A China, um dos pilares da economia e demografia global, está enfrentando um desafio sem precedentes em sua estrutura populacional. Dados recentes revelam uma aceleração preocupante na queda de seus habitantes, marcando o quarto ano consecutivo de contração e gerando alertas sobre as implicações futuras para o país e para o mundo.
Este cenário complexo é impulsionado por uma combinação de fatores, incluindo uma taxa de natalidade em níveis historicamente baixos e o rápido envelhecimento de sua população. As consequências dessa dinâmica são vastas, abrangendo desde a força de trabalho até a estrutura social e econômica chinesa.
A situação é tão crítica que o próprio líder chinês, Xi Jinping, classificou a crise demográfica como um “assunto vital” para o futuro da nação. Essas revelações vêm de dados oficiais publicados pelo Escritório Nacional de Estatísticas (ONE) nesta segunda-feira, 19 de fevereiro.
China Perde Milhões de Habitantes em Ritmo Acelerado
O Escritório Nacional de Estatísticas (ONE) da China divulgou que o país perdeu aproximadamente 3,39 milhões de habitantes em 2025. Este número alarmante ressalta a gravidade da crise demográfica que assola a nação, consolidando um cenário de declínio populacional.
Este é o quarto ano consecutivo de contração. O país já havia registrado perdas de 850 mil pessoas em 2022, 2,08 milhões em 2023 e 1,39 milhão em 2024. A última vez que a população chinesa diminuiu foi em 1961, um período marcado pela fome derivada do Grande Salto Adiante.
No ano passado, a China registrou apenas 7,92 milhões de nascimentos. Este é um novo recorde negativo desde a fundação da República Popular em 1949, um marco preocupante para o futuro demográfico da nação.
Houve uma queda significativa em comparação com os 9,54 milhões de nascimentos em 2024 e os 9,02 milhões em 2023. A taxa de natalidade também atingiu um mínimo histórico, com apenas 5,63 nascimentos para cada 1.000 pessoas.
Simultaneamente, o número de mortes aumentou. Foram 11,31 milhões de óbitos em 2025, resultando em uma taxa de 8,04 mortes por cada 1.000 habitantes. Este índice é superior aos 7,76 registrados no ano anterior, contribuindo para o balanço negativo.
Essa combinação de menos nascimentos e mais mortes levou a população total do gigante asiático a 1,404 bilhão de habitantes ao final do ano. Este número contrasta com os 1,408 bilhão que havia no país no final do ano anterior, evidenciando a rápida diminuição.
Atualmente, a China é o segundo país mais populoso do mundo. O país foi superado pela Índia em 2023, que, ao contrário da China, continua a registrar crescimento populacional, acentuando a mudança no cenário demográfico global.
Esforços Governamentais e Desafios Persistentes na Crise Demográfica Chinesa
Diante da alarmante queda de natalidade na China, as autoridades têm implementado diversas políticas para tentar reverter a situação. Desde 2021, o governo permite que os cidadãos tenham um terceiro filho, buscando incentivar o aumento dos nascimentos.
Contudo, essa medida não foi recebida com grande entusiasmo pela população. Muitos chineses enfrentam a pesada carga econômica que a criação de filhos representa, além de priorizarem suas carreiras profissionais, o que desestimula a expansão familiar.
O líder do Partido Comunista, Xi Jinping, durante o 20º Congresso em 2022, enfatizou a urgência de um sistema que “aumente as taxas de natalidade e reduza os custos da gravidez, do parto, da escolarização e da criação”. Ele classificou a crise demográfica como um “assunto vital”.
Pequim tem introduzido medidas mais recentes para impulsionar os nascimentos. Entre elas, estão subsídios diretos de 3.600 yuans anuais, aproximadamente R$ 2.700, para cada criança menor de três anos, buscando aliviar os encargos financeiros das famílias.
Além disso, há planos para que o parto seja coberto pelo seguro nacional de maternidade antes de 2026. No final de 2025, o regime anunciou uma revisão integral da política de preços das creches, visando reduzir os custos da educação pré-escolar e reforçar o apoio à natalidade.
Outras abordagens, como tornar o parto um “ato patriótico” e a taxação de preservativos, também foram consideradas para tentar conter os índices negativos de natalidade. Essas iniciativas mostram a amplitude dos esforços para enfrentar a crise.
Fatores Adicionais e Consequências Sociais da Perda de Habitantes
A complexidade da crise demográfica chinesa vai além da baixa natalidade e do aumento de mortes. O país enfrenta um crescente fenômeno de pessoas vivendo sozinhas, o que também impacta a formação de novas famílias e, consequentemente, os nascimentos.
Dados do Ministério de Assuntos Civis e estimativas do Instituto de Pesquisa Beike indicam que a população que vive sozinha já supera 92 milhões de pessoas. Projeções apontam que esse número poderá atingir entre 150 milhões e 200 milhões até 2030, alterando profundamente a estrutura social.
Outro obstáculo significativo é o desequilíbrio de gênero, uma herança de décadas da “política do filho único”. Durante esse período, a preferência por filhos homens resultou em uma distorção demográfica.
Atualmente, a China apresenta uma proporção aproximada de 104,34 homens para cada 100 mulheres. Este desequilíbrio dificulta a formação de casais e, consequentemente, afeta as taxas de natalidade, adicionando uma camada extra de complexidade à situação.
O Futuro da Segunda Maior População do Mundo e seus Desafios
A China perde milhões de habitantes anualmente, e o cenário demográfico atual representa um dos maiores desafios para o futuro do país. Com uma população envelhecendo rapidamente e menos jovens nascendo, a sustentabilidade de sua força de trabalho e sistemas de seguridade social fica comprometida.
As políticas governamentais, embora intensas e variadas, ainda não conseguiram reverter a tendência de queda. A mudança de mentalidade da população, a valorização da carreira sobre a família e os altos custos de vida continuam a ser barreiras significativas.
O impacto dessa transformação demográfica transcende as fronteiras chinesas, afetando a economia global e as relações internacionais. A forma como a China abordará e, eventualmente, superará essa crise será crucial para determinar seu papel no século XXI.
O mundo observa atentamente as estratégias do gigante asiático para lidar com a perda de habitantes e a crise demográfica, que pode redefinir o equilíbrio de poder e as dinâmicas sociais em escala global.