AIEA alerta para nível de enriquecimento de urânio do Irã e o risco de “brincar com fogo”
O diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), Rafael Grossi, em entrevista ao jornal argentino La Nación, em 3 de outubro, fez um alerta contundente sobre o programa nuclear do Irã. Grossi afirmou que nenhum país que não possua armas nucleares enriquece urânio no nível em que o Irã o faz, comparando a situação a “brincar com fogo” em meio à escalada de tensões com os EUA e Israel.
A declaração de Grossi ressalta a preocupação internacional com a natureza ambígua do programa nuclear iraniano, que, segundo ele, gera desconfiança permanente e cria um ambiente de “pré-guerra”. O chefe da AIEA destacou que tanto os Estados Unidos quanto Israel, assim como outras nações, não permitirão que o Irã desenvolva armas nucleares, e que a opacidade do regime islâmico contribui para a instabilidade regional.
As informações divulgadas por Grossi ao La Nación indicam que, apesar dos esforços diplomáticos e das inspeções da AIEA, a agência enfrenta dificuldades em restabelecer plenamente suas atividades de verificação no Irã desde eventos anteriores, como a “Guerra dos 12 Dias” em junho do ano passado. A dificuldade em obter acesso necessário para verificar as atividades nucleares iranianas agrava a situação, conforme informações divulgadas pela AIEA.
Programa nuclear iraniano: um impasse de anos e a desconfiança internacional
A questão do programa nuclear iraniano tem sido um foco de preocupação para a comunidade internacional por muitos anos. Rafael Grossi, diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), enfatizou em entrevista ao La Nación que a ambiguidade em torno dos limites do programa nuclear do país islâmico cria um ambiente de desconfiança permanente. Essa falta de clareza sobre as intenções e capacidades nucleares do Irã é vista como um fator de instabilidade na região e a nível global.
Grossi descreveu a situação como uma “situação de pré-guerra”, sublinhando a gravidade do impasse. Ele explicou que nem os Estados Unidos, nem Israel, nem outras potências internacionais aceitarão que o Irã desenvolva armas nucleares. A escolha do regime iraniano por um “certo grau de opacidade” nas suas atividades nucleares, segundo o chefe da AIEA, não justifica a guerra, mas é fundamental para entender como as tensões chegaram ao ponto atual.
A AIEA, como órgão de fiscalização, tem tido dificuldades em realizar seu trabalho de forma completa. Grossi mencionou que, desde a “Guerra dos 12 Dias” em junho do ano passado, quando instalações nucleares iranianas foram alvo de bombardeios, a agência não conseguiu restabelecer plenamente suas atividades de inspeção no país. Apesar de contatos frequentes com autoridades iranianas, incluindo o ministro das Relações Exteriores, a recuperação do nível de acesso necessário para verificar as atividades nucleares tem sido um desafio constante.
Negociações diplomáticas e “divergências técnicas” que impediram um acordo
Antes da escalada militar mais recente, o diretor-geral da AIEA, Rafael Grossi, participou ativamente de negociações diplomáticas que visavam neutralizar tanto o programa nuclear quanto o programa de mísseis do Irã. Essas conversas, mediadas por Omã e ocorridas no Oriente Médio e na Europa, envolviam os Estados Unidos e o Irã.
Segundo Grossi, as discussões apresentaram avanços em alguns pontos cruciais, mas acabaram sendo travadas por “divergências técnicas”. As questões em aberto incluíam a permissão para o Irã continuar o enriquecimento de urânio, o nível máximo de enriquecimento que seria aceitável, e como as verificações internacionais seriam conduzidas de forma eficaz. Essas divergências técnicas, na prática, representavam obstáculos significativos para a construção de um acordo que pudesse garantir a segurança e a transparência do programa nuclear iraniano.
A falha em alcançar um acordo nessas negociações diplomáticas é vista como um dos fatores que contribuíram para a crescente tensão e, eventualmente, para a escalada militar. A incapacidade de resolver as questões técnicas e políticas impediu a criação de um mecanismo de controle e verificação robusto, deixando a comunidade internacional em um estado de alerta contínuo quanto às ambições nucleares do Irã.
Ataques a instalações nucleares iranianas: Natanz e Isfahan sob mira
O chefe da agência nuclear da ONU não demonstrou surpresa com o início da atual ofensiva militar contra o Irã. Grossi afirmou que a situação já era considerada extremamente tensa e que uma ação militar não podia ser descartada a qualquer momento. Imagens de satélite e informações preliminares coletadas pela AIEA indicam que instalações nucleares importantes do Irã foram atingidas nesta ofensiva conduzida pelos Estados Unidos e Israel.
Entre os locais afetados, destaca-se a instalação nuclear de Natanz, um dos centros mais importantes do programa de enriquecimento de urânio do Irã. Segundo Grossi, mais dois pontos de acesso a esta instalação teriam sido bombardeados. Natanz já havia sido alvo de bombardeios dos EUA no ano passado, e, segundo informações, sofreu danos severos. A preocupação reside na possibilidade de que esses ataques comprometam a capacidade de enriquecimento de urânio do país.
Outra instalação atingida foi a de Isfahan, que também sofreu ataques dos EUA em 2025. No entanto, no caso de Isfahan, Grossi relatou que ainda “não está claro” se os danos causados pela ofensiva atual atingiram diretamente as estruturas nucleares da instalação ou se as explosões ocorreram em instalações militares localizadas nas proximidades do complexo. A distinção é crucial para avaliar o impacto direto no programa nuclear civil e militar do Irã.
Capacidade nuclear iraniana: urânio enriquecido a 60% e o alerta para armas nucleares
Apesar dos ataques anteriores e das recentes operações militares, Rafael Grossi, diretor-geral da AIEA, alertou que parte da capacidade nuclear iraniana ainda pode permanecer intacta. O Irã, segundo informações da agência, ainda possui cerca de 440 quilos de urânio enriquecido a 60%. Este nível de enriquecimento é considerado tecnicamente muito próximo do necessário para a produção de combustível para armas nucleares, o que intensifica as acusações de Israel e dos Estados Unidos de que o Irã estaria trabalhando ativamente para desenvolver armas nucleares.
O urânio enriquecido é um componente essencial tanto para reatores nucleares civis quanto para a fabricação de bombas atômicas. O enriquecimento a 60% representa um salto significativo em relação aos níveis tipicamente utilizados para fins pacíficos, que geralmente não ultrapassam 5%. Essa proximidade com o grau necessário para armas nucleares é o que mais preocupa a comunidade internacional e justifica as ações de dissuasão.
A AIEA, em sua função de monitoramento, acompanha de perto os níveis de enriquecimento e a quantidade de urânio estocado pelo Irã. A capacidade de enriquecer urânio a níveis tão elevados, mesmo que a maior parte da infraestrutura tenha sido atingida, levanta a questão sobre a velocidade com que o Irã poderia retomar ou expandir suas atividades, caso as condições políticas e de segurança mudem.
AIEA defende solução diplomática e alerta para risco de escalada internacional
Mesmo diante da escalada militar e dos ataques às suas instalações, Rafael Grossi defende veementemente que a solução duradoura para a questão nuclear do Irã não será alcançada pela força. O diretor-geral da AIEA acredita que, após o fim dos combates em curso, será fundamental retomar as negociações diplomáticas para “estabelecer um mecanismo de controle e verificação que reduza as tensões na região”. A força militar, segundo ele, pode causar danos, mas não resolve a raiz do problema nem garante a paz a longo prazo.
Grossi também emitiu um alerta sobre os riscos de uma escalada internacional. Ele destacou que os ataques retaliatórios do Irã contra países que abrigam bases militares americanas ampliam o perigo de um conflito mais amplo. “Existe um risco evidente”, disse Grossi, ao ressaltar que a resposta iraniana contra países da região pode envolver novos atores, tornando o conflito ainda mais complexo e imprevisível. A AIEA monitora atentamente esses desdobramentos, buscando mitigar riscos.
A agência nuclear da ONU reitera sua disposição em retomar negociações e oferecer garantias técnicas essenciais. Caso as condições políticas permitam o restabelecimento do diálogo, a AIEA está pronta para assegurar que o programa nuclear iraniano não represente uma ameaça internacional. O objetivo é criar um ambiente de maior segurança e transparência, fundamental para a estabilidade regional e global.
O que esperar após a ofensiva: o futuro das inspeções e o caminho diplomático
A atual ofensiva militar contra o Irã, com ataques a instalações nucleares, levanta sérias questões sobre o futuro das inspeções da AIEA e a possibilidade de um novo acordo nuclear. Rafael Grossi, diretor-geral da agência, já indicou que a capacidade nuclear iraniana pode ter sido parcialmente comprometida, mas que a vigilância deve continuar.
A principal preocupação da AIEA, e da comunidade internacional, é a retomada das inspeções. A agência precisa de acesso irrestrito às instalações para verificar se o enriquecimento de urânio foi interrompido ou se houve danos significativos que possam afetar a capacidade de produção futura. A falta de transparência, agravada após os ataques, torna o trabalho da AIEA ainda mais desafiador.
O caminho diplomático, embora abalado pela violência, é visto como a única saída sustentável. Grossi insiste na necessidade de negociações pós-conflito para estabelecer um novo quadro de controle e verificação. A resolução da crise nuclear iraniana dependerá da capacidade de todas as partes envolvidas em dialogar, ceder em pontos cruciais e construir um sistema de confiança mútua, garantindo que o programa nuclear do Irã sirva exclusivamente a fins pacíficos e não represente uma ameaça à segurança global.