O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, gerou grande repercussão ao anunciar que havia garantido a “estrutura de um futuro acordo” sobre a Groenlândia. A declaração, feita de forma repentina, deixou muitos envolvidos com poucas informações concretas sobre o verdadeiro significado dessa nova parceria.
No entanto, uma análise cuidadosa dos pontos mencionados por Trump revela uma semelhança notável com um acordo de segurança já existente entre os EUA e a Dinamarca, país que detém o controle sobre a Groenlândia. Essa similaridade levanta questionamentos importantes sobre a real inovação e o alcance do que foi prometido pelo presidente americano.
Apesar da retórica de um avanço significativo, muitos dos elementos que Trump descreve como conquistas parecem replicar disposições já estabelecidas em um tratado militar firmado em 1951, conforme informações divulgadas pela CNN, o que sugere que o plano dos EUA para a Groenlândia pode não ser tão novo assim.
A Promessa de Trump e a Realidade do Acordo
Donald Trump tem sido notavelmente evasivo ao discutir os detalhes do suposto novo acordo sobre a Groenlândia. Ao ser questionado pela CNN se o pacto atenderia à sua exigência de controlar o território, ele hesitou, desviando da pergunta e afirmando apenas que se tratava de um “acordo de longo prazo”, “pra sempre”, “infinito”.
A falta de clareza não se restringiu ao presidente. Até mesmo o secretário-geral da OTAN, Mark Rutte, quando questionado sobre os detalhes, se referiu apenas à postagem de Trump nas redes sociais, que continha praticamente nenhuma informação relevante. Essa ambiguidade alimenta a especulação.
A insistência de Trump em termos como “infinito” e “sem prazo limite”, repetida na Fox Business Network, é particularmente intrigante, pois a presença militar americana na Groenlândia já está prevista em caráter permanente no acordo de 1951. O presidente, no entanto, apresenta esses pontos como grandes avanços inéditos.
A CNN apurou que, até o momento, não existe nenhum documento concreto detalhando esse novo entendimento. A “estrutura” mencionada por Trump é, na verdade, um entendimento verbal entre ele e Rutte, e seus termos parecem espelhar de perto o que os Estados Unidos já possuíam, o que sugere que o presidente americano pode ter cedido em suas exigências iniciais de controle total.
Elementos Chave: O Que o Novo Acordo Realmente Traz?
Entre os possíveis termos do novo acordo para a Groenlândia, Trump afirmou que ele permitiria “acesso total” para fins de defesa, incluindo a instalação de um sistema de defesa conhecido como “Domo de Ouro”, similar ao de Israel. Essa seria uma capacidade estratégica importante na região.
Um porta-voz da OTAN sugeriu que o acordo atualizado também poderia incluir disposições específicas para impedir que Pequim e Moscou operassem na Groenlândia, um ponto de interesse estratégico para os Estados Unidos e seus aliados ocidentais.
A questão do acesso dos EUA aos minerais da Groenlândia, uma prioridade declarada por Trump, apresenta sinais contraditórios sobre sua inclusão no acordo. Ainda não está claro qual seria a dimensão de uma eventual concessão, considerando as complexidades e desafios da exploração mineral na ilha ártica.
Contudo, a soberania sobre as bases americanas na Groenlândia já era bastante abrangente. O acordo de 1951 com a Dinamarca concedia aos Estados Unidos “jurisdição exclusiva sobre suas áreas de defesa na Groenlândia”, um poder significativo que já garantia ampla autonomia operacional.
A Abrangência do Tratado de 1951
O tratado de 1951, fundamental para a presença americana na Groenlândia, já permitia aos EUA aprimorar e desenvolver suas áreas de defesa, instalar e manter equipamentos militares e de apoio, alocar pessoal, e fornecer segurança para suas instalações e operações. Houve, inclusive, atualizações nesse acordo em 2004, refinando ainda mais suas disposições.
Mais do que isso, o acordo garantia aos Estados Unidos a capacidade de operar correios e armazéns dentro de suas áreas de defesa, além de controlar a entrada, saída e operação de navios e aeronaves, assegurando uma logística eficiente e segura para suas forças.
O tratado também concedia aos Estados Unidos livre circulação entre as diferentes áreas de defesa na Groenlândia. As leis dinamarquesas, por sua vez, não poderiam ser usadas para impedir que funcionários americanos e suas famílias entrassem ou saíssem dessas áreas, conferindo uma autonomia considerável às operações dos EUA na ilha.
Embora seja possível que um novo acordo para a Groenlândia inclua ainda mais liberdade de atuação para os EUA, é inegável que o tratado de 1951 já assegura uma presença militar e operacional robusta e com ampla jurisdição, desmistificando a ideia de que o presidente Trump estaria começando do zero em suas negociações.
Receptividade Internacional e o Custo da Negociação
Curiosamente, muitos dos pontos que Trump parece ter “negociado” já eram pautas abertas para discussão diplomática. A Groenlândia, a Dinamarca e outros países relevantes já haviam sinalizado repetidamente sua disposição em cooperar nessas questões, sem a necessidade de táticas mais agressivas ou coercitivas.
A ministra das Relações Exteriores da Groenlândia, Vivian Motzfeldt, afirmou publicamente no início do mês que o território estava comprometido em encontrar o “caminho certo” e em fortalecer a cooperação em segurança, demonstrando abertura ao diálogo.
Líderes nórdicos, incluindo o ministro das Relações Exteriores da Dinamarca, já haviam declarado anteriormente que o acordo de 1951 “oferece oportunidades para uma maior cooperação em segurança”, indicando uma base sólida para futuras conversas.
A intenção de Trump de manter a Rússia e a China fora da Groenlândia provavelmente não encontraria resistência. Dada a participação da Dinamarca na OTAN, havia muitos motivos para acreditar que o país seria receptivo a tal medida, buscando alinhar-se com os interesses de segurança ocidentais e evitar influências adversas na região ártica.
Até mesmo a questão dos direitos de mineração já havia sido abordada por negociadores semanas antes das declarações de Trump. O senador republicano Mitch McConnell expressou sua frustração com a abordagem do presidente, dizendo: “Ainda não ouvi desta administração nada do que precisamos da Groenlândia que este povo soberano já não esteja disposto a nos conceder.”
Trump, no entanto, rejeitou as críticas, insistindo que sua abordagem era de “tudo ou nada”. Ele afirmou que a “propriedade te dá algo que você não consegue, seja por meio de um contrato de arrendamento ou de um tratado”, ressaltando a necessidade psicológica de controle total da ilha.
Um documento detalhando os termos específicos de um novo acordo deverá ser finalizado na próxima reunião do grupo de trabalho EUA-Dinamarca-Groenlândia, possivelmente já na próxima semana, segundo a CNN. Contudo, o caminho até aqui foi marcado por táticas brutais e um gasto considerável de capital político e estrangeiro para alcançar o que parecem ser apenas mudanças modestas, que poderiam ter sido conquistadas de outras maneiras, com menos atrito diplomático.