Mercado de Trabalho em Desaceleração: Brasil Cria 1,28 Milhão de Empregos em 2025
O Brasil registrou a abertura de 1,28 milhão de vagas formais de trabalho ao longo do ano de 2025. Este número representa um saldo positivo significativo, resultante de 26,6 milhões de contratações e 25,3 milhões de demissões em todo o território nacional. Apesar do balanço positivo, o desempenho do mercado de trabalho indica uma clara desaceleração em comparação com anos anteriores, levantando preocupações sobre o ritmo da recuperação econômica do país.
Os dados divulgados pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), por meio do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), nesta quinta-feira (29), revelam que o resultado é 23% inferior ao de 2024, quando o país havia criado cerca de 1,67 milhão de empregos formais. Essa queda acentuada posiciona 2025 como o ano com o pior desempenho consolidado desde 2020, período marcado pela pandemia de Covid-19, que resultou em um saldo negativo de 189 mil vagas.
A análise detalhada dos números aponta para um cenário complexo, onde fatores econômicos e sazonais convergem para moldar a dinâmica do emprego. O ministro do Trabalho, Luiz Marinho, já sinalizou que a manutenção da taxa básica de juros em patamares elevados tem sido um dos principais entraves para um crescimento mais robusto na geração de postos de trabalho, conforme informações divulgadas pelo MTE.
O Impacto da Taxa de Juros Elevada e o Desaquecimento Econômico
Um dos pontos cruciais para entender a desaceleração na criação de empregos formais em 2025, conforme apontado pelo ministro do Trabalho, Luiz Marinho, é o impacto da taxa básica de juros. Atualmente em 15% ao ano, a Selic, taxa básica de juros da economia brasileira, influencia diretamente o custo do crédito para empresas e consumidores. Juros altos encarecem os empréstimos e financiamentos, desestimulando investimentos produtivos por parte das empresas e inibindo o consumo das famílias.
Quando o custo de capital aumenta, as empresas tendem a postergar planos de expansão, modernização ou até mesmo a contratação de novos funcionários. Projetos que seriam viáveis em um cenário de juros mais baixos tornam-se menos atrativos ou inviáveis. Essa cautela empresarial se reflete diretamente na menor demanda por mão de obra, impactando a capacidade do mercado de trabalho de gerar novas vagas em ritmo mais acelerado. O desaquecimento do mercado de trabalho, portanto, é um reflexo direto dessa política monetária restritiva, que visa controlar a inflação, mas que, como efeito colateral, modera o crescimento econômico e a geração de empregos.
A influência dos juros elevados se estende por diversos setores, afetando desde a indústria, que depende de financiamento para suas operações e expansão, até o comércio e serviços, que sentem a retração do poder de compra dos consumidores. A expectativa de que o cenário de juros possa se manter elevado por mais tempo alimenta a cautela entre os empregadores, que preferem manter estruturas mais enxutas ou buscar ganhos de produtividade sem a necessidade de novas contratações, contribuindo para o ritmo mais lento de abertura de vagas observado em 2025.
O Saldo Negativo de Dezembro e os Fatores Sazonais no Mercado de Trabalho
Tradicionalmente, o mês de dezembro costuma apresentar um saldo negativo no Caged, e 2025 não foi diferente, com o registro de um déficit de 618 mil postos de trabalho. Este fenômeno é amplamente atribuído a fatores sazonais que marcam o encerramento do ano. O principal deles é o término dos contratos temporários, que são comumente abertos no comércio e no setor de serviços para atender ao aumento da demanda durante as festas de fim de ano, como Natal e Ano Novo.
Com o fim do período festivo, muitas dessas vagas temporárias são encerradas, resultando em um grande volume de demissões que não são compensadas por novas contratações em outras áreas. Além disso, o final do ano fiscal é um momento em que muitas empresas realizam ajustes em seus orçamentos, encerram projetos e reavaliam suas equipes, o que pode levar a desligamentos para otimização de custos e planejamento para o próximo ciclo. Esses movimentos são esperados e fazem parte da dinâmica anual do mercado de trabalho brasileiro.
Embora o saldo negativo de dezembro seja uma ocorrência comum, a magnitude do número em 2025, somada à desaceleração anual, intensifica a percepção de um mercado de trabalho mais contido. Compreender essa sazonalidade é fundamental para não superestimar a gravidade de um único mês, mas também para contextualizar o desempenho anual e identificar tendências mais amplas que transcendem as flutuações de curto prazo, como a influência dos juros e o desaquecimento geral da economia.
A Contribuição dos Setores: Serviços Lidera a Geração de Empregos
A análise setorial dos dados do Caged para 2025 revela que a criação de empregos formais foi puxada, com folga, pelo setor de serviços. Este segmento foi responsável por expressivos 758,8 mil postos de trabalho, confirmando sua posição como o maior motor de geração de vagas na economia brasileira. A diversidade de atividades incluídas em serviços, que vão desde tecnologia da informação e comunicação até atividades financeiras e imobiliárias, contribui para sua resiliência e capacidade de absorção de mão de obra.
Em seguida, o comércio demonstrou um saldo positivo de 247,1 mil vagas, um resultado importante para um setor que frequentemente é impactado pela confiança do consumidor e pelo cenário econômico geral. A indústria, por sua vez, contribuiu com 144,3 mil novos empregos, evidenciando uma recuperação, ainda que moderada, em segmentos específicos. A construção civil, setor tradicionalmente intensivo em mão de obra, registrou 87,8 mil postos de trabalho, impulsionada por investimentos em infraestrutura e edificações.
Por fim, a agropecuária, apesar de ter o menor saldo entre os cinco principais grupos, com 41,8 mil vagas, manteve sua relevância para o emprego no país, especialmente em regiões agrícolas. A performance de todos esses setores em conjunto é crucial para o balanço final do emprego e reflete a complexidade da estrutura produtiva brasileira. O fato de todos os cinco grupos terem registrado saldo positivo em 2025 é um indicativo de que a geração de empregos foi disseminada, ainda que em ritmos distintos, mostrando uma base ampla para a manutenção dos postos de trabalho.
Análise Detalhada por Grupos de Atividade: Desempenho Setorial Específico
Aprofundando a análise dos dados de 2025, é possível identificar os subgrupos de atividade que mais se destacaram na geração de empregos dentro de cada setor. Na indústria, as contratações foram notavelmente impulsionadas pelos segmentos alimentício e de reparação e instalação de máquinas. O setor alimentício, por ser essencial, demonstra uma demanda constante, enquanto a reparação e instalação de máquinas sugere investimentos em manutenção e modernização de equipamentos, refletindo um certo nível de atividade industrial.
No comércio, o principal destaque foi o setor varejista. Apesar dos desafios econômicos, o varejo continua sendo um grande empregador, com a abertura de lojas, expansão de redes e o dinamismo das vendas, especialmente em períodos de maior consumo. A resiliência do varejo é um termômetro importante da confiança do consumidor e da circulação de bens na economia.
A construção civil teve seu saldo positivo puxado pelas áreas de construção de edifícios e serviços especializados para a construção. Isso indica não apenas a edificação de novas estruturas, sejam residenciais ou comerciais, mas também a demanda por serviços complementares e de acabamento, que são cruciais para a finalização de projetos. No setor de serviços, o avanço foi concentrado nas atividades de informação e comunicação e nas atividades financeiras e imobiliárias. Esses segmentos, muitas vezes ligados à inovação e ao mercado de capitais, demonstram capacidade de crescimento mesmo em cenários de juros mais altos, refletindo a digitalização e a busca por investimentos.
Por fim, no agronegócio, o resultado positivo foi impulsionado, sobretudo, pelos setores de cultivo de laranja e soja. Essas culturas, de grande relevância para a balança comercial brasileira, continuam a demandar mão de obra, seja no plantio, colheita ou processamento, evidenciando a força do setor primário na economia nacional. A diversidade de setores e subgrupos contribuindo para o emprego formal sublinha a complexidade e a multifacetada natureza da economia brasileira, onde diferentes cadeias produtivas reagem de distintas formas aos estímulos e desafios econômicos.
Desempenho Regional: Todos os Estados com Saldo Positivo
Um aspecto positivo e relevante dos dados do Caged para 2025 é que todas as 27 unidades da federação registraram um saldo positivo na criação de empregos formais. Este dado é um indicativo de que a geração de vagas foi um fenômeno disseminado por todo o país, sem concentrações excessivas em poucas regiões, o que contribui para uma distribuição mais equitativa das oportunidades de trabalho e para o desenvolvimento regional.
Entre os estados, São Paulo liderou a criação de empregos com um impressionante saldo de 311 mil postos de trabalho. A pujança econômica do estado, com sua vasta e diversificada base industrial, de serviços e comercial, justifica sua posição de destaque. A capacidade de São Paulo de gerar um grande volume de empregos é fundamental para o desempenho nacional e reflete a densidade de sua atividade econômica.
O Rio de Janeiro também apresentou um desempenho robusto, com 100,9 mil novas vagas, consolidando sua recuperação econômica e a reativação de importantes setores. A Bahia, por sua vez, demonstrou força no Nordeste, com 94 mil postos de trabalho criados, impulsionada por setores como o agronegócio e a indústria. Outros estados também contribuíram significativamente, com saldos positivos que, embora menores em números absolutos, são proporcionalmente importantes para suas economias locais.
A distribuição geográfica dos empregos é um fator crucial para a inclusão social e para a redução das desigualdades regionais. O fato de todas as unidades da federação terem contribuído para o saldo positivo geral, mesmo com a desaceleração nacional, sugere que as economias locais demonstraram certa resiliência, adaptando-se aos desafios e aproveitando as oportunidades específicas de suas regiões, seja no agronegócio, turismo, indústria ou serviços.
Perspectivas para o Mercado de Trabalho e o Cenário Econômico Futuro
O cenário do mercado de trabalho em 2025, com 1,28 milhão de empregos formais e o pior desempenho desde 2020, sinaliza a necessidade de atenção e possíveis ajustes nas políticas econômicas. A influência da taxa básica de juros elevada, destacada pelo Ministério do Trabalho, permanece como um dos principais desafios. Para que haja uma retomada mais vigorosa na criação de vagas, é fundamental que haja um ambiente de crédito mais favorável, que estimule o investimento produtivo e o consumo.
As perspectivas futuras dependem em grande parte da trajetória da inflação e das decisões do Banco Central em relação à Selic. Uma eventual queda gradual dos juros pode desonerar as empresas, incentivando novos projetos e, consequentemente, a contratação. Além disso, a confiança dos investidores e a estabilidade política são elementos cruciais para atrair capital e gerar um ciclo virtuoso de crescimento econômico e empregos. A manutenção de políticas públicas de qualificação profissional também se mostra essencial para que a mão de obra brasileira esteja apta a preencher as vagas que surgirem, especialmente em setores de maior valor agregado.
O governo e o setor privado terão o desafio de encontrar caminhos para reaquecer a economia sem comprometer o controle inflacionário. A diversificação da base produtiva, o incentivo à inovação e a desburocratização podem ser estratégias importantes para fortalecer o mercado de trabalho e garantir que o Brasil consiga reverter a tendência de desaceleração observada em 2025, mirando um crescimento mais robusto e sustentável nos próximos anos. A vigilância sobre os indicadores econômicos e a capacidade de adaptação serão chaves para navegar neste ambiente complexo.
O Caminho para uma Recuperação Sustentável e o Papel das Políticas Públicas
Para além dos números de 2025, o desafio é traçar um caminho que leve a uma recuperação sustentável do mercado de trabalho no Brasil. A desaceleração na criação de vagas, combinada com a influência de fatores como a taxa de juros e a sazonalidade, exige uma abordagem multifacetada que envolva tanto políticas macroeconômicas quanto setoriais. A estabilidade econômica, com inflação controlada e juros em patamares que não estrangulem o investimento, é a base para qualquer crescimento duradouro.
Políticas públicas de incentivo à formalização, desburocratização para abertura de empresas e programas de capacitação e requalificação profissional são fundamentais. O investimento em educação e tecnologia pode preparar a força de trabalho para as demandas de setores em crescimento, como os de informação e comunicação, que já demonstraram dinamismo em 2025. Além disso, a promoção de um ambiente de negócios previsível e seguro é essencial para atrair investimentos estrangeiros e domésticos, que são motores primários da geração de empregos.
A colaboração entre governo, setor privado e sindicatos também desempenha um papel crucial na construção de um mercado de trabalho mais robusto e inclusivo. Diálogos construtivos podem levar a soluções inovadoras para os desafios do emprego, desde a flexibilização de modelos de trabalho até o desenvolvimento de novas cadeias produtivas. A capacidade do Brasil de superar a tendência de desaquecimento e retornar a um ritmo mais acelerado de criação de empregos dependerá da eficácia dessas ações coordenadas e da resiliência de sua economia frente aos desafios globais e internos.