Para começar, a crise da água no planeta atingiu um nível sem precedentes. Especialistas das Nações Unidas (ONU) alertam que o mundo entrou em uma nova e perigosa era, que eles denominam de falência hídrica. Este cenário é resultado de décadas de uso excessivo, poluição e, principalmente, das intensas mudanças climáticas.

A gravidade da situação é tamanha que a linguagem tradicional, como “estresse hídrico” ou “crise hídrica”, já não é mais suficiente para descrever o problema. O desafio atual é muito mais profundo e, infelizmente, algumas perdas já são irreversíveis, exigindo uma reorganização completa de como a humanidade lida com seus recursos hídricos.

Conforme um relatório abrangente da Universidade das Nações Unidas (UNU), divulgado nesta terça-feira (20), a comparação é com uma pessoa mergulhando em ruína financeira, onde não apenas se gasta a “renda” anual de água, mas também se esgotam as “economias” de longo prazo, como aquíferos e geleiras.

O Que Significa a ‘Falência Hídrica’?

Cientistas da UNU comparam a humanidade a alguém que não só gasta em excesso sua “renda” anual de água, que são os fluxos renováveis da chuva e da neve, mas também exaureu as “economias” armazenadas em aquíferos subterrâneos, geleiras e ecossistemas. Além disso, a poluição proveniente de resíduos humanos, agricultura e operações industriais contamina a pouca água doce que resta, como “alguém ateando fogo aos últimos dólares em sua carteira”.

Kaveh Madani, diretor do Instituto de Água, Meio Ambiente e Saúde da UNU e autor principal do relatório, ressalta que essa situação não desaparecerá tão cedo. As atividades humanas já causaram danos irreversíveis a muitos dos sistemas que geram, regulam e armazenam água doce, consolidando o estado de falência hídrica.

Sinais Alarmantes de um Cenário Irreversível

Os sinais dessa emergência são abundantes e alarmantes. Mais da metade dos grandes lagos do mundo estão encolhendo, e aproximadamente 70% dos aquíferos subterrâneos estão em declínio de longo prazo. As secas em grande escala tornaram-se mais frequentes e generalizadas, custando em média US$ 307 bilhões (R$ 1,6 trilhão) anualmente.

Cerca de 4,4 bilhões de pessoas enfrentam escassez de água durante pelo menos um mês por ano. As temperaturas crescentes, impulsionadas pela queima de combustíveis fósseis, alteraram os padrões de precipitação e aumentaram a taxa de evaporação. O desmatamento e o desenvolvimento destruíram ecossistemas vitais que filtram e limpam a água da chuva.

A extração excessiva está causando o colapso de aquíferos subterrâneos, reduzindo sua capacidade de recarga. As geleiras montanhosas, acumuladas ao longo de séculos, derretem e não se regenerarão na escala de uma vida humana. “O que aparece na superfície como uma crise é, na verdade, uma nova linha de base”, afirmam os autores do relatório, indicando que “algumas perdas são agora inevitáveis”.

Impactos Globais: Da Fome aos Conflitos

Essa falência hídrica já causa estragos econômicos e políticos em diversas partes do mundo. Grandes áreas urbanas, como Cidade do Cabo (África do Sul), Chennai (Índia) e Cidade do México, estiveram à beira de “dias zero”, onde o abastecimento de água se esgota.

Secas generalizadas elevaram os preços de alimentos essenciais, como azeite de oliva mediterrâneo e vegetais da Califórnia. No Vietnã, a contaminação por água salgada devido ao aumento dos mares causou bilhões de dólares em danos a arrozais e pomares. Grandes barragens hidrelétricas, da Zâmbia a Nevada, viram seus reservatórios caírem a níveis críticos, perdendo a capacidade de gerar eletricidade.

A extração excessiva de aquíferos também provoca o afundamento de terras, danificando infraestruturas e tornando áreas mais vulneráveis a inundações. Madani destaca que a escassez de água no Irã, ligada às mudanças climáticas e à má gestão, levou a racionamento, cortes de energia e aumento de preços de alimentos, alimentando movimentos de protesto.

Melissa Scanlan, especialista em direito ambiental da Universidade de Wisconsin, observou que “o escopo global do relatório é útil para mostrar padrões repetidos”, afetando países de todos os tamanhos e níveis de renda. “Falta de água significa falta de comida”, advertiu Madani. “Significa fome, desemprego, caos, revolução.”

Um Novo Caminho para a Gestão da Água

O relatório da ONU propõe que, assim como uma empresa em falência reestrutura suas operações, o mundo deve reavaliar quanta água está realmente disponível e priorizar as demandas concorrentes. Isso pode envolver limitar novos desenvolvimentos em cidades com estresse hídrico ou restringir o crescimento de indústrias intensivas em água.

Os líderes mundiais também devem proteger florestas, zonas úmidas e outros ecossistemas que são cruciais para o ciclo da água. O setor agrícola, responsável por 70% do uso de água da humanidade, apresenta os maiores desafios e oportunidades de mudança, segundo Rabi Mohtar, hidrólogo da Universidade Texas A&M.

Governos podem precisar impor restrições à irrigação e ao bombeamento de águas subterrâneas, ou exigir que os agricultores adotem culturas menos sedentas. Além disso, regulamentações para prevenir a poluição por pesticidas e fertilizantes são essenciais. Mohtar, embora cético quanto ao termo “falência hídrica” por seu tom desanimador, concorda que “o tempo em que tínhamos abundância acabou” e que é necessária “responsabilidade por cada gota”.

Repensar a gestão da água terá consequências econômicas e sociais significativas. Nações áridas podem precisar importar alimentos, e agricultores podem ter que buscar novas formas de subsistência. O relatório enfatiza que essas mudanças devem ser implementadas de forma equitativa para evitar que os mais vulneráveis sofram ainda mais. Madani conclui que abordar os desafios hídricos pode trazer “cobenefícios” em outras áreas, como a melhoria da qualidade do ar e a absorção de carbono, e que “em um mundo fragmentado, a água pode ser uma desculpa para unir as pessoas”.

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