A China intensificou suas críticas ao governo dos Estados Unidos, acusando-o de um ‘ato de intimidação’ contra a Venezuela. A reação chinesa surge em meio a relatos de que Washington estaria exigindo que o país sul-americano rompa alianças com nações consideradas rivais dos EUA, gerando uma nova fonte de atrito diplomático.
As declarações de Pequim destacam a crescente disputa por influência na América Latina, uma região onde tanto os EUA quanto a China buscam fortalecer seus laços. Este cenário complexo adiciona uma camada de tensão às relações bilaterais, especialmente às vésperas de encontros importantes entre os líderes das duas maiores economias do mundo.
A postura firme da China sublinha a importância estratégica da Venezuela para seus interesses, defendendo seus direitos legítimos no país caribenho. As informações foram divulgadas pela Bloomberg L.P., com base em reportagens da ABC News e do The New York Times.
A Escalada da Tensão e as Exigências dos EUA
A porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Mao Ning, não poupou palavras ao comentar a situação. Ela afirmou em Pequim que ‘o uso descarado da força pelos EUA contra a Venezuela e a exigência de que o país favoreça a América ao administrar seus próprios recursos de petróleo, isso é um típico ato de intimidação‘.
Mao Ning também deixou claro que a ‘China e outros países têm direitos legítimos na Venezuela, que precisam ser protegidos’. As declarações vêm após reportagens indicarem que a Casa Branca estaria pressionando a Venezuela a reduzir seus vínculos com China, Rússia, Irã e Cuba, especialmente após a captura do líder Nicolás Maduro no fim de semana.
Segundo a ABC News, a Venezuela teria sido orientada a expulsar os quatro países e cortar laços econômicos, citando fontes não identificadas. O The New York Times, por sua vez, mencionou autoridades americanas que indicam uma pressão sobre a líder interina Delcy Rodríguez para expulsar espiões e militares desses países, embora diplomatas pudessem permanecer.
O Petróleo Venezuelano e os Interesses Americanos
A iniciativa dos EUA representa um desafio direto à presença chinesa na América Latina, mesmo enquanto Washington e Pequim buscam estabilizar suas relações. O movimento ocorre às vésperas de um novo encontro entre o presidente dos EUA, Donald Trump, e o líder chinês Xi Jinping, previsto para abril, após uma trégua comercial firmada no fim do ano passado.
Donald Trump tem deixado claro seu interesse em desempenhar um papel central no futuro da Venezuela, com grande parte desse futuro sendo financiada por receitas do petróleo. Na noite de terça-feira, o presidente dos EUA afirmou que a Venezuela começaria enviando aos EUA até 50 milhões de barris de petróleo, avaliados em mais de US$ 2,8 bilhões aos preços atuais de referência do West Texas Intermediate (WTI).
O governo americano planeja se reunir com empresas petrolíferas do país na próxima semana para discutir investimentos na nação sul-americana. Ainda não está claro o quão profundamente os EUA pretendem retirar China, Rússia e outros atores da economia venezuelana, mas qualquer movimento nesse sentido representaria um realinhamento político completo para a Venezuela.
A Reação da China e Seus Laços com a Venezuela
A crescente assertividade dos EUA na América Latina pode forçar a China a recalibrar sua abordagem na região, embora um confronto direto com Washington seja improvável. Pequim vem aprofundando laços comerciais e econômicos na América Latina há mais de uma década, buscando ampliar sua influência global e assegurar recursos estratégicos.
A Venezuela, em particular, mantém relações estreitas com Pequim. Em 2023, a China elevou o relacionamento a uma ‘parceria estratégica abrangente para todas as condições’. A China é o maior comprador de petróleo bruto venezuelano e o principal credor do país, apoiando consistentemente o governo Maduro e oferecendo respaldo contra sanções e isolamento impostos pelos EUA.
Dylan Loh, professor associado da Universidade Tecnológica de Nanyang, ressalta que ‘a China terá de reagir, não pode correr o risco de parecer fraca’. Segundo ele, a tensão pode afetar futuras negociações comerciais, mesmo que uma ruptura imediata da trégua seja improvável. ‘Os EUA verão isso como uma moeda de troca. Podem tentar fechar um acordo com a China para continuar vendendo petróleo e permitir que a Venezuela pague seus empréstimos’, acrescentou.
Implicações Geopolíticas e o ‘Jogo Aninhado’
Para alguns analistas, a manobra dos EUA vai além de uma disputa por suprimento de energia. Josef Gregory Mahoney, professor de relações internacionais da Universidade Normal da China Oriental, em Xangai, descreveu a estratégia americana como um ‘jogo aninhado’. O objetivo seria estabelecer domínio regional e neutralizar a influência estrangeira no Hemisfério Ocidental.
‘É possível imaginar que parte do objetivo seja obter controle não apenas do petróleo, mas também de riquezas minerais estratégicas’, disse Mahoney. Ele alertou que forçar a saída da China criaria um ‘mau precedente’ para investimentos em toda a América Latina e poderia desencadear um ciclo de retaliações.
Mahoney concluiu, ‘se chegar ao ponto de a China ser forçada a sair, poderemos ver algum tipo de reciprocidade, apreensão de ativos americanos ou ações judiciais para recuperar valor’. A situação na Venezuela, portanto, se configura como um ponto crítico nas relações geopolíticas entre as grandes potências.