Crianças pequenas possuem uma habilidade notável de expandir seu vocabulário simplesmente ao ouvir conversas ao seu redor. Elas observam o olhar dos falantes, captam sinais comunicativos e extraem palavras-chave, aprendendo nomes de objetos a partir dos 18 meses de idade.
Agora, uma nova pesquisa sugere que alguns cães inteligentes, classificados como superdotados, podem adquirir novas palavras de uma maneira muito similar, apenas pela escuta passiva das interações humanas, sem que a comunicação seja diretamente direcionada a eles.
Este estudo inovador, publicado na revista Science na última quinta-feira (8), detalha como esses animais talentosos demonstram uma profundidade de compreensão das interações humanas que desafia as expectativas, conforme informações divulgadas.
Como os Cães Superdotados Foram Identificados e Avaliados
Pesquisadores da Universidade Eötvös Loránd (ELTE), na Hungria, buscaram cães que já demonstravam uma aptidão extraordinária para aprender nomes de brinquedos. Esses animais foram identificados por seus tutores, que entraram em contato com a equipe após verem anúncios ou publicações em redes sociais, acreditando que seus pets conheciam os nomes dos objetos.
Para o estudo inicial, os tutores de 10 desses cães superdotados apresentaram dois novos brinquedos e repetiram seus nomes durante interações diretas com os pets. Essas sessões duraram apenas um minuto cada, distribuídas ao longo de vários dias.
Os resultados foram impressionantes: a pesquisadora cognitiva e treinadora de animais Shany Dror, que liderou o estudo, afirmou à CNN que “oito minutos foram suficientes para os cães aprenderem o nome de dois novos brinquedos”. Sete dos 10 cães conseguiram identificar e buscar corretamente os novos objetos quando solicitados, demonstrando uma rápida capacidade de associação.
O Experimento da “Escuta Casual” e a Surpreendente Descoberta
O ponto crucial da pesquisa veio com o experimento de “escuta casual”. Os tutores e cães foram submetidos a condições em que os humanos conversavam entre si, incluindo os nomes dos novos brinquedos em suas frases e passando os objetos uns aos outros.
No entanto, os tutores não podiam olhar ou se comunicar diretamente com os cães, e os animais não tinham permissão para interagir com eles ou com os brinquedos. Para garantir isso, os cães permaneciam atrás de um portão de segurança, em uma cama ou berço canino, observando a cena.
Mesmo nessas condições de observação passiva, sete dos 10 cães conseguiram identificar e buscar os novos brinquedos corretamente quando testados. Curiosamente, seis desses cães eram os mesmos que tiveram sucesso no experimento de interação direta.
Os pesquisadores concluíram que cães talentosos “podem aprender rótulos de novos objetos ao ouvir interações, de maneira funcionalmente semelhante” às crianças pequenas, o que representa um avanço significativo na compreensão da cognição canina.
Profundidade da Compreensão Canina e Implicações Evolutivas
Intrigados, os cientistas realizaram um terceiro experimento para verificar se os cães utilizavam pistas sociais, como os bebês, para aprender. Desta vez, os tutores falavam o nome do brinquedo em frases apenas depois de colocá-lo em um balde, fora da vista do animal.
Mesmo sem o objeto visível durante a menção do nome, a maioria dos cães identificou corretamente os novos brinquedos. Mais surpreendente ainda, eles se lembravam dos nomes dos objetos duas semanas depois.
Shany Dror ressaltou a flexibilidade cognitiva desses animais, afirmando que “isso nos mostra a profundidade de quanto esses cães são capazes de compreender nossas interações humanas”. As descobertas sugerem que as complexas habilidades cognitivas e sociais que auxiliam humanos no aprendizado pela escuta provavelmente “evoluíram antes da linguagem, e é por isso que os cães também conseguem fazer isso”.
Durante o processo de domesticação, “os cães que eram os melhores em se comunicar com humanos e em entender humanos foram os que se reproduziram”, explicou Dror. Essa seleção resultou na capacidade que vemos hoje, onde alguns cães são tão hábeis em compreender a comunicação humana que aprendem passivamente, apenas observando.
Diferenças entre Cães Talentosos e Típicos
É crucial notar que esses resultados não devem ser generalizados para a população canina em geral. Os pesquisadores conduziram um experimento similar de “escuta” com 10 Border Collies que não haviam demonstrado anteriormente a capacidade de aprender nomes de objetos, e descobriram que cães domésticos típicos não aprendem novas palavras como os cães superdotados.
A equipe de Dror trabalha com esse grupo de “cães muito especiais que conhecem nomes de brinquedos” há vários anos. Conhecidos como “Aprendizes Dotados de Palavras”, estudos anteriores indicam que esses animais aprendem nomes de brinquedos após ouvi-los apenas quatro vezes, podendo assimilar até 12 ou mais novos brinquedos por semana e reter seus nomes por mais de dois anos.
Embora muitos dos cães dotados sejam Border Collies, essa habilidade ainda é “muito rara”, conforme Dror. Outras raças que participaram do estudo incluíam Pastor Alemão, Labrador Retriever, Pastor Australiano Miniatura e um mestiço de Blue Heeler com Pastor Australiano.
Juliane Bräuer, psicóloga comparativa da Universidade Friedrich Schiller Jena, na Alemanha, comentou à CNN que, embora seja interessante, as descobertas não são totalmente surpreendentes, pois habilidades semelhantes já foram documentadas em bonobos e em um papagaio-cinzento africano, embora este último tenha envolvido algum ensino direto.
Um estudo anterior já havia demonstrado que cães domésticos podiam reconhecer palavras de comando, como “senta” e “deita”, em conversas não direcionadas a eles. No entanto, a capacidade de aprender espontaneamente nomes de objetos apenas ouvindo conversas era um território inexplorado até agora.
Os cientistas ainda buscam entender por que certos cães possuem essa habilidade especial. Dror compara a situação a uma bicicleta e um carro: “Ambos se movimentam, ambos cumprem essa função, mas o que os impulsiona para frente é muito diferente”, sugerindo que, embora os resultados sejam semelhantes aos das crianças, os mecanismos subjacentes podem ser distintos.