China no Ano do Cavalo: Entre Estímulos e Deflação, Como o Brasil Navega os Novos Ventos Econômicos
Enquanto o Brasil mergulha nas celebrações do Carnaval, a China inicia o Ano do Cavalo de Fogo, um período que levanta importantes questões sobre a saúde de sua economia. Especialistas globais observam atentamente os desdobramentos na segunda maior economia do mundo, e as perspectivas indicam um cenário de desafios para o comércio internacional, com repercussões significativas para o Brasil.
Apesar de ter atingido a meta de crescimento de 5% no último ano, a China enfrenta um desequilíbrio crônico entre a vasta oferta de sua indústria e a demanda interna, que se mostra enfraquecida. Essa dinâmica tem levado o país a exportar deflação, pressionando preços globais e exigindo cautela e estratégia de parceiros comerciais como o Brasil.
Analistas apontam que, embora os agressivos pacotes de estímulo tenham evitado um colapso no setor imobiliário, a falta de demanda interna consistente continuará a ser um obstáculo. A situação exige uma análise aprofundada dos impactos setoriais e das estratégias que o Brasil pode adotar para mitigar os efeitos adversos, conforme informações divulgadas por diversos veículos especializados em economia.
Desequilíbrio Estrutural: A Sombra da Deflação Chinesa sobre o Mercado Global
A economia chinesa, apesar de seu tamanho e dinamismo, convive com um dilema persistente: um excesso de capacidade industrial que não encontra vazão suficiente no consumo doméstico. Esse descompasso é evidenciado pela queda contínua no índice de preços ao consumidor na saída das fábricas (PPI) por 40 meses consecutivos. Esse cenário indica que a indústria chinesa opera com uma produção muito superior à demanda interna, forçando a busca por mercados externos para escoar seus produtos.
Em contrapartida, o índice de preços ao consumidor (CPI) registrou uma alta modesta de apenas 0,2% em janeiro na comparação anual. Esse dado, somado ao crescimento mais lento das vendas no varejo desde o período de colapso da Covid-19 em 2020, reforça a fragilidade da demanda doméstica. Para tentar reverter esse quadro, o governo chinês tem implementado medidas para impulsionar o consumo interno, mas os resultados ainda são incertos.
Especialistas como Marianna Costa, economista-chefe da Mirae Asset, alertam que o modelo de crescimento chinês, historicamente atrelado à expansão imobiliária, está se esgotando. Embora haja uma estabilização em alguns indicadores, não se vislumbra uma retomada cíclica robusta. A queda de 17,2% no investimento imobiliário e a existência de cerca de 80 milhões de imóveis não vendidos no mercado são dados que corroboram esse pessimismo, segundo João Pedro Moreno, analista da Nexgen Capital.
O Setor Imobiliário Chinês: Entre a Estabilização e a Crise Latente
A crise no setor imobiliário chinês tem sido um dos focos de atenção dos economistas. A falta de apetite dos consumidores por novos imóveis levou a uma queda nas vendas de apartamentos novos para o nível mais baixo em mais de 15 anos, e os preços de imóveis usados despencaram. Esse cenário impacta diretamente o patrimônio das famílias chinesas, que, sentindo a desvalorização de seus bens, tendem a reduzir seus gastos, afetando o consumo geral.
A situação também gera dificuldades para os governos locais, que dependem significativamente das receitas provenientes do setor imobiliário para financiar suas operações e pagar servidores públicos. Lucas Sigu Souza, sócio-fundador da Ciano Investimentos, destaca que os planos estatais foram bem-sucedidos em evitar um risco sistêmico e um colapso no setor, reduzindo o risco de um efeito cascata de quebra de empresas. No entanto, a resolução completa do desequilíbrio estrutural ainda é um caminho distante.
O foco do governo chinês tem se deslocado para os setores de manufatura e tecnologia, em detrimento de um resgate mais abrangente do setor de construção civil. Essa mudança de prioridades sinaliza uma reconfiguração da economia chinesa, com implicações para a demanda por matérias-primas e bens de capital que antes eram impulsionados pelo boom imobiliário.
Exportação de Deflação: Como a China Pressiona os Preços Globais
Com o consumo interno chinês ainda fraco, a estratégia da indústria do país para lidar com o excesso de produção tem sido direcioná-lo para os mercados globais. Esse fenômeno é conhecido como “exportação de deflação”, onde o volume massivo de produtos chineses a preços competitivos pressiona para baixo os valores em outros países.
João Pedro Moreno explica que essa prática força a redução de preços internacionais, beneficiando importadores em alguns casos, mas criando um ambiente de concorrência acirrada para indústrias locais em outros. A China, ao despejar seu excedente produtivo no mercado internacional, atua como um grande agente definidor de preços em diversos setores.
Esse cenário tem um impacto direto e, por vezes, assimétrico sobre a indústria brasileira. Setores como siderurgia e metalurgia, por exemplo, podem enfrentar uma concorrência mais intensa devido à entrada de produtos chineses mais baratos. Por outro lado, a importação de insumos a custos menores pode gerar um efeito desinflacionário sobre bens comercializáveis no Brasil, o que, em tese, poderia ser positivo para o consumidor final.
Impactos Setoriais no Brasil: Commodities Sob Pressão e Oportunidades na Transição Energética
Para as gigantes brasileiras de commodities, o cenário de 2026 exige uma análise cuidadosa. No setor de mineração, a demanda enfraquecida da construção civil chinesa tende a manter os preços do minério de ferro sob pressão. A crise imobiliária na China limita diretamente a demanda por aço e, consequentemente, por minério de ferro, criando um cenário de baixa para essas commodities.
No entanto, Lucas Sigu Souza aponta para um contraponto positivo impulsionado pela transição energética global. Embora a construção civil possa não crescer, a expansão da indústria de carros elétricos e de infraestrutura tecnológica demandará minério e aço. Portanto, o faturamento de empresas como a Vale pode não sofrer uma queda abrupta, pois a demanda, embora migre de setor, não desaparece completamente.
No agronegócio, a relação comercial com a China pode se tornar mais tensa. Apesar da resiliência histórica da demanda por alimentos, a China, como um comprador dominante (monopsônio), pode exercer maior poder de barganha para negociar preços. Lucas Sigu Souza alerta para um impacto específico nos frigoríficos brasileiros. A China tem investido pesadamente em sua própria produção de frango e porco, visando reduzir a dependência de importações. Um aumento na oferta interna chinesa pode gerar pressão competitiva sobre o preço da carne bovina importada.
Investimentos na China: Seletividade Extrema em um Cenário de Riscos
Para o investidor brasileiro que considera alocar capital na Ásia, seja através de ETFs (fundos de índice) ou BDRs (recibos de ações estrangeiras), a recomendação unânime é de extrema seletividade. Embora as avaliações descontadas de empresas chinesas possam parecer atrativas à primeira vista, elas frequentemente escondem riscos estruturais profundos.
A principal preocupação reside no cenário geopolítico, marcado por uma notável falta de previsibilidade, especialmente com a possibilidade de novas tarifas comerciais. Nesse contexto, alguns analistas sugerem um foco em setores como tecnologia e financeiro, evitando a todo custo qualquer exposição ao setor imobiliário chinês, que ainda carrega incertezas significativas.
João Pedro Moreno concorda que os ativos chineses negociam a preços baixos, mas alerta para o risco de uma “value trap” (armadilha de valor). Isso ocorreria caso a transição da China para uma economia mais voltada ao consumo demore mais tempo do que o esperado, mantendo a volatilidade em níveis elevados. Investir no mercado chinês exige, portanto, estômago para a volatilidade e um horizonte de longo prazo.
Perspectivas para o Futuro: Adaptação é a Chave para o Brasil
O Ano do Cavalo de Fogo na China apresenta um panorama complexo para a economia global e, em particular, para o Brasil. A capacidade chinesa de gerenciar seu excesso de capacidade produtiva e reequilibrar sua economia terá efeitos duradouros sobre os fluxos comerciais e os preços de commodities.
Para o Brasil, o desafio reside em diversificar seus mercados de exportação, fortalecer sua própria demanda interna e buscar agregar valor aos seus produtos, em vez de depender apenas da venda de matérias-primas. A pressão deflacionária imposta pela China exige que a indústria brasileira seja mais competitiva e eficiente.
A transição energética e o avanço tecnológico na China podem abrir novas janelas de oportunidade para o agronegócio e a indústria de base brasileira. No entanto, a negociação de preços e a busca por contratos mais vantajosos serão cruciais para garantir a rentabilidade. A adaptação a este novo cenário econômico global será fundamental para que o Brasil possa navegar com sucesso as águas, por vezes turbulentas, da economia chinesa.