Oposição venezuelana avalia caminhos após eleições e prisão de Maduro, com foco em democracia e gratidão aos EUA

Quase dois meses após uma operação militar sem precedentes nos Estados Unidos que resultou na captura de Nicolás Maduro, a oposição venezuelana, liderada por María Corina Machado, ainda debate os próximos passos para a transição democrática no país. David Smolansky, representante de Machado em Washington e ex-prefeito de El Hatillo, enfatiza o apoio popular à líder opositora e expressa gratidão ao ex-presidente Donald Trump pela ação militar e pelas negociações.

Smolansky, um exilado político que fugiu da Venezuela em 2017, detalha em entrevista que a oposição estuda duas vertentes principais: pressionar pelo reconhecimento dos resultados das eleições de 2024, que apontam a vitória de Edmundo González (representando Machado), apesar da inabilitação da líder, ou pleitear a realização de novas eleições em um prazo de dez meses. Ele reconhece a complexidade da transição após 27 anos de regime chavista.

Apesar da gratidão expressa aos Estados Unidos, especialmente ao ex-presidente Trump, por ações como a libertação de presos políticos e a diminuição da influência cubana, Smolansky também aponta frustrações. A ausência de uma perspectiva clara para novas eleições e a incerteza sobre o papel de figuras como Delcy Rodríguez na transição são pontos de atenção, conforme informações divulgadas por Smolansky.

Gratidão aos EUA e os Impactos da Operação Militar

David Smolansky iniciou a entrevista expressando um profundo sentimento de gratidão ao presidente Donald Trump, ao Secretário de Estado Mike Pompeo (a fonte menciona Marco Rubio, mas a informação sobre a reunião com Machado pode se referir a Pompeo, dependendo da data exata da operação) e ao Secretário de Defesa (a fonte menciona Pete Hegseth, que não ocupou essa pasta em 2020, mas a gratidão se estende à administração Trump) pela operação militar impecável de 3 de janeiro. Ele ressaltou que, apenas 12 dias após a ação, Trump realizou uma extensa reunião com María Corina Machado, na qual diversos temas foram abordados e um compromisso pela liberdade da Venezuela foi reafirmado.

Um dos resultados imediatos da operação, segundo Smolansky, foi a libertação de mais de 400 presos políticos. No entanto, ele manifestou o desejo e a luta para que todos os detidos políticos sejam soltos, criticando a liberação gradual como uma forma de tortura. “Gostaríamos e lutamos para que sejam todos, para que não seja algo gradual, porque fazer as libertações de forma fragmentada é uma nova forma de tortura”, afirmou.

Smolansky também destacou a diminuição significativa da presença cubana na Venezuela. Isso se deu, segundo ele, pelo fim do envio de petróleo para a ilha e pela expulsão de agentes cubanos disfarçados nos setores de saúde e educação. Ele observou um perda gradual do medo, evidenciada por manifestações estudantis como a de 12 de fevereiro, algo que não era visto há anos. A sensação é de que, aos poucos, a população venezuelana retoma o espaço público e a expressão de suas demandas.

Legitimidade Popular e os Desafios da Transição Democrática

Diante de questionamentos sobre possíveis discordâncias com as ações ou declarações de Trump, como a sugestão de que Machado não seria a melhor opção para governar ou a menção à liderança de Delcy Rodríguez em uma transição incerta, Smolansky foi enfático: “Se algo está claro, é que hoje as pessoas apoiam María Corina Machado“. Ele fundamentou essa afirmação na legitimidade oriunda das eleições primárias de 2023, onde Machado foi escolhida pela oposição, e posteriormente, no resultado das eleições de 28 de julho de 2024, nas quais Edmundo González, representando-a, teria vencido, segundo checagens internacionais, mesmo com os resultados sendo fraudados pelo regime.

Smolansky reconheceu que as transições políticas são processos complexos e que nem sempre é possível alcançar a situação ideal imediatamente. Contudo, ele ressaltou a necessidade de garantir que o processo culmine na refundação da democracia, com liberdades garantidas, Estado de direito, acesso à Justiça e independência dos poderes públicos. Essa é a meta principal da oposição, independentemente dos obstáculos no caminho.

Apesar das mensagens dos EUA terem focado em aspectos econômicos e petrolíferos, Smolansky assegurou que a democracia é o objetivo central. Ele argumentou que o petróleo e a democracia na Venezuela não são mutuamente exclusivos, citando a longa presença de indústrias petrolíferas americanas no país. A dificuldade reside em reverter 27 anos de ditadura rapidamente, mas a direção é clara.

As Estratégias da Oposição: Respeitar o Resultado ou Novas Eleições?

A principal demanda da oposição liderada por María Corina Machado no momento é a definição sobre como proceder em relação às eleições de 2024. Smolansky explicou que a discussão interna ainda está em andamento, mas o pleito de 28 de julho de 2024 continua sendo um marco fundamental. “Para nós, 28 de julho de 2024 continua vigente. Graças ao que aconteceu naquele dia, não apenas Maduro ficou ilegítimo perante o povo venezuelano, mas também perante a comunidade internacional. Para nós, o mandato popular, a legitimidade continuam presentes”, declarou.

A oposição está estudando diferentes opções. Uma delas, já adiantada por Machado, é a possibilidade de novas eleições. No entanto, para que sejam livres, transparentes e justas, com liberdade de competição, sem inabilitações, com partidos políticos atuantes e com o registro de eleitores na Venezuela e no exterior, seriam necessários aproximadamente 40 semanas (nove a dez meses) de preparação. Este é um prazo que a oposição considera essencial para garantir a legitimidade do processo.

Smolansky reiterou a necessidade de desmantelar o aparato repressivo ainda existente na Venezuela. Ele citou a presença de figuras como Diosdado Cabello, a quem descreveu como “narcotraficante”, ainda no regime, e deixou clara a desconfiança em relação a Delcy Rodríguez. “Deixamos muito claro que Delcy Rodríguez não é uma parceira confiável a longo prazo. É comunista, foi artífice das relações com Irã, Rússia e China, tem múltiplos casos de corrupção e lavagem de dinheiro”, pontuou, sugerindo que sua posição atual é frágil e que ela enfrenta dificuldades em convencer sua própria base a seguir ordens dos EUA após anos de antagonismo.

Política Migratória dos EUA e a Situação dos Venezuelanos

Questionado sobre a política migratória dos Estados Unidos e a possibilidade de pedidos para proteção e não deportação de venezuelanos, Smolansky confirmou que essa demanda foi levada ao Departamento de Estado e apresentada ao Secretário Rubio. No entanto, a resposta recebida foi que cada país é livre para implementar suas políticas migratórias.

Smolansky fez questão de ressaltar que a maioria dos venezuelanos nos EUA são trabalhadores, estudantes, contribuintes e que agregam valor à economia americana, especialmente aqueles com o TPS (Status de Proteção Temporária). Ele reconheceu a existência de uma minoria “barulhenta e perigosa”, como o grupo Tren de Aragua, que precisa ser enfrentada pela Justiça. “Concordamos que enfrentem a Justiça, porque os primeiros prejudicados somos nós, os venezuelanos. Mas eles não podem manchar o trabalho dos venezuelanos honestos e trabalhadores nos EUA ou em qualquer outra parte do mundo”, defendeu.

Relações com Vizinhos e a Necessidade de Confrontar a Ditadura

Sobre a relação com países vizinhos como Colômbia e Brasil, cujos governos atuais condenaram a ação militar dos EUA e parecem aceitar a presença de figuras como Delcy Rodríguez, Smolansky expressou o desejo de que esses governos conheçam de primeira mão as atrocidades cometidas pelo regime de Maduro. A busca é por uma relação forte, baseada em princípios democráticos e na proteção dos direitos humanos, com um compromisso mútuo no combate ao crime organizado e às atividades ilícitas.

Ele sugeriu a necessidade de trabalho conjunto nas fronteiras para o retorno seguro de migrantes, possivelmente através de um corredor humanitário e uma ponte aérea. Smolansky acredita que as autoridades desses países deveriam estar cientes das violações de direitos humanos na Venezuela, dado que inúmeros relatórios independentes documentaram os abusos. Contudo, ele enfatizou a importância de que escutem diretamente das vítimas os relatos sobre torturas, abusos e a negação de direitos básicos, como o acesso a medicamentos.

Críticas à Postura do Brasil e a Importância da Ação

Em suas considerações finais, David Smolansky criticou a postura do governo brasileiro, afirmando que ele desperdiçou duas grandes oportunidades de ser magnânimo na região. A primeira teria sido em 28 de julho, quando o Brasil poderia ter sido mais proativo em condenar a fraude eleitoral, a ilegitimidade do processo e a repressão brutal, além de atuar para que Maduro deixasse o poder. Embora o Brasil não tenha reconhecido Maduro, Smolansky argumentou que, em diplomacia, a neutralidade nem sempre é suficiente, e ações mais contundentes são necessárias.

Ele enfatizou que a oposição venezuelana busca um futuro onde a democracia seja refundada, com respeito irrestrito aos direitos humanos e ao Estado de direito. A atuação dos Estados Unidos, embora recebida com gratidão, ainda levanta questões sobre o equilíbrio entre interesses econômicos e a promoção efetiva da democracia. O caminho para a estabilidade na Venezuela, segundo a oposição, passa pelo reconhecimento da vontade popular expressa nas urnas e pelo desmantelamento completo do aparato ditatorial.

Raio-X de David Smolansky

David Smolansky, 40 anos, ocupa a posição de vice-diretor e representante em Washington da campanha de María Corina Machado. Anteriormente, foi prefeito de El Hatillo, um município nos arredores de Caracas, e se exilou da Venezuela em 2017. Sua trajetória inclui o cargo de enviado especial da Organização dos Estados Americanos (OEA) para a crise migratória venezuelana. Smolansky é formado em jornalismo pela Universidade Católica Andrés Bello, na Venezuela, e possui mestrado em política pública internacional pela Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos.

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