A recente operação que culminou na captura do ditador venezuelano Nicolás Maduro reacendeu um intenso debate nas redes sociais e entre analistas políticos. A ação, vista por muitos como um movimento estratégico dos Estados Unidos, trouxe à tona a discussão sobre uma suposta divisão do mundo em esferas de influência por grandes potências.
A administração Trump tem enfatizado que a operação contra Maduro faz parte de um esforço maior para diminuir a presença da China e da Rússia, países aliados do regime venezuelano, no Hemisfério Ocidental. Esse contexto tem alimentado a teoria de que o planeta estaria sendo discretamente repartido em três grandes áreas de domínio: Américas sob os EUA, Ásia sob a China, e Leste Europeu e África sob a Rússia.
Embora as ilustrações e os debates nas redes sociais ganhem força, especialistas divergem sobre a real intenção e a viabilidade de tal divisão do mundo. As informações analisadas indicam uma complexa teia de interesses e estratégias globais, conforme detalhado nas análises recentes.
A Doutrina Monroe e a Ambição Americana
O secretário de Estado americano, Marco Rubio, declarou após a captura de Maduro que “Este é o nosso hemisfério, e o presidente [Donald] Trump não permitirá que nossa segurança seja ameaçada”. Essa fala ressalta a postura da gestão Trump em reafirmar o domínio dos Estados Unidos na região.
A mais recente doutrina de segurança nacional dos Estados Unidos, divulgada antes da operação na Venezuela, reforça essa visão ao pregar um retorno à Doutrina Monroe do século XIX. Essa doutrina priorizava as Américas na política externa americana, buscando reduzir a influência de potências estrangeiras no continente.
A meta de Trump, portanto, parece ser a de consolidar a proeminência dos EUA no Hemisfério Ocidental, combatendo a expansão de China e Rússia. Essa estratégia é vista por alguns como um passo em direção a uma ordem mundial baseada em esferas de influência.
Macron Corrobora, Especialistas Divergem
A tese das esferas de influência ganhou peso com o discurso do presidente da França, Emmanuel Macron, em Paris. Ele afirmou que “As instituições do multilateralismo funcionam com cada vez menos eficácia. Encontramo-nos em um mundo de grandes potências com uma verdadeira tentação de dividir o mundo”, validando a percepção de um cenário global fragmentado.
No entanto, nem todos os especialistas concordam com a ideia de que EUA, China e Rússia estariam dispostos a realmente “dividir” o planeta de forma explícita. A jornalista e escritora americana Anne Applebaum, em artigo para a revista The Atlantic, lembrou que, em 2019, Fiona Hill, do Conselho de Segurança Nacional, já havia alertado sobre a pressão russa por esferas de influência, com uma proposta de “troca” da Venezuela pela Ucrânia.
Applebaum destaca que “A noção de que as relações internacionais devem promover o domínio das grandes potências, e não valores universais ou redes de aliados, se espalhou de Moscou para Washington”. Ela também aponta que a nova estratégia de segurança de Trump, com seu “engajamento e expansão” nas Américas, tem desafiado a soberania de aliados como Dinamarca (Groenlândia), Panamá e Canadá, evidenciando uma abordagem unilateral.
A “Doutrina Donroe” e as Trocas de Influência
Gideon Rachman, colunista do jornal britânico Financial Times, também abordou a questão, cunhando o termo “Doutrina Donroe” como um trocadilho com o nome do presidente americano. Segundo Rachman, essa doutrina, “combinada com as iniciativas de Trump em direção a uma reaproximação com a Rússia e a China, sugere que ele se sente atraído por uma ordem mundial organizada em torno das esferas de influência das grandes potências”.
Rachman argumenta que, embora Rússia e China tenham condenado a deposição de Maduro, interesses maiores poderiam prevalecer. Ele sugere que o ditador chinês Xi Jinping “sacrificaria de bom grado a influência chinesa na Venezuela se isso significasse que Pequim teria carta branca em relação a Taiwan”, e que a Rússia faria o mesmo acordo em relação à Ucrânia. Essa visão reforça a ideia de trocas estratégicas entre as potências.
Teoria da Conspiração ou Realidade? O Que Dizem os Especialistas
Apesar dos argumentos que apontam para uma divisão do mundo, o economista e doutor em relações internacionais Igor Lucena, em entrevista à Gazeta do Povo, acredita que “há um pouco de teoria da conspiração” nos comentários sobre o tema. Ele reconhece que Trump busca ampliar a influência dos EUA na América Latina, mas discorda da ideia de uma partilha global.
Lucena explica que os Estados Unidos não querem apenas reduzir a influência de China e Rússia no Hemisfério Ocidental, mas sim em todo o mundo. “Os Estados Unidos não querem a China invadindo Taiwan, não querem a China ampliando seu território ou sua influência em países que consideram aliados, como a Índia e o Japão. Da mesma forma, não querem a Rússia tomando toda a Ucrânia”, exemplifica o especialista.
A estratégia americana, segundo Lucena, é a de minar potências ascendentes, como a China, e aquelas em declínio que ainda são grandes, como a Rússia. Ele conclui que, embora a meta de Trump seja, sim, aumentar a área de influência americana na América Latina, “é muito difícil acreditar que exista um plano para dividir o mundo em três áreas e que essas potências estariam organizando isso entre si. Acho que aí já é demais”, reforçando a cautela contra uma interpretação excessivamente conspiratória.