Muitos tutores querem dar o melhor para seus cães, mas nem sempre o que parece um gesto de amor é benéfico. Às vezes, o excesso de carinho, banhos frequentes ou a ausência prolongada podem gerar mais estresse do que conforto para os animais.
Compreender a linguagem corporal dos cães e suas necessidades intrínsecas é fundamental para garantir uma vida equilibrada e feliz. Pequenas mudanças na rotina podem fazer uma grande diferença na qualidade de vida do seu companheiro.
A BBC News Brasil, em uma reportagem recente, conversou com a médica veterinária especializada em manejo de comportamento canino, Ana Luísa Lopes, que compartilha dicas valiosas sobre onde podemos estar exagerando e o que pode estar faltando para o bem-estar do seu cão.
Entenda a linguagem corporal do seu cão para oferecer carinho na medida certa
Seu cachorro é fofo e irresistível, mas a forma como oferecemos carinho pode ser mal interpretada por ele. A veterinária Ana Luísa Lopes, com mestrado pela University of Lincoln no Reino Unido, explica que é crucial aprender a reconhecer os sinais sutis de desconforto dos animais.
Muitas vezes, as pessoas forçam o contato, apertando e abraçando o cão, ignorando os sinais de que ele quer se afastar. Lopes compara essa atitude à personagem Felícia, do desenho Looney Tunes, que esmaga os bichinhos com excesso de afeto.
A especialista alerta que, se o animal rosna e o tutor persiste, a mordida pode ser a próxima reação. Ela enfatiza, “Aí, a pessoa briga e bate no animal. Mas foi ela quem criou aquela situação”, ressalta a veterinária, sobre a importância de respeitar os limites do pet.
Entre os sinais de desconforto, Lopes cita lambidas no próprio focinho ou lábio, bocejos, sacudir o corpo, virar o rosto ou simplesmente se afastar. Assim como fazemos com os gatos, a dica é deixar o cão decidir se quer ou não o afago, dando a ele a oportunidade de escolha.
Banhos: estresse desnecessário ou cuidado essencial?
Banhos, embora bem intencionados, podem ser uma fonte de grande estresse para os cães. Ana Luísa Lopes desmistifica a ideia de que raças peludas, como Lulu da Pomerânia ou Shih Tzu, nascem adaptadas aos banhos frequentes em pet shops.
É essencial um trabalho de adaptação individualizado, feito por profissionais treinados que entendam o comportamento animal e saibam reconhecer sinais de desconforto. A veterinária defende o conceito de “banho de baixo estresse”, buscando gerar sensações positivas durante o processo.
Um exemplo é transformar o momento da secagem, que pode ser barulhenta, em uma brincadeira com petiscos. “A gente traz essa emoção positiva de uma forma mais aflorada nesse momento e deixa a emoção negativa que antes era a principal, em segundo plano”, explica Lopes.
Ela critica o uso de banheiras ofurô, que parecem bonitas, mas são “extremamente estressantes” para o animal, pois o deixam contido e sem ter o que fazer. O cão que parece calmo nesses casos, muitas vezes está congelado pelo desconforto, não curtindo.
A frequência dos banhos também é um ponto importante para o bem-estar do seu cão. Para animais de pelo longo, recomenda-se a cada 15 ou 20 dias. Já para cães de pelo curto, a indicação é ainda mais surpreendente, apenas uma vez por ano, a menos que se sujem com frequência em trilhas ou fazendas.
Solidão prolongada: o que a ausência do tutor causa nos cães
Deixar o cão sozinho por muitas horas é uma realidade comum no Brasil, mas o assunto é polêmico. A veterinária Ana Luísa Lopes aponta que, enquanto aqui é normal deixá-los por 10 a 12 horas, na Inglaterra, por exemplo, é considerado maus-tratos se o animal fica sozinho por mais de quatro horas.
Lopes recomenda que os tutores contratem um pet sitter ou passeador para que o animal tenha companhia e atividades durante o dia. Essa pessoa pode oferecer um passeio ou brincadeiras, evitando que o cão passe um longo período isolado.
A atenção extra é ainda mais crucial para animais recém-adquiridos ou adotados. A falta de orientação durante longas horas de solidão pode levar a comportamentos destrutivos, como destruir móveis ou fazer necessidades em locais inadequados, o que, infelizmente, pode resultar na devolução do animal.
“De novo, colocamos os animais nessa situação e não gostamos do resultado”, comenta Lopes, reforçando a responsabilidade dos tutores em prover a companhia e o estímulo necessários para o bem-estar do seu cão.
Destruição de objetos: um comportamento natural que precisa de direcionamento
Além de companhia e atenção, os cães precisam de objetos para destruir. Ana Luísa Lopes esclarece que a destruição é um comportamento natural da espécie, e tentar reprimi-lo pode levar a outros problemas comportamentais.
Em vez de brigar com o animal por ele destruir a casa, o tutor deve direcioná-lo para brinquedos apropriados. Se o cão destrói uma porta de madeira, por exemplo, ele provavelmente precisa de brinquedos muito duros para roer.
Para cães que adoram cavar o jardim, a veterinária sugere disponibilizar um espaço onde possam realizar esse comportamento natural sem causar problemas. Tentar eliminar esses instintos pode resultar em um cão que late mais, fica agitado ou busca atenção de forma excessiva.
Lopes conclui, “Não porque ele seja um animal chato, bobão. Mas porque a gente não está deixando ele expressar os comportamentos que são naturais dele, sabe?”, sublinhando a importância de atender às necessidades instintivas para promover o verdadeiro bem-estar do seu cão.