Câmera flagra diálogo tenso entre PMs após disparo que atingiu mulher na Zona Leste de SP
Imagens de câmeras corporais de policiais militares capturaram um diálogo revelador logo após um disparo que atingiu Thawanna, mulher que morreu na Zona Leste de São Paulo. A gravação mostra um dos policiais questionando a colega sobre o tiro, enquanto o marido da vítima entra em desespero e entra em confronto com os agentes.
A cena registrada revela a tensão do momento, com um policial, identificado como Soares, questionando a conduta de sua colega, Yasmin, que teria efetuado o disparo. O marido de Thawanna, Luciano, visivelmente abalado, presencia os fatos e tenta intervir, gerando um embate com os policiais presentes.
A demora no atendimento médico e a apreensão da arma da policial envolvida também são pontos destacados pelas imagens, que agora integram a investigação sobre o caso. As circunstâncias da morte de Thawanna e a ação policial estão sendo rigorosamente apuradas pelas autoridades competentes.
O momento do disparo e o questionamento entre policiais
Segundos após um som de disparo ser ouvido, um policial militar identificado como Soares questiona sua colega, Yasmin: ‘Você atirou? Você atirou por quê?‘. A resposta da militar, que não foi captada pela câmera corporal, foi de que a vítima teria batido em sua cara. No entanto, o suposto tapa não pôde ser confirmado pelas imagens.
O desespero de Luciano, marido de Thawanna, é evidente nas imagens. Ele entra em confronto com os policiais, visivelmente abalado com a situação. A cena demonstra a gravidade do ocorrido e o impacto imediato sobre os envolvidos.
Demora no socorro e o estado de saúde da vítima
Soares aciona o socorro pelo rádio, mas a ambulância demora mais de 30 minutos para chegar ao local. Durante esse período, outras viaturas da Polícia Militar chegam para prestar auxílio e iniciar os primeiros socorros à vítima. A urgência da situação é expressa por Soares ao informar um superior: ‘A mina tá baleada, a fox (gíria para agente feminina) atirou’.
Ao fundo, Thawanna agoniza, expressando dor: ‘Ai, tá doendo’. Um dos policiais tenta acalmá-la, dizendo: ‘Não faz força, fica de boa, já vai chegar o resgate’. Yasmin, a policial que efetuou o disparo, questiona o colega sobre a chegada do socorro, que informa estar a caminho.
Com a demora da ambulância, outros policiais comentam entre si sobre o estado de saúde de Thawanna, notando que o lábio da vítima estava ficando branco, um sinal preocupante de sua condição crítica. A falta de agilidade no atendimento médico agrava a angústia do momento.
Alerta e resignação: ‘Não era para ter atirado’
Em um momento de reflexão, Soares alerta a colega novata: ‘Não era para ter atirado’. Ele tenta oferecer orientações sobre como ela deveria ter agido na situação, mas em seguida demonstra uma certa resignação: ‘Relaxa, agora já foi já’. A arma utilizada por Yasmin foi apreendida no local da ocorrência, como parte do procedimento padrão.
A declaração de Soares sugere uma avaliação crítica da ação da policial, indicando que, em sua opinião, o uso da força letal não era justificado. A apreensão da arma reforça a necessidade de uma investigação minuciosa sobre a dinâmica dos fatos que levaram ao disparo.
Investigação policial e afastamento da policial militar
No sábado seguinte ao ocorrido, a policial militar envolvida no disparo foi afastada de suas funções. Ela é alvo de um Inquérito Policial Militar (IPM) e de uma investigação conduzida pelo DHPP (Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa).
A Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP) informou que ‘as circunstâncias são apuradas com prioridade absoluta pelas polícias Civil e Militar, com acompanhamento das corregedorias. As imagens das câmeras corporais e os laudos periciais já integram a investigação’. Essa declaração reforça o compromisso das autoridades em esclarecer os fatos e garantir a devida apuração.
Velório e a comoção pela morte de Thawanna
Thawanna foi velada sob forte comoção na zona leste da capital paulista. A vítima, que faria 32 anos no dia seguinte ao ocorrido, era mãe de cinco filhos menores de idade e era descrita como uma pessoa muito querida e alegre pelos moradores da região, conforme relatou um familiar em condição de discrição ao UOL.
Luciano, marido de Thawanna há três anos, está sofrendo intensamente com a perda, tendo presenciado o trágico acontecimento. A notícia de sua morte gerou grande tristeza e revolta na comunidade, evidenciando o impacto de sua ausência.
Protestos contra a violência policial na Zona Leste
A morte de Thawanna provocou uma série de protestos na zona leste da capital. Moradores saíram às ruas para manifestar contra a violência policial, chegando a atear fogo em pneus e madeiras em vias públicas. A revolta da comunidade reflete a crescente preocupação com a atuação das forças de segurança.
Na noite de sexta-feira, a Polícia Militar utilizou balas de borracha e gás de efeito moral para dispersar manifestantes em duas vias de Cidade Tiradentes, demonstrando a tensão entre a população e as autoridades. Os protestos evidenciam a necessidade de um diálogo mais efetivo e de ações que promovam a confiança entre a comunidade e a polícia.
Contexto e desdobramentos da investigação
As imagens das câmeras corporais dos policiais são cruciais para a investigação, pois registram não apenas o momento posterior ao disparo, mas também as reações e conversas entre os agentes. A gravação do diálogo entre Soares e Yasmin levanta questões importantes sobre o protocolo de uso da força e a tomada de decisão em situações de risco.
A investigação do DHPP e o Inquérito Policial Militar visam determinar se houve excesso no uso da força, se os procedimentos foram seguidos corretamente e se as circunstâncias justificavam o disparo. A análise dos laudos periciais, incluindo a trajetória do projétil e a distância do disparo, será fundamental para a reconstituição dos fatos.
O afastamento de Yasmin de suas funções é uma medida cautelar para garantir a imparcialidade da investigação. A sociedade aguarda um desfecho justo e transparente para o caso, que mais uma vez expõe a complexa relação entre a polícia e a comunidade, especialmente em áreas de maior vulnerabilidade social.