Mulheres na ciência: a luta por reconhecimento e igualdade em ambientes acadêmicos
A bióloga estrutural Gabriela Dias Noske, de 28 anos, laureada com o Grande Prêmio Capes de Tese em 2024, compartilhou em entrevista recente as persistentes barreiras que mulheres enfrentam no universo científico. Segundo Noske, a trajetória acadêmica, desde a graduação até a pesquisa de ponta, é marcada por uma necessidade de esforço redobrado para comprovar competência em ambientes onde a presença masculina é predominante.
As experiências relatadas por Gabriela, que atua no Laboratório Nacional de Biorrenováveis (LNBR) do CNPEM, em Campinas (SP), ecoam um sentimento comum entre muitas cientistas brasileiras. A sensação de ter que “trabalhar muito mais” para alcançar o mesmo patamar de reconhecimento que seus colegas homens é um fardo que ela espera ajudar a mitigar no futuro, inclusive em suas próprias futuras contratações.
A pesquisa de Noske se concentra na otimização de fungos para a produção de bioetanol, utilizando técnicas avançadas como a cristalografia de raios X e a criomicroscopia eletrônica, com o auxílio do Sirius, o maior acelerador de partículas do país. A importância de seu trabalho, que busca soluções sustentáveis e aplicações práticas para a indústria, contrasta com as dificuldades de equidade de gênero na academia, conforme informações divulgadas pela própria pesquisadora.
Infância e a vocação precoce para a ciência
Desde a infância, Gabriela Dias Noske demonstrava uma curiosidade insaciável pelo mundo científico. Sua diversão predileta era misturar substâncias de kits de química, e, quando estes acabavam, expandia suas experimentações para os produtos de limpeza da lavanderia, para o desespero dos pais. Essa paixão precoce a guiou para a área de ciências exatas e biomoleculares.
A escolha pela graduação em Ciências Físicas e Biomoleculares na USP de São Carlos, no entanto, a inseriu em um ambiente acadêmico com expressiva sub-representação feminina. “Em uma turma de 18, 20 alunos, só tinha uma, no máximo duas mulheres”, relembra. A cultura masculina predominante se manifestava em comentários e atitudes, como a sugestão de que mulheres teriam mais dificuldade em compreender determinados conceitos, necessitando de explicações adicionais ou de serem direcionadas de forma específica para resolver exercícios no quadro.
Essas primeiras experiências, embora desafiadoras, moldaram a resiliência de Noske. A necessidade de “teimar” e defender suas ideias em meio a opiniões masculinas solidificou sua determinação em seguir carreira na pesquisa científica, buscando áreas que a aproximassem da interseção entre física e biologia.
Da física teórica à biologia estrutural: uma jornada de descobertas
Durante a graduação, Gabriela se viu atraída tanto pela física teórica quanto pela aplicação de seus princípios à biologia. Contudo, percebeu que o currículo do curso tendia a se aprofundar na física pura, o que a motivou a buscar um campo que explorasse mais a interface entre as duas disciplinas. Essa busca a conduziu à biologia estrutural.
A pandemia de COVID-19 apresentou uma oportunidade singular para sua pesquisa de doutorado. Sua tese integrou um projeto focado na identificação de proteases – enzimas que quebram proteínas – com potencial para inibir a ação do Sars-CoV-2. O objetivo era desenvolver potenciais fármacos antivirais. “Foi muito gratificante usar o meu conhecimento para auxiliar a sociedade”, declara, evidenciando o impacto social de suas investigações.
A aplicação de técnicas de ponta como a cristalografia de raios X e a criomicroscopia eletrônica foi fundamental para seu trabalho. Essas metodologias permitiram a análise detalhada da estrutura de proteínas e enzimas em nível molecular, elucidando seus mecanismos de ação e abrindo caminhos para o desenvolvimento de novas terapias e tecnologias.
O papel do Sirius na pesquisa de ponta
Para analisar as intrincadas estruturas moleculares em seu trabalho, Gabriela utiliza uma das linhas de luz do Sirius, o maior acelerador de partículas do Brasil, localizado no Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS), parte do CNPEM. A técnica empregada é a difração de raios X.
O processo envolve a produção de uma proteína de interesse a partir de um gene inserido em uma bactéria, que então sintetiza a cadeia de aminoácidos. Posteriormente, essa proteína é transformada em cristais, congelada em nitrogênio líquido e exposta ao feixe de luz síncrotron do Sirius. “Esse feixe de luz que vai me dar a estrutura exata da proteína e entender seu funcionamento biológico”, explica Noske.
A utilização do Sirius é crucial para obter a resolução necessária para desvendar os detalhes atômicos das proteínas, permitindo compreender como elas interagem e funcionam em sistemas biológicos. Essa capacidade de visualização molecular é um divisor de águas para a descoberta de novos medicamentos, o desenvolvimento de biocombustíveis e a compreensão de doenças.
Desafios persistentes e a busca por equidade de gênero
Apesar do ambiente de pesquisa no CNPEM ser descrito por Gabriela como “muito acolhedor”, ela ressalta que as disparidades de gênero persistem em níveis de liderança. “O que eu percebo, hoje, no entanto, é que a grande maioria dos cargos de liderança ainda são ocupados por homens”, observa.
Essa constatação a leva a afirmar que “parece que as mulheres cientistas têm de trabalhar muito mais e demonstrar mais que são capazes de chegar ao mesmo lugar que um homem alcança”. A pesquisa de Noske, embora focada em biologia estrutural e bioenergia, toca em uma questão social profunda: a necessidade de criar um ambiente acadêmico mais inclusivo e equitativo para as mulheres.
A pressão para provar constantemente sua competência e a necessidade de superar vieses implícitos e explícitos são desafios adicionais que muitas mulheres na ciência enfrentam ao longo de suas carreiras. Essa realidade pode impactar a progressão profissional e o bem-estar das pesquisadoras.
Inspirações e um futuro com mais mulheres na liderança
Na trajetória para se tornar uma cientista de destaque, Gabriela Dias Noske se inspira em figuras históricas que abriram caminhos para as mulheres na ciência. Entre elas, destacam-se Marie Curie, a pioneira física polonesa-francesa, e Rosalind Franklin, a química britânica cuja contribuição para a descoberta da estrutura do DNA foi fundamental.
Essas mulheres, apesar de suas contribuições monumentais, também enfrentaram obstáculos significativos em suas épocas, muitas vezes tendo seu trabalho subestimado ou não plenamente reconhecido. A história delas serve como um lembrete da luta contínua por igualdade e reconhecimento no campo científico.
Ao projetar seu futuro, Gabriela expressa um desejo claro de contribuir para a mudança desse cenário. Quando assumir a coordenação de seu próprio laboratório, ela pretende priorizar a seleção de candidatas mulheres. “Se tiver dois pré-candidatos com as mesmas qualificações e atribuições e um for um homem e o outro mulher, farei essa escolha justamente para dizer à candidata ‘você é capaz e nós podemos fazer o que quisermos’”, afirma com convicção.
A pesquisa em fungos e a produção de bioetanol
Atualmente, a pesquisa de Gabriela Dias Noske se concentra na otimização de um fungo filamentoso conhecido como *Trichoderma reesei*. Este microrganismo é amplamente utilizado na indústria devido à sua capacidade de degradar a celulose, um componente principal da parede celular das plantas.
O trabalho diário de Noske envolve a extração de proteínas desse fungo em seu laboratório. Essas proteínas são componentes essenciais para a produção de coquetéis enzimáticos, que, por sua vez, são utilizados na fabricação de bioetanol. O objetivo principal é compreender a estrutura das enzimas produzidas pelo fungo para aprimorar o processo de quebra de carboidratos vegetais, tornando a produção de bioetanol mais eficiente e sustentável.
A busca por otimização envolve a análise detalhada da cadeia proteica, visando a formação de estruturas mais eficientes na degradação de materiais celulósicos. Essa pesquisa tem um potencial significativo para a indústria de biocombustíveis, contribuindo para a transição energética e a redução da dependência de combustíveis fósseis.
A importância da biologia estrutural para aplicações práticas
A biologia estrutural, área na qual Gabriela Dias Noske se destaca, é fundamental para desvendar o funcionamento de moléculas biológicas em nível atômico. Ao determinar a estrutura tridimensional de proteínas, enzimas e outras biomoléculas, os cientistas podem entender como elas interagem com outras substâncias e como realizam suas funções biológicas.
Essa compreensão detalhada é a base para o desenvolvimento de novas drogas, o design de enzimas mais eficientes para processos industriais, a criação de novos materiais e a elucidação dos mecanismos de doenças. A pesquisa de Noske, ao focar na estrutura das enzimas do fungo *Trichoderma reesei*, exemplifica perfeitamente a aplicação prática da biologia estrutural na otimização de processos industriais e na produção de bioenergia.
O emprego de técnicas como a cristalografia de raios X e a criomicroscopia eletrônica, aliadas a ferramentas de análise de dados e modelagem computacional, tem revolucionado a capacidade de “ver” o mundo molecular, abrindo um leque de possibilidades para a ciência e a tecnologia.
O futuro da ciência: um chamado à diversidade e inclusão
A premiação de Gabriela Dias Noske pela Capes não é apenas um reconhecimento de seu mérito individual, mas também um holofote sobre a necessidade urgente de maior diversidade e inclusão na ciência brasileira. A experiência da bióloga em ambientes acadêmicos desafiadores ressalta a importância de políticas e práticas que garantam igualdade de oportunidades para todos, independentemente de gênero.
A intenção de Noske de criar um ambiente de trabalho mais equitativo em seu futuro laboratório é um modelo inspirador. Ao selecionar candidatas mulheres qualificadas, ela busca não apenas corrigir desequilíbrios históricos, mas também afirmar a capacidade e o potencial das mulheres na ciência, fortalecendo a representatividade feminina em posições de liderança e pesquisa.
A jornada de Gabriela Dias Noske, marcada pela excelência acadêmica e pela luta por um espaço mais justo, é um testemunho da força e da resiliência das mulheres na ciência. Sua história incentiva novas gerações de jovens, especialmente meninas, a perseguirem carreiras científicas, sabendo que suas contribuições são valiosas e necessárias para o avanço do conhecimento e para a construção de um futuro mais equitativo.