O Festival de Verão Salvador testemunhou uma noite mágica e profunda, com a apresentação de Caetano Veloso, um dos maiores ícones da música brasileira. O artista transformou o palco em um espaço de celebração e reflexão, marcando o primeiro dia do evento.
Com um repertório que atravessou décadas de sua brilhante carreira, Caetano ofereceu ao público uma verdadeira experiência, onde a música serviu como um antídoto potente contra as adversidades da vida. Foi uma festa que não ignorou a realidade, mas a transcendeu.
Acompanhado de seus filhos Zeca e Tom, o baiano demonstrou que a arte tem o poder de curar e unir, em um espetáculo inesquecível para as cerca de 25 mil pessoas presentes, conforme informações apuradas no local.
Um Passeio Musical Pela Carreira de Caetano
Subindo ao palco após Rachel Reis e Ney Matogrosso, Caetano Veloso apresentou o show “Caetano nos Festivais”. Ele revisitou sua vasta discografia, em uma jornada que foi de “Divino, Maravilhoso”, de 1969, até “Um Baiana”, lançada no ano passado.
O público foi embalado por clássicos como “Branquinha”, “Gente” e “Vaca Profana” logo no início da performance. Com seu humor característico, Caetano celebrou a vida e os prazeres, mesmo diante das dificuldades e da caretice, estabelecendo o tom para a noite.
A performance foi uma homenagem à BaianaSystem, com Caetano cantando uma música dedicada à banda. A energia no palco era contagiante, com o artista dançando e interagindo, mostrando sua vitalidade e conexão com a cultura baiana.
Festa e Reflexão: A Dualidade do Show
A proposta de fazer da festa uma cura ficou clara na reta final do show. Caetano interagiu com o percussionista Thiaguinho da Serrinha, pedindo a canção “Desde que o Samba é Samba”, e solicitando “um pouco de alegria neste show em que muitas canções foram de enormes reclamações”.
Essa dualidade foi uma marca constante. Momentos de crítica social se mesclaram com pura celebração. O segmento mais “reclamão”, como ele mesmo definiu, incluiu “Podres Poderes”, com uma introdução que remetia ao rock dos anos 1980.
Em seguida, “Anjos Tronchos” foi executada com um telão exibindo montagens de bilionários das big techs, como Mark Zuckerberg, provocando uma reflexão profunda na plateia. A música de Caetano Veloso provou ser um espelho da sociedade.
Apesar da acidez, a transição para a leveza foi fluida. Canções como “Eclipse Oculto”, uma pérola dos anos 1980, e o hit “Sozinho”, cantado em coro pela maioria do público, mostraram a versatilidade do repertório.
O show ainda contou com a versão arrastada de “Muito Romântico” e o clássico “Queixa”, que ecoou em plenos pulmões por todo o Festival de Verão Salvador, consolidando a ideia de que a arte pode ser tanto crítica quanto consoladora.
O Legado Familiar no Palco Baiano
Um dos momentos mais emocionantes da noite foi a presença dos filhos de Caetano, Zeca e Tom, no palco. Eles se juntaram ao pai para cantar “Salvador”, uma canção que integra “Boas Novas”, o recém-lançado disco de Zeca Veloso.
A performance familiar foi ainda mais especial com a participação do neto Benjamin, que também subiu ao palco, simbolizando a continuidade do legado musical. Caetano lamentou apenas a ausência de seu outro filho, Moreno, que estava no Canadá.
Essa reunião familiar ressaltou a importância da transmissão da arte e da cultura de geração em geração, um tema caro a Caetano Veloso e à música brasileira. O público aplaudiu efusivamente a interação entre pai e filhos.
O Antídoto Final: Samba e Celebração
O encerramento do show amarrou perfeitamente a mensagem central: a festa como antídoto para a dor. Depois de “Desde Que o Samba é Samba”, Caetano colocou o Festival de Verão para dançar com “Reconvexo”.
A canção, com um riff de guitarra que conectava o samba de roda do recôncavo baiano ao pagodão atual, foi um convite irrecusável à celebração. A energia do público era palpável, dançando ao som do mestre.
Caetano Veloso se despediu do palco do Festival de Verão Salvador após cantar o consagrado samba-enredo “É Hoje”, deixando uma sensação de alegria, reflexão e a certeza de que a música, em suas mãos, é sempre um poderoso remédio para a alma.