Ameaças de sanções comerciais por parte dos Estados Unidos voltaram a pautar as relações internacionais, colocando o Brasil em uma posição delicada. O ex-presidente Donald Trump, em declaração na segunda-feira (12), afirmou que aplicará uma tarifa de 25% sobre todas as transações comerciais com os EUA para “qualquer país que faça negócios com a República Islâmica do Irã”.
Essa medida, descrita como “final e irrecorrível” por Trump, foi uma resposta à repressão do regime teocrático iraniano contra manifestantes. Diante desse cenário, o governo americano chegou a orientar seus cidadãos a deixar o país persa.
A possível concretização dessa ameaça coloca o Brasil no centro das discussões, dada a relevância do Irã como parceiro comercial, especialmente para o agronegócio. Conforme informações divulgadas na fonte de conteúdo, o governo brasileiro já monitora a situação com atenção.
Detalhes da Ameaça e Impactos Potenciais
Caso a tarifa de 25% seja efetivamente aplicada de forma linear sobre todas as exportações brasileiras para os Estados Unidos, o Brasil seria um dos países diretamente impactados. Sara Paixão, analista de macroeconomia do InvestSmartXP, confirma que o país estaria entre os afetados.
No entanto, a analista ressalta a dificuldade em estimar os impactos exatos. Isso se deve à incerteza sobre possíveis exceções à sobretaxa, que poderiam ser aplicadas por produto ou setor, como já ocorreu em tarifas anteriores impostas ao Brasil.
Em experiências passadas, uma ampla gama de produtos foi retirada das sobretaxas ao longo do tempo. Atualmente, por exemplo, uma tarifa de 10% mais uma adicional de 40% é aplicada, mas os 50% integrais são aplicados a poucos produtos.
Se a ameaça de Trump se concretizar de forma abrangente, os setores brasileiros mais expostos seriam os de petróleo, ferro e aço, carne, café e suco de laranja. Commodities, segundo Paixão, têm maior facilidade de realocação para outros mercados, ao contrário de produtos industriais. O setor aeroespacial, por exemplo, seria potencialmente mais impactado devido à maior dificuldade em realocar esse tipo de produto.
A Relevância do Irã para o Agronegócio Brasileiro
A preocupação brasileira com as sanções se justifica pela importância do Irã como parceiro comercial. Além de ambos integrarem o Brics, o Irã representa um mercado crucial para o agronegócio brasileiro, setor que corresponde a 99% das exportações para o país persa.
Em 2025, o Irã importou US$ 2,92 bilhões do agronegócio do Brasil, posicionando-se como o 11º maior destino de acordo com o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), que considera o bloco da União Europeia como um único parceiro.
O milho é o principal item exportado pelo Brasil para o mercado iraniano. No ano passado, o Irã investiu US$ 1,98 bilhão na compra do cereal brasileiro, o que corresponde a 23,1% de todas as vendas externas da commodity do Brasil.
Apesar da relevância, Sara Paixão avalia que um possível embargo ao Irã não impactaria significativamente a economia brasileira como um todo. Ela argumenta que, embora importante, o Irã não ocupa um espaço tão grande nas exportações gerais do Brasil. Além disso, os principais produtos exportados são commodities, que podem ser redirecionadas para outros mercados, assim como ocorre com os Estados Unidos.
A Dependência Brasileira por Fertilizantes Iranianos
O comércio bilateral entre Brasil e Irã é bastante vantajoso para o lado brasileiro, com um superávit comercial de US$ 2,83 bilhões em 2025. As vendas iranianas para o Brasil nesse período somaram apenas US$ 84,6 milhões.
A ureia, fertilizante à base de nitrogênio essencial para a agricultura, representa 79% das importações brasileiras do Irã, um dos principais produtores mundiais. Em 2025, o país persa forneceu 184,7 mil toneladas do produto ao mercado brasileiro.
Devido a sanções econômicas, parte da produção iraniana é escoada por Omã e, por isso, registrada como originária do segundo país. As exportações omanenses de ureia para o Brasil em 2025 totalizaram 1,2 milhão de toneladas e US$ 452,9 milhões em valor total.
As consequências da potencial tarifa de 25% imposta pelos Estados Unidos ainda são incertas no mercado de ureia, conforme Renata Cardarelli, especialista em grãos e fertilizantes da consultoria Argus. Fornecedores de ureia da Rússia e do Oriente Médio têm pouca clareza sobre se as entregas aos Estados Unidos terão custos adicionais.
Produtores de ureia aguardam um posicionamento oficial dos Estados Unidos, com a maioria afirmando ser cedo para emitir qualquer opinião sobre os comentários de Trump. A ameaça é particularmente relevante para os fertilizantes nitrogenados russos, como ureia e nitrato de amônio e ureia (UAN), que atualmente não têm taxas de importação nos EUA.
Curiosamente, caso os Estados Unidos sancionem as importações da Rússia por negócios com o Irã, uma das consequências indiretas seria um aumento da oferta de ureia de origem russa para o Brasil. Isso poderia reduzir a dependência do mercado brasileiro do fertilizante iraniano, pois um eventual aumento dos preços da ureia russa para os Estados Unidos pode fazer com que essa origem redirecione suas cargas para outros compradores, como o Brasil.
Reação do Governo Brasileiro e Cenário Diplomático
O governo brasileiro passou a monitorar com atenção a ameaça de Trump de impor uma tarifa adicional a países que mantêm relações comerciais com o Irã. Segundo informações da CNN Brasil, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva orientou sua equipe a evitar reações precipitadas e priorizar canais diplomáticos.
Caso a ameaça avance, o presidente brasileiro não descartaria um contato direto com Trump. O objetivo seria explicar que a relação entre Brasil e Irã é predominantemente comercial e voltada à segurança alimentar, sem envolvimento de produtos bélicos ou estratégicos.
Nesta terça-feira, por meio de nota oficial, o governo brasileiro afirmou acompanhar “com preocupação” a evolução das manifestações que ocorrem em diversas localidades do Irã, que já teriam deixado cerca de 2 mil mortos devido à repressão do regime teocrático. Sem mencionar a ameaça de intervenção militar feita pelos Estados Unidos, o texto defende que os iranianos decidam “de maneira soberana” sobre seu futuro.
O comunicado do governo brasileiro lamenta as mortes e transmite condolências às famílias afetadas. Ao sublinhar que cabe apenas aos iranianos decidir, de maneira soberana, sobre o futuro de seu país, o Brasil insta todos os atores a se engajarem em diálogo pacífico, substantivo e construtivo.