma ameaça ao legado de Ciro, o Grande. Essas ações são dirigidas contra as estruturas de poder e as políticas expansionistas do regime atual, e não contra a identidade histórica e cultural do Irã. A confusão intencional entre o regime e a civilização persa é exatamente o que Teerã deseja, pois permite que um projeto revolucionário contemporâneo se oculte atrás da grandiosidade de um passado que o próprio regime não buscou restaurar integralmente.
A Constituição da República Islâmica, por exemplo, orienta o país para a “solidariedade política do mundo islâmico” e para a “centralidade do jurista-rei”, princípios que divergem fundamentalmente da organização de impérios como o Aquemênida, que possuíam uma estrutura política e religiosa distinta. Ignorar essa distinção é cair na armadilha da propaganda de Teerã.
A Declaração de Trump: “Civilização” como Infraestrutura Moderna
A declaração do então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em 2019, de que “uma civilização inteira morreria” se não houvesse acordo, gerou controvérsia e foi habilmente utilizada pelo regime iraniano. As denúncias da Anistia Internacional indicavam que essa ameaça vinha acompanhada de propostas explícitas de “demolição completa” de infraestruturas iranianas, como usinas de energia e pontes.
É fundamental entender que, nesse contexto, Trump não se referia à civilização persa em seu sentido histórico, cultural ou arqueológico. Sua fala, embora retoricamente carregada, apontava para a destruição da infraestrutura material que sustenta a vida moderna no Irã: energia, transporte, logística e produção. Em termos práticos, a ameaça era empurrar o país para uma condição de colapso civilizacional em termos de infraestrutura, o que poderia ser interpretado como um retorno a uma “Idade da Pedra” para a sociedade moderna, e não como um genocídio em termos populacionais.
A postagem de Trump, no entanto, serviu como um gatilho perfeito para o regime iraniano retomar e intensificar sua narrativa sobre a herança persa. A confusão entre a infraestrutura de um país e sua identidade civilizacional histórica foi explorada para gerar indignação internacional e reforçar a imagem do Irã como vítima de agressões externas contra sua história e cultura.
A Importância da Clareza em Tempos de Guerra e Propaganda
Em tempos de tensão geopolítica, a clareza na comunicação é mais importante do que nunca. O regime iraniano investe pesadamente para que o mundo acredite que ele é a personificação da Pérsia. Essa narrativa, que ganhou força, ignora as profundas diferenças entre o legado histórico persa e o projeto ideológico da República Islâmica.
A Pérsia pertence à longa e rica história do povo iraniano, um legado que transcende regimes políticos e ideologias. A República Islâmica, por outro lado, é um capítulo recente na história do Irã, marcado por uma revolução clerical que, segundo críticos, sequestrou símbolos nacionais para consolidar um projeto de poder. Misturar esses dois elementos é, na prática, aceitar a propaganda de Teerã nos exatos termos que ela deseja.
Na arena geopolítica, aceitar o vocabulário e as narrativas do adversário é frequentemente o primeiro passo para perder a compreensão da realidade. Distinguir a história milenar da Pérsia do regime teocrático atual é essencial para uma análise precisa da situação no Irã e para a formulação de políticas internacionais eficazes que não sejam manipuladas por estratégias de desinformação.
O Legado Persa vs. A Ideologia Islâmica: Uma Distinção Necessária
A antiga Pérsia, com seus impérios como o Aquemênida, o Parta e o Sassânida, moldou profundamente a região e o mundo em termos de arte, arquitetura, filosofia e administração. Suas conquistas e sua legacy cultural são inegáveis e constituem um patrimônio da humanidade. O regime da República Islâmica, fundado sobre os princípios do Velayat-e Faqih, representa uma ideologia religiosa específica que busca impor uma visão particular do Islã xiita.
A própria Constituição da República Islâmica reflete essa prioridade, com seu preâmbulo declarando a intenção de “exportar a revolução” e de apoiar os “mustazafin” (os oprimidos) em todo o mundo, uma agenda que tem motivações ideológicas e políticas distintas do legado imperial persa, que era mais focado na expansão territorial e na administração de um vasto império multiétnico.
A instrumentalização da identidade persa pelo regime iraniano serve para criar uma aura de legitimidade histórica e cultural que mascara a natureza revolucionária e teocrática do governo. Essa tática é particularmente eficaz quando o regime busca apoio internacional ou quando enfrenta críticas sobre seus direitos humanos ou seu programa nuclear.
A Estratégia de Camuflagem: Persépolis e Karbala como Ferramentas Políticas
A capacidade do regime iraniano de alternar entre a persona de guardião da antiga Pérsia e a de líder de uma revolução islâmica demonstra uma sofisticada estratégia de comunicação política. Quando o objetivo é atrair turismo ou apelar para o orgulho nacional em um contexto cultural, Persépolis é evocada. Quando a intenção é mobilizar apoio religioso e político, especialmente em detrimento de rivais regionais ou em resposta a sanções, Karbala e a luta dos imames xiitas são trazidos à tona.
Essa maleabilidade retórica permite ao regime adaptar sua mensagem a diferentes públicos e contextos, explorando os pontos fortes de cada narrativa. A associação com a Pérsia antiga confere ao regime um ar de antiguidade e respeito, enquanto a retórica revolucionária islâmica o posiciona como um agente de mudança e resistência no cenário global.
No entanto, essa estratégia de camuflagem é fundamentalmente uma forma de propaganda, pois o regime atual não se alinha com os valores e as estruturas de governança dos impérios persas. A República Islâmica é um projeto ideológico moderno, impulsionado por uma interpretação específica da lei islâmica, e não uma continuação direta de dinastias antigas.
O Impacto da Desinformação na Percepção Internacional
A persistente narrativa de que a República Islâmica é a “Pérsia” tem um impacto significativo na percepção internacional. Ela pode levar a equívocos sobre a natureza do regime, suas motivações e suas políticas. Ao confundir a identidade histórica do povo iraniano com a ideologia e as ações do governo, o regime consegue desviar a atenção de suas falhas internas e de seu papel em conflitos regionais.
É vital que jornalistas, acadêmicos, formuladores de políticas e o público em geral estejam cientes dessa tática. A distinção entre a rica herança cultural e histórica do Irã e a natureza política da República Islâmica é crucial para uma compreensão precisa da situação. A propaganda de Teerã busca ativamente borrar essas linhas, e é responsabilidade de todos resistir a essa tentativa de desinformação.
Em última análise, o povo iraniano é o herdeiro legítimo da antiga Pérsia, assim como de outras eras de sua longa história. A República Islâmica é um regime político que utiliza essa herança como ferramenta. Reconhecer essa distinção é o primeiro passo para entender a complexidade do Irã contemporâneo e para evitar cair nas armadilhas da propaganda.
O Futuro: Desmascarando a Propaganda e Valorizando a Verdadeira História
O desafio para o futuro é continuar a desmascarar a propaganda do regime iraniano e a valorizar a verdadeira história e cultura do povo iraniano. Isso implica em educar o público sobre as distinções entre a antiga Pérsia e a República Islâmica, e em analisar as ações do regime com base em sua ideologia e em seus objetivos políticos, e não em narrativas históricas manipuladas.
A estratégia de “fantasiar-se de persa” é uma tática política que, embora eficaz em certos contextos, não resiste a uma análise factual e histórica aprofundada. Ao separar o regime da sua herança histórica, podemos ter uma compreensão mais clara do que está em jogo e das verdadeiras naturezas das políticas e ambições do Irã.
A história da Pérsia é um tesouro para toda a humanidade, e é importante que ela seja preservada e entendida em sua plenitude, livre das manipulações de regimes políticos contemporâneos. A luta pela verdade histórica é, em muitos aspectos, uma luta pela própria identidade e soberania cultural de um povo.