Um cenário preocupante emerge dos dados mais recentes da educação no Brasil. Um terço das mais de 179 mil escolas, tanto públicas quanto privadas, em todo o país, não desenvolve nenhuma ação ligada ao ensino sobre meio ambiente ou mudanças climáticas.
Essa lacuna contraria a legislação brasileira, que desde a Constituição de 1988 e a Lei 9.795, de 1999, estabeleceu a Política Nacional de Educação Ambiental (PNEA). Desde 2024, inclusive, temas como mudanças climáticas e riscos de desastres socioambientais foram incorporados a essa política, ressaltando sua urgência.
A ausência de práticas em educação ambiental levanta questões sobre a formação de novas gerações e o preparo para os desafios climáticos. Os números alarmantes foram registrados no Censo Escolar 2024, do Inep, conforme informações divulgadas pelo laboratório de jornalismo de dados de educação e cultura, promovido pela Folha e pela Fundação Itaú em outubro de 2025.
Desigualdades Regionais e o Cenário em São Paulo
A pesquisa do Inep revela que o problema é mais acentuado em algumas regiões. O Sudeste, por exemplo, apresentou o pior índice nacional, com 42% das instituições de ensino sem qualquer ação na área em 2024. Em seguida, aparece a região Norte, com 39% das escolas na mesma situação.
São Paulo, o estado com o maior número de escolas no país, totalizando 30.401, registrou o menor índice de adesão às ações de educação ambiental entre os entes federativos. Mais da metade das instituições de ensino paulistas, 51%, declararam não ter trabalhado o tema.
Em nota, a Secretaria da Educação do Estado de São Paulo informou que busca realizar ações para a formação de profissionais em parceria com a Secretaria de Meio Ambiente. A pasta mencionou a mobilização de mais de mil escolas na 6ª Conferência Nacional Infantojuvenil pelo Meio Ambiente, realizada em 2025, mas não forneceu esclarecimentos sobre os números específicos do Censo Escolar.
A Importância da Educação Ambiental na Visão de Especialistas
Para Paulo Boggiani, professor do Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo (IGC-USP), a educação ambiental é crucial para a própria sobrevivência da humanidade. Ele enfatiza que “é preciso que exista uma conscientização ambiental que faça o indivíduo repensar seu papel na sociedade.”
O docente avalia que os baixos níveis de desenvolvimento do ensino sobre o tema refletem a deficiência da educação brasileira. Para ele, o caminho é a valorização e a formação dos professores em todos os níveis. Boggiani alerta que “Educação ambiental não pode ser só fazer árvore de Natal com garrafa pet”, ressaltando a necessidade de abordagens mais profundas e eficazes.
Exemplos de Sucesso e a Retomada da PNEA pelo MEC
Apesar do cenário desafiador, alguns estados se destacam positivamente. O Paraná foi o estado com o melhor resultado na área, com 95% dos centros educacionais realizando ações relacionadas ao meio ambiente. Segundo o secretário de Educação do Paraná, Roni Miranda, o estado estimula ações transversais sobre o tema e desenvolveu um currículo unificado, com pensamento crítico e relacionado ao dia a dia do estudante.
Outros estados com bons indicadores incluem Tocantins (84%), Santa Catarina (82%), Espírito Santo (80%), Rondônia (77%), Pernambuco (77%), Sergipe (75%) e Ceará (75%). Mesmo nesses casos, os percentuais indicam que a implementação da educação ambiental ainda está distante de um patamar ideal, necessitando de aprimoramento contínuo.
No Ceará, o governo criou, em 2017, o Selo Escola Sustentável, concedido a escolas públicas estaduais que se destacam em projetos de responsabilidade socioambiental. Um exemplo é o Ceja (Centro de Educação de Jovens e Adultos) Guilherme Gouveia, em Granja, que recebeu o selo com nota máxima (1.000) e prêmio de R$ 10 mil em dezembro de 2025.
A diretora da escola, Sueli Magalhães, explica que o ensino ambiental está presente em todas as disciplinas. Entre as ações desenvolvidas, ela destaca a coleta seletiva, a destinação adequada de materiais, a reutilização de água para irrigação de jardins e hortas, a compostagem e o uso de energia solar para carregamento de dispositivos. Para Magalhães, a formação e as ações sobre ecologia são determinantes para “formar cidadãos conscientes e capazes de agir de forma responsável na comunidade em que estão inseridos”.
Ações do MEC para Fortalecer a Educação Ambiental
Zara Figueiredo, secretária de Educação Continuada, Alfabetização de Jovens e Adultos, Diversidade e Inclusão do Ministério da Educação (MEC), reforça que “não basta fazer ações isoladas em datas comemorativas, é preciso haver práticas pedagógicas permanentes, projetos interdisciplinares e atividades contextualizadas no território”.
Segundo a secretária, uma das explicações para os resultados abaixo das expectativas deve-se à paralisação da PNEA no governo anterior, com a interrupção de “apoio técnico e financeiro às secretarias estaduais e municipais de educação”.
Figueiredo afirma que a política de ensino ambiental foi retomada e “reúne um conjunto de ações articuladas, como a oferta de cursos de formação para professores, gestores e demais profissionais da educação, a produção de protocolos de adaptação e resposta às mudanças climáticas”. Além disso, o MEC prevê o “repasse de recursos diretamente às escolas para o desenvolvimento de projetos e adequações em sua infraestrutura física”, buscando impulsionar a educação ambiental em todo o Brasil.