O corpo do adolescente Deivison Rocha Dantas, de 13 anos, foi sepultado nesta sexta-feira (30), um dia após ele ser vítima de um ataque fatal de tubarão na orla de Olinda, na Região Metropolitana do Recife. O jovem, que chegou sem vida ao serviço médico, teve sua morte confirmada em um incidente que chocou a população local e reacendeu o debate sobre a segurança nas praias pernambucanas.
As investigações preliminares, conduzidas pelo Comitê Estadual de Monitoramento de Incidentes com Tubarões (Cemit), apontam para o tubarão-cabeça-chata (Carcharhinus leucas) como a provável espécie responsável pelo ataque. Esta identificação se baseia em características específicas da mordida e no comportamento ambiental conhecido do animal, que tem grande afinidade com áreas costeiras e estuarinas.
O trágico episódio não apenas reforça a necessidade de conscientização sobre os riscos, mas também impulsionou o governo de Pernambuco a retomar o monitoramento de tubarões no litoral do estado. A iniciativa, que havia sido interrompida em 2015, agora prevê um investimento significativo e o uso de tecnologia avançada, como microchips, para acompanhar os animais e buscar maior segurança para os banhistas e praticantes de atividades náuticas, conforme informações divulgadas pelo Cemit.
Detalhes do Ataque e a Hipótese do Tubarão-Cabeça-Chata
O ataque que vitimou Deivison Rocha Dantas ocorreu em Olinda, uma das cidades do litoral pernambucano que se insere em uma área de atenção devido à alta incidência de tubarões. A lesão fatal, localizada na coxa direita do adolescente, apresentava um diâmetro de 33 centímetros, um dado crucial para a análise realizada pelos especialistas do Cemit.
Segundo o comitê, o padrão da mordida é “compatível com uma dentição do tipo ‘garfo/faca’”. Essa descrição técnica é fundamental para a identificação da espécie, pois tal tipo de dentição é uma característica distintiva de tubarões do gênero Carcharhinus, do qual o tubarão-cabeça-chata faz parte. A morfologia dos dentes, adaptada para cortar e perfurar, alinha-se perfeitamente com a natureza da lesão observada na vítima.
Além da análise da mordida, as “peculiaridades ambientais da área” onde ocorreu o incidente reforçam a hipótese do tubarão-cabeça-chata. A região de Olinda, próxima a estuários e à desembocadura de rios, é um habitat preferencial para essa espécie. O Carcharhinus leucas é conhecido por sua elevada afinidade com ambientes costeiros, estuarinos e de influência fluvial, o que o diferencia de outras espécies de tubarões que preferem águas mais oceânicas e salgadas. Essa combinação de fatores – padrão da mordida e ambiente do ataque – consolida a conclusão do Cemit sobre a provável identidade do animal.
Por Que o Tubarão-Cabeça-Chata é Tão Comum na Região?
A presença e a frequência do tubarão-cabeça-chata (Carcharhinus leucas) no litoral de Pernambuco, especialmente em áreas como Olinda, não são coincidências. Essa espécie possui características biológicas e comportamentais que a tornam particularmente adaptada aos ambientes encontrados na costa pernambucana, contribuindo para o maior risco de incidentes.
Uma das principais razões é a sua notável tolerância a diferentes salinidades. O tubarão-cabeça-chata é uma das poucas espécies de tubarão que consegue sobreviver e prosperar tanto em águas salgadas do oceano quanto em águas doces de rios e estuários. Essa capacidade, conhecida como eurihalinidade, permite que ele transite entre o mar e as desembocaduras de rios, áreas frequentemente utilizadas para reprodução e busca de alimento. O litoral do Grande Recife é marcado por uma série de estuários e rios que deságuam no oceano, criando um ecossistema ideal para o Carcharhinus leucas.
Esses ambientes costeiros e estuarinos são ricos em biodiversidade, servindo como berçários para diversas espécies de peixes e crustáceos, que constituem a dieta principal do tubarão-cabeça-chata. A presença abundante de presas atrai esses predadores para mais perto da costa, aumentando a probabilidade de encontros com humanos, especialmente em períodos de maré alta ou quando há maior movimentação de cardumes.
Além disso, a espécie é conhecida por ser territorial e agressiva, o que, combinado com seu tamanho considerável – podendo atingir mais de 3 metros de comprimento – e sua potente mandíbula, faz dela um predador formidável. A proximidade desses tubarões com áreas frequentadas por banhistas e a sua adaptabilidade a ambientes rasos e turvos, comuns em estuários, são fatores que contribuem para a preocupante estatística de incidentes na região.
Histórico de Incidentes em Pernambuco: Uma Preocupação Recorrente
O ataque fatal em Olinda não é um caso isolado, mas sim parte de um histórico preocupante de incidentes com tubarões em Pernambuco. Desde 1992, o Comitê Estadual de Monitoramento de Incidentes com Tubarões (Cemit) registrou um total de 82 ocorrências no estado, demonstrando uma recorrência que exige atenção contínua das autoridades e da população.
A maior parte desses incidentes, 67 para ser exato, concentrou-se no litoral continental, com especial incidência na Região Metropolitana do Recife. Essa concentração geográfica reforça a ideia de que fatores ambientais específicos da área, como a presença de estuários e rios, aliados à intensa ocupação humana e ao uso recreativo das praias, criam um cenário de maior risco.
Embora em menor número, 14 ocorrências foram registradas no Arquipélago de Fernando de Noronha, um ecossistema com características distintas e que também demanda monitoramento. A disparidade nos números entre o continente e o arquipélago sublinha a particularidade dos riscos associados à costa metropolitana, onde a interação entre o ambiente natural e as atividades humanas é mais intensa.
Um trecho específico de 33 quilômetros de praia no Grande Recife é considerado pelo Cemit como uma “área de atenção” com maior probabilidade de incidentes. Esta faixa vai dos coqueirais da Praia do Paiva, no Cabo de Santo Agostinho, até a Praia do Farol, em Olinda, englobando algumas das praias mais populares e movimentadas da capital e cidades vizinhas. A delimitação dessa área é crucial para direcionar as ações de prevenção e monitoramento, visando proteger tanto os moradores quanto os turistas que frequentam a região.
Áreas de Risco e a Polêmica dos Decretos de Proibição
A gestão do risco de ataques de tubarões em Pernambuco envolve uma complexa rede de regulamentações e sinalizações, que, por vezes, geram dúvidas e discussões entre a população. O trecho de 33 quilômetros de praia no Grande Recife, identificado como prioritário pelo Cemit, é alvo de um decreto estadual que estabelece proibições e diretrizes específicas.
Este decreto estadual proíbe expressamente a prática de atividades náuticas, como surf, bodyboard, mergulho e outros esportes aquáticos, dentro dessa faixa de 33 quilômetros. A medida visa reduzir a exposição humana em situações que aumentam o risco de encontros com tubarões, especialmente em águas mais profundas ou em condições que dificultam a visibilidade dos animais. No entanto, é importante ressaltar que o mesmo decreto não proíbe o banho de mar, o que levanta questionamentos sobre a efetividade da proteção para os banhistas.
A única exceção a essa regra geral é um trecho de 2,2 quilômetros da Praia de Piedade, no município de Jaboatão dos Guararapes. Entre a Igrejinha de Piedade e o Hotel Barramares, localizado ao lado do Hospital da Aeronáutica do Recife, o banho de mar é legalmente proibido por um decreto municipal. Essa proibição específica reflete a alta periculosidade daquela área em particular, que historicamente registrou um número elevado de incidentes.
Para tentar mitigar os riscos e informar a população, o Cemit informou que existem 150 placas de sinalização instaladas ao longo do litoral de Pernambuco, alertando sobre a área sujeita a incidentes com tubarões. Desse total, 13 placas estão localizadas em Olinda, e 4 delas, especificamente, na Praia de Del Chifre, onde o ataque ao adolescente Deivison Rocha Dantas ocorreu. A presença dessas placas é um esforço contínuo para conscientizar banhistas e visitantes sobre os perigos e a necessidade de seguir as recomendações de segurança.
Governo Retoma Monitoramento de Tubarões Após Sete Anos
Diante do recente incidente fatal em Olinda e do histórico de ataques, o governo de Pernambuco agiu para retomar uma iniciativa crucial: o monitoramento de tubarões no litoral do estado. Interrompido desde 2015, o programa de acompanhamento dos animais é visto como uma ferramenta essencial para entender melhor o comportamento das espécies, identificar padrões de risco e, consequentemente, aprimorar as estratégias de prevenção e segurança.
No início do mês, foi divulgado um edital para a contratação de serviços de monitoramento, sinalizando o compromisso do estado em investir na segurança de suas praias. O projeto prevê a utilização de tecnologia avançada, como o uso de microchips para marcar os tubarões. Esses dispositivos permitirão o rastreamento dos animais, fornecendo dados valiosos sobre seus deslocamentos, áreas de alimentação e reprodução, e sua interação com o ambiente costeiro.
O foco principal das ações de monitoramento será o trecho prioritário de aproximadamente 33 quilômetros de praias, já estabelecido pelo Decreto Estadual 21.402/1999 e pelo Decreto Municipal nº 79/2021. Essa área, que se estende do Cabo de Santo Agostinho a Olinda, é a de maior preocupação devido ao histórico de incidentes. Contudo, o edital também prevê a possibilidade de inclusão de outras áreas do litoral pernambucano e zonas de transição costeira, garantindo uma abordagem abrangente.
O investimento previsto para o programa de monitoramento é de até R$ 1.052.000,00, com duração de 24 meses. Esse recurso será fundamental para custear a pesquisa, a aquisição de equipamentos, a mão de obra especializada e a manutenção das atividades ao longo de dois anos, permitindo a coleta de dados consistentes e a elaboração de análises aprofundadas. Atualmente, um monitoramento similar já é realizado pela Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) no Arquipélago de Fernando de Noronha, com o apoio do Governo de Pernambuco, da administração da ilha, do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMbio) e da Econoronha, demonstrando a expertise já existente no estado.
O Que Muda na Prática Para Banhistas e Autoridades?
A retomada do monitoramento e a recente fatalidade em Olinda trazem consigo uma série de implicações práticas tanto para os banhistas quanto para as autoridades encarregadas da segurança pública e ambiental em Pernambuco. A primeira e mais imediata mudança é um reforço na atenção e na conscientização sobre os riscos inerentes à presença de tubarões em determinadas áreas do litoral.
Para os banhistas, a principal mudança deve ser uma maior vigilância e o estrito cumprimento das recomendações e proibições. A presença de placas de sinalização, especialmente nas praias de maior risco, como Del Chifre, deve ser levada a sério. Evitar o banho em áreas de estuário, em horários de maré alta ou em águas turvas, e abster-se de entrar no mar com ferimentos abertos, são práticas essenciais que podem salvar vidas. A informação sobre o tubarão-cabeça-chata e suas preferências ambientais deve servir de guia para decisões mais seguras.
Para as autoridades, o novo edital de monitoramento representa um passo significativo na direção de uma gestão mais proativa dos riscos. Com dados mais precisos sobre a movimentação dos tubarões, será possível aprimorar os sistemas de alerta, talvez até com o uso de tecnologias em tempo real, e ajustar as áreas de proibição ou recomendação. A colaboração entre o Cemit, o governo estadual e instituições de pesquisa, como a UFRPE, será crucial para que os resultados do monitoramento se traduzam em medidas eficazes de segurança.
O incidente também reacende o debate sobre a fiscalização dos decretos existentes. Se o banho de mar não é proibido em grande parte da área de risco, mas as atividades náuticas sim, é fundamental que haja uma comunicação clara sobre os perigos e uma fiscalização adequada das proibições, especialmente em pontos como a Praia de Piedade. A expectativa é que o investimento no monitoramento e a visibilidade do recente ataque levem a uma revisão e um reforço das políticas de segurança costeira.
A Importância da Conscientização e Prevenção
O ataque fatal em Olinda e a subsequente identificação do tubarão-cabeça-chata como provável agressor reforçam, de maneira trágica, a importância vital da conscientização e das medidas de prevenção no litoral de Pernambuco. A convivência com a vida marinha, incluindo predadores como os tubarões, exige respeito, conhecimento e a adoção de comportamentos seguros por parte de todos que frequentam as praias.
A educação ambiental e a disseminação de informações claras sobre os riscos são pilares fundamentais para evitar novos incidentes. Compreender que o tubarão-cabeça-chata é uma espécie adaptada a ambientes costeiros e estuarinos, e que sua presença é natural nessas áreas, é o primeiro passo para que banhistas e turistas tomem decisões informadas. As placas de sinalização não devem ser vistas como meros avisos, mas como orientações cruciais para a segurança pessoal.
Além da responsabilidade individual, a atuação contínua das autoridades é indispensável. A retomada do monitoramento de tubarões, com o investimento em pesquisa e tecnologia, demonstra um compromisso renovado do governo em entender e mitigar os riscos. Esses esforços, contudo, só serão plenamente eficazes se forem acompanhados de uma comunicação transparente com a população e da aplicação consistente das normas de segurança.
Em última análise, a prevenção de ataques de tubarões é um esforço coletivo. Envolve a ciência para entender os animais, a governança para estabelecer regras e o engajamento da comunidade para seguir essas regras. Somente através de uma abordagem integrada e contínua será possível reduzir a probabilidade de tragédias futuras e garantir que as belas praias de Pernambuco possam ser desfrutadas com a máxima segurança possível, respeitando sempre os limites e a natureza do ecossistema marinho.