Por que a crescente influência chinesa no Brasil acendeu um alerta no Congresso dos EUA e redefiniu a percepção estratégica global

Em dezembro último, um evento de grande relevância passou praticamente despercebido pela mídia brasileira: o Congresso dos Estados Unidos aprovou o Intelligence Authorization Act for Fiscal Year 2026 (IAA 2026).

Sancionado nos primeiros dias de 2026, esse ato legal não apenas define orçamentos, mas estabelece prioridades estratégicas e diretrizes para a Comunidade de Inteligência norte-americana, coordenando agências como CIA, NSA e DIA.

Diferente de comunicados diplomáticos, essa legislação reflete avaliações consolidadas do establishment de segurança nacional dos EUA sobre ameaças e riscos globais. E, pela primeira vez de forma tão explícita, o Brasil é citado nominalmente. Conforme análise de Marcos Degaut, doutor em Segurança Internacional e ex-secretário especial adjunto de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, essa inclusão marca uma inflexão histórica na forma como Washington enxerga o país.

Brasil no Radar da Inteligência Americana

A Seção 514 do IAA 2026 determina que o diretor de Inteligência Nacional, em coordenação com os Departamentos de Estado e Agricultura, produza um relatório detalhado. O foco é a extensão e os efeitos da presença chinesa no setor agrícola brasileiro e atividades correlatas.

O documento deve examinar o número de empresas chinesas, a natureza dos investimentos e a interação entre autoridades chinesas e atores brasileiros, incluindo políticos. O objetivo é analisar os impactos dessas atividades sobre as cadeias globais de suprimento e a segurança alimentar internacional.

O prazo de 180 dias para a apresentação do relatório, em versão não classificada, indica que não se trata de um estudo acadêmico. É uma demanda de inteligência com cronograma claro, voltada a subsidiar decisões políticas concretas no curto prazo.

Washington está preparando insumos, o que chamam de Actionable Intelligence, para uma ação estratégica. O Brasil não figura com frequência em leis de inteligência americanas, muito menos como objeto de escrutínio ligado à rivalidade entre grandes potências.

Países tradicionalmente citados são considerados adversários diretos ou regimes hostis, como China, Rússia, Irã, Coreia do Norte, Venezuela e Cuba, os mesmos mencionados no IAA 2026. A inclusão do Brasil, ainda que em seção distinta, sinaliza uma mudança qualitativa na percepção estratégica global de Washington.

Brasília deixa de ser enxergada como região periférica e passa a ser vista como variável relevante na rivalidade sistêmica entre grandes potências. Não como inimigo, mas como elemento funcional de disputa geoeconômica e geopolítica, o que expõe o país a um risco estratégico.

O Agronegócio Brasileiro como Ativo Estratégico Global

Essa reavaliação americana não é casual. Ela ocorre em um momento de transição histórica, onde a economia política internacional é progressivamente absorvida pela lógica da geopolítica. Alimentos, energia, infraestrutura, tecnologia e indústria tornaram-se instrumentos de poder estratégico.

A segurança alimentar, em especial, emerge como prioridade central após choques globais recentes, como a pandemia e a guerra na Ucrânia. Controlar fluxos alimentares significa mitigar riscos internos, estabilizar preços e reduzir vulnerabilidades políticas.

Nesse cenário, o Brasil ocupa uma posição singular. É o segundo maior exportador global de alimentos, atrás apenas dos Estados Unidos, com potencial para ultrapassar esse montante. O país possui território, água, clima e capacidade produtiva incomparáveis.

Aos olhos de Washington, entretanto, o agronegócio brasileiro passou a ser compreendido como um ativo estratégico da segurança alimentar chinesa. A China deixou de ser apenas um parceiro comercial, tornando-se um agente estruturante de cadeias críticas, alimentares, logísticas, industriais e políticas, em um país-chave do hemisfério ocidental.

A preocupação americana não se limita à compra de bens do agronegócio brasileiro. Ela reside na capacidade chinesa de organizar ecossistemas inteiros de produção, escoamento e processamento, transformando o comércio em uma dependência estrutural. O Brasil, nessa percepção, exporta volumes massivos de grãos e proteínas a partir de uma estrutura produtiva cada vez mais integrada a interesses estratégicos chineses.

O IAA 2026 reconhece o agronegócio brasileiro como uma questão de inteligência, e não apenas de mercado. Para Washington, a integração profunda à estratégia chinesa pode alterar equilíbrios globais de poder. A relação Brasília-Pequim não pode mais ser analisada apenas em termos de comércio exterior, mas como uma relação de dependência estrutural com profundas implicações geopolíticas.

A Teia de Influência Chinesa: Além do Agronegócio

O foco da investigação americana não se restringe à compra de soja ou carne. Abrange a arquitetura que sustenta essa produção: financiamento, logística, armazenamento, infraestrutura energética, processamento industrial e integração com mercados externos. A China se converteu em organizadora funcional de ecossistemas econômicos inteiros, movimento que se estende da agricultura à infraestrutura e à indústria.

Essa realidade decorre de um movimento mais amplo da China de transformar suas relações comerciais em uma presença estratégica duradoura em diferentes regiões do mundo. No caso brasileiro, isso se materializa na presença chinesa em setores que moldam o tecido econômico e político do país.

Empresas chinesas controlam parcelas significativas da geração, transmissão e distribuição de energia elétrica, com 10%, 12% e 12%, respectivamente. Elas participam de grandes projetos hidrelétricos e investem em portos, ferrovias e corredores logísticos diretamente conectados ao escoamento de commodities.

Essa expansão se apoia em mecanismos financeiros bilaterais, como o China-Brazil Fund, criado com capital de cerca de US$ 20 bilhões para financiar infraestrutura e projetos industriais conjuntos. O alcance desses investimentos reduz gargalos históricos, mas também cria mosaicos de dependência funcional.

Paralelamente, consolidam uma presença crescente na indústria nacional, sobretudo em setores estratégicos. Isso inclui veículos elétricos, baterias, telecomunicações, equipamentos industriais, mineração e manufatura de alta tecnologia. Esse processo espelha uma tendência continental: a estratégia da China na América Latina está mudando de grandes empréstimos para envolvimento mais direcionado em setores estratégicos e tecnológicos.

Essa presença industrial reconfigura cadeias produtivas, pressiona a indústria local, amplia a dependência tecnológica e desloca concorrentes tradicionais. A consequência é uma estrutura produtiva cada vez mais integrada a insumos, capital e tecnologia chineses, com reduzida capacidade de substituição no curto e médio prazo. É uma dependência que não se expressa apenas em números de comércio exterior, mas em perda gradual de autonomia estratégica.

A entrada massiva de bens manufaturados chineses no mercado brasileiro também tem acelerado processos de desindustrialização em setores tradicionais. A competitividade de importações com baixo preço e alto volume, financiadas por bancos estatais chineses, desloca indústrias nacionais que não conseguem competir em escala. Esse fenômeno representa uma transformação estrutural na base produtiva brasileira.

Implicações Políticas e o Paradoxo da Autonomia

O impacto dessa relação transborda a economia e alcança o campo político. A política externa brasileira, sob a capa da multipolaridade e da autonomia estratégica, passou a adotar posições que convergem com interesses chineses em temas sensíveis. Isso inclui a desdolarização, a relativização de críticas a regimes autoritários, alinhamentos em fóruns multilaterais e uma retórica de contestação à ordem liberal.

Esse movimento não decorre necessariamente de coerção direta, mas de incentivos estruturais. Setores econômicos dependentes do mercado chinês passam a influenciar o debate político e as escolhas diplomáticas do Estado brasileiro. Uma manifestação contundente do ativismo diplomático chinês no Brasil ocorreu no governo do Presidente Jair Bolsonaro (2019-2022).

Naquela ocasião, a combinação de dependência brasileira e influência chinesa em setores estratégicos da economia conferiu liberdade para que o então embaixador da China em Brasília, Yang Wanming, se engajasse em um bate-boca virtual com o então Presidente da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional (CREDN) da Câmara dos Deputados, Deputado Federal Eduardo Bolsonaro.

Tal comportamento, incompatível com a prática diplomática, teria ensejado advertência do Itamaraty, ou até mesmo a declaração do embaixador como persona non grata, não fosse o leverage chinês sobre importantes domínios econômicos e o lobby multifrontal realizado por Pequim junto ao Legislativo brasileiro.

Do ponto de vista americano, esse quadro gera preocupação por razões estratégicas. O temor não é que o Brasil “escolha a China”, mas que a profundidade da dependência econômica limite a capacidade brasileira de agir de forma autônoma em um cenário de rivalidade sistêmica. Infraestrutura crítica sob influência estrangeira, cadeias alimentares concentradas e integração industrial assimétrica transformam decisões domésticas em fatores de interesse direto para a segurança internacional.

É por isso que o IAA 2026 representa uma inflexão na relação Brasil-EUA. Ele sinaliza que Washington passa a observar o Brasil não apenas como ator sub-regional, mas como variável relevante no equilíbrio global de poder, sujeito a monitoramento estratégico.

Essa mudança tende a afetar a cooperação tecnológica, o diálogo em segurança, os investimentos e até o grau de tolerância americano à tradicional ambiguidade diplomática brasileira. O paradoxo central é que, ao buscar afirmar autonomia por meio de um alinhamento cada vez mais profundo com a China, o Brasil pode estar reduzindo exatamente aquilo que pretende preservar: sua liberdade estratégica.

A autonomia não se constrói pela substituição de uma dependência por outra. Ela é alcançada pela diversificação real, pelo desenvolvimento da base industrial e tecnológica nacional, pela superação de gargalos logísticos e infraestruturais, e pelo controle soberano de ativos críticos. Além disso, demanda o desenvolvimento humano e social e o fortalecimento de recursos de poder, incluindo militares, econômicos e diplomáticos, dentre outras dimensões do poder nacional, tão fragilizadas, conforme Marcos Degaut.

A inserção do Brasil no IAA 2026 não é um gesto hostil, mas um alerta externo sobre uma vulnerabilidade interna. Em um mundo marcado pela rivalidade entre grandes potências, países com peso estrutural não são ignorados, mas disputados. A questão central é se o Brasil pretende continuar sendo apenas objeto dessa disputa, ou se será capaz de formular uma estratégia própria, consciente dos riscos, custos e limites de um alinhamento assimétrico que hoje se apresenta como pragmatismo, mas amanhã pode se revelar como constrangimento estratégico.

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