Análise Crítica do Texto-Base da Campanha da Fraternidade 2024 Revela Divisões e Debates na Igreja Católica Brasileira
A Campanha da Fraternidade de 2024, iniciada na Quarta-feira de Cinzas com o tema “Fraternidade e Moradia” e o lema “Ele veio morar entre nós”, tem sido alvo de uma análise detalhada. O texto-base, documento norteador das reflexões promovidas pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), apresenta pontos fortes na abordagem da Doutrina Social da Igreja sobre o direito à moradia, mas também levanta questionamentos sobre seu viés político e imprecisões em análises econômicas.
A discussão sobre o tema ganha relevância em um momento de polarização política e social no Brasil, onde a questão da moradia é um desafio persistente para milhões de brasileiros. A coincidência da Campanha da Fraternidade com o período quaresmal, que tradicionalmente foca no caráter penitencial, também gera debates internos na Igreja, com alguns locais preferindo ressaltar a dimensão espiritual.
A análise do texto-base, divulgada por um portal de notícias, sugere que, embora a intenção seja promover a reflexão sobre um tema social crucial, a forma como a política e a economia são abordadas no documento pode gerar controvérsias e afastar parte do público católico. Conforme aponta a análise, o texto-base possui qualidades e defeitos que merecem atenção.
A Doutrina Social da Igreja como Pilar na Discussão sobre Moradia
A segunda parte do texto-base, intitulada “Ele veio morar entre nós”, é destacada por conter os trechos mais substanciais e alinhados a uma reflexão genuinamente católica sobre a moradia. Esta seção explora a importância bíblica da casa e dos meios para o sustento familiar, condenando a acumulação excessiva de riquezas obtida à custa dos mais vulneráveis ou com conivência de autoridades. O conceito de “casa” é apresentado em seu sentido amplo, abrangendo o pertencimento a um grupo e o espaço de reunião das primeiras comunidades cristãs.
A análise ressalta que o texto se aprofunda nos ensinamentos dos Padres da Igreja e na Doutrina Social, que consagram o direito à moradia como fundamental para a dignidade humana. Citações de papas como São João XXIII, São Paulo VI, São João Paulo II e Francisco reforçam essa perspectiva. A Doutrina Social, segundo a análise, oferece um equilíbrio ao rejeitar tanto o coletivismo socialista quanto o absolutismo liberal, defendendo a propriedade privada como direito natural, mas enfatizando o bem comum e a destinação universal dos bens.
Em um contexto brasileiro marcado pela precariedade habitacional, a análise enfatiza que a situação de muitos brasileiros sem teto representa uma violação da dignidade humana e uma ofensa a Deus. A especulação imobiliária, que mantém prédios abandonados e terras ociosas, é vista como um abuso do direito à propriedade, que, embora natural, não é absoluto, como já alertaram diversos pontífices, incluindo São João Paulo II.
Críticas à Análise Política e Econômica do Documento
Apesar dos pontos positivos, a primeira parte do texto-base, “A realidade da moradia no Brasil”, é criticada por se aprofundar em um “partidarismo político e ignorância econômica e social”. A análise aponta que a culpa pela crise habitacional é atribuída genericamente ao “neoliberalismo”, aos juros da dívida e a reformas como a trabalhista e da Previdência, sem uma compreensão clara das relações entre gastos governamentais e juros altos. O texto-base é acusado de apresentar um maniqueísmo político, com governos de centro-direita sendo retratados como negativos e governos de esquerda como positivos.
A análise também aponta a existência de “fake news” sobre o teto de gastos, contrariando a informação de que não havia limite para elevação de rubricas orçamentárias específicas, apenas para o gasto total do governo. Há, ainda, elogios a movimentos sociais frequentemente associados ao petismo, como o MTST e o MST, e a algumas entidades sindicais, o que reforça a percepção de um viés político explícito no documento.
Outro ponto de crítica é a omissão de dados relevantes para uma análise completa. Por exemplo, o texto-base não menciona que o governo Bolsonaro entregou mais títulos definitivos de posse de terra em quatro anos do que os quatro governos petistas anteriores somados. Essa omissão é explicada pela preferência da esquerda e do MST por um modelo de “posse coletiva” que mantém as pessoas sob a influência de movimentos sociais.
O Crime Organizado e a Violência nas Favelas: Pontos Cegos do Texto-Base
A análise do texto-base aponta uma ausência notável ao abordar a realidade das favelas brasileiras: a falta de menção ao regime de terror imposto pelo crime organizado. As investigações, como a Operação Contenção no Rio de Janeiro, expuseram essa realidade, que é ignorada pelo documento, que foca apenas na violência policial. Essa omissão é interpretada como um caso em que a ideologia se sobrepõe à realidade, visto que a aprovação de operações de contenção do crime é geralmente alta entre os moradores das favelas.
A análise sugere que essa abordagem seletiva distorce a complexidade dos problemas sociais, focando em um único aspecto da violência enquanto ignora outros fatores igualmente relevantes e prejudiciais à população.
Sugestões de Ação: Entre a Solidariedade Cristã e a Vagueza Política
A terceira parte do texto-base, “Construiremos casas e nelas habitarão”, é considerada ligeiramente enviesada, embora menos que a primeira. As sugestões de ações para católicos e igrejas particulares na resolução do problema da moradia incluem iniciativas de solidariedade cristã, mas também o estímulo ao apoio a movimentos populares com claro posicionamento político. Ideias vagas, como “valorizar a arte e a cultura da periferia”, são apontadas como potencialmente perpetuadoras da “cultura da pobreza”, em vez de promoverem soluções efetivas.
Um ponto de crítica é a ausência de menção ao papel da Igreja na prevenção e combate ao vício em drogas, um fator que, segundo o próprio texto-base, contribui significativamente para a situação de rua de muitas pessoas. Essa omissão é vista como uma oportunidade perdida de abordar uma causa relevante do problema habitacional.
O Cenário Eleitoral e a Credibilidade da CNBB
Em ano eleitoral, a análise destaca que a imagem da CNBB já não é das melhores entre o eleitorado de direita e centro-direita. A expectativa é que bispos e padres “da caminhada” se posicionem abertamente em favor de candidatos, enquanto outros, mais alinhados à missão pastoral, manterão suas opiniões políticas reservadas, agindo conforme o pedido de Bento XVI em 2010: posicionar-se publicamente em matéria política apenas quando os direitos fundamentais da pessoa ou a salvação das almas o exigirem.
Essa divisão e a percepção de um viés político na CNBB podem reforçar a ideia de que a entidade já escolheu um lado para as eleições de 2026, o que, segundo a análise, compromete sua credibilidade junto a uma parcela significativa de católicos. A esperança expressa é que, em futuras elaborações do texto-base, haja maior cuidado para que ele reflita exclusivamente a Doutrina Social da Igreja, sem o tom abertamente político observado na edição de 2024.
A Importância da Doutrina Social da Igreja na Resolução da Crise Habitacional
A análise conclui que, apesar das críticas ao viés político e às imprecisões econômicas, a Doutrina Social da Igreja oferece um arcabouço sólido para a reflexão sobre a moradia. A rejeição aos extremos do coletivismo e do liberalismo, a defesa da propriedade privada com responsabilidade social e a ênfase no bem comum são ferramentas essenciais para a construção de políticas públicas e ações que visem garantir o direito à moradia digna para todos os brasileiros. A crítica ao texto-base da Campanha da Fraternidade, portanto, não invalida a importância do tema, mas aponta a necessidade de uma abordagem mais equilibrada e menos politizada, focada nos princípios evangélicos e na justiça social.