Plano do Governo Flamenco de Reestruturação Museológica Gera Forte Reação no Setor Cultural Belga
Artistas, curadores e funcionários do setor cultural na Bélgica reagiram com indignação a um plano do governo de Flandres que visa desmantelar o Museu de Arte Contemporânea da Antuérpia, conhecido como M HKA. A proposta inclui a retirada de obras de museu e a transferência de todo o seu acervo para o Museu Municipal de Arte Contemporânea de Ghent.
A controvérsia escalou após a direção do M HKA denunciar o que classificou de “ilegalidades flagrantes” e uma completa falta de consulta às instituições envolvidas na decisão governamental. Este plano, que redefine o papel de importantes instituições culturais, será debatido no parlamento belga.
As informações divulgadas indicam que a decisão levanta sérias questões sobre a política cultural regional e o futuro da arte contemporânea no país, com vozes influentes do meio artístico expressando profunda preocupação sobre as implicações desta movimentação de acervo.
A Raiz da Polêmica: Cancelamento de Projeto e Transferência de Acervo
Em outubro, a ministra da Cultura de Flandres, Caroline Gennez, anunciou o cancelamento de um projeto de longa data para um novo edifício do M HKA. A torre, planejada há quase uma década, tinha custos estimados inicialmente em 80 milhões de euros, subindo posteriormente para 130 milhões de euros, o equivalente a cerca de R$ 504 milhões e R$ 819 milhões, respectivamente.
Na mesma ocasião, Gennez revelou que as mais de 7.700 obras do M HKA seriam incorporadas ao Museu Municipal de Arte Contemporânea de Ghent, localizado a 57 quilômetros de distância. No entanto, a segunda instituição não possui espaço adequado para receber a totalidade do acervo, o que intensifica as críticas sobre a viabilidade e a lógica da decisão.
A ministra justificou a medida à agência Belga News, afirmando que “os museus flamengos podem se orgulhar de suas coleções”. Ela acrescentou que, “para aproveitar melhor essas coleções e concretizar as ambições de expansão e internacionalização, é necessária mais cooperação”, apresentando a reforma como uma medida de racionalização de gastos e reorganização institucional.
Antuérpia Perde Status e Artistas Reagem com Veemência
Na prática, a decisão do governo de Flandres retira da Antuérpia o status de cidade-sede de um museu de arte contemporânea com acervo próprio. Esta mudança tem gerado um forte descontentamento entre os artistas e a comunidade cultural local, que veem a medida como um golpe contra a identidade cultural da cidade.
O pintor Luc Tuymans, amplamente considerado o artista belga vivo mais influente, criticou duramente a decisão. “Antuérpia é a maior cidade de Flandres, com um legado como casa da vanguarda na Bélgica”, declarou Tuymans. Para ele, a transferência de acervo representa “uma perda de prestígio” e ignora completamente o papel histórico do museu e de seu entorno urbano.
Fundado em 1985, o M HKA é o mais antigo museu dedicado à arte contemporânea na Bélgica e se tornou o foco de uma reforma mais ampla da política museológica regional. Esta reforma é apresentada pelo governo como uma forma de criar uma “distribuição mais lógica” das coleções públicas e ampliar a cooperação entre as instituições.
O Futuro do M HKA e a Reorganização Museológica
A partir de 2026, a instituição em Ghent passará a se chamar Museu Flamengo de Arte Contemporânea e Atual, consolidando o novo modelo proposto. O M HKA, por sua vez, será transformado em um centro de artes sem coleção própria, focando em exposições temporárias, residências artísticas e programas educativos. Esta reestruturação altera fundamentalmente a natureza da instituição.
A reação interna à decisão governamental foi imediata e drástica. Um dia após o anúncio oficial, Herman De Bode, presidente do conselho do M HKA por oito anos, renunciou ao cargo em protesto. Ele expressou sua indignação à revista Art Dependence, afirmando: “Decapitar o M HKA sem qualquer participação de quem está aqui é criminoso”.
De Bode reiterou a importância da ligação entre o museu e sua cidade, enfatizando que “você pode mudar obras de lugar, mas não exporta a vanguarda. Ela é da Antuérpia”. A polêmica em torno da retirada de obras de museu e a redefinição de papéis institucionais continuam a ser um ponto de grande debate no cenário cultural belga.