China adota postura reativa em conflitos globais: “Como nos tratam, nós reagimos”
A China observa o cenário internacional de forma pragmática e reativa, adaptando sua conduta com base em como é tratada pelas outras nações. Essa é a análise do professor Rodrigo Zeidan, da NYU Shanghai e da Fundação Dom Cabral, que destaca que a potência asiática não busca ativamente ser um protagonista em todos os conflitos, mas responde às percepções e ações direcionadas a ela.
Zeidan explicou que, embora a China prefira uma ordem internacional calma, ela não hesitará em adotar uma postura de adversária ou inimiga se for percebida e tratada dessa maneira pelos Estados Unidos e pela Europa. Essa dinâmica, segundo ele, molda a maneira como Pequim se posiciona em crises globais, influenciada diretamente pela diplomacia e pelas estratégias adotadas pelas potências ocidentais.
A análise foi divulgada em entrevista ao WW, onde o especialista detalhou as complexas relações geopolíticas e o papel da China em um mundo cada vez mais interconectado e volátil. As informações foram apuradas e checadas por jornalistas da CNN Brasil, que revisaram o texto final. Conforme informações divulgadas pela CNN Brasil.
A estratégia chinesa de observar “de camarote”
Rodrigo Zeidan descreve a posição da China em relação aos conflitos internacionais como a de alguém que assiste a um evento de um local privilegiado, o que ele chama de “assistir de camarote”. Essa metáfora ilustra a capacidade chinesa de observar os desdobramentos globais sem se envolver diretamente em muitas ocasiões. No entanto, o professor ressalta que essa aparente neutralidade não significa que a instabilidade internacional seja benéfica para Pequim.
A China, como um dos maiores importadores de petróleo do mundo, é sensível a flutuações nos preços da commodity. Conflitos que elevam significativamente o custo do petróleo impactam diretamente a economia chinesa, que, apesar de sua resiliência, enfrenta seus próprios desafios. Portanto, uma ordem internacional calma é preferível, embora não necessariamente uma onde os Estados Unidos detenham domínio absoluto. O ideal para a China seria um ambiente estável que favoreça o comércio e o crescimento econômico.
Irã e Ucrânia: estratégias de atrito e o custo da guerra
Ao comentar sobre a capacidade do Irã de desgastar os Estados Unidos e figuras como Donald Trump em um eventual conflito prolongado, Zeidan traça um paralelo com a Ucrânia. Ambos os países, segundo o professor, buscam “vencer pelo atrito”, demonstrando que o custo de um conflito militar se torna proibitivo para seus oponentes. Essa tática visa esgotar os recursos e a vontade política do adversário, tornando a paz uma alternativa mais atraente do que a continuidade da hostilidade.
A estratégia de atrito é particularmente eficaz contra potências que podem sofrer desgaste interno ou pressão pública devido a conflitos prolongados e custosos. No caso do Irã, a capacidade de impor um custo elevado aos Estados Unidos, seja em termos financeiros, militares ou políticos, é um fator chave em sua política externa. A Ucrânia, por sua vez, tem demonstrado essa capacidade em sua resistência à invasão russa, contando com o apoio ocidental.
Limitações da influência chinesa em conflitos
Apesar de seu poder econômico e influência crescente, a China enfrenta limitações em sua capacidade de mediar ou influenciar conflitos internacionais. Zeidan aponta que tentativas anteriores de exercer esse papel, como no caso da Rússia, não obtiveram sucesso significativo. Mesmo com uma economia dez vezes maior que a russa, a China encontra barreiras para impor sua vontade ou ditar rumos em assuntos soberanos de outros países.
As relações diplomáticas e a proximidade histórica desempenham um papel crucial. No caso do Irã, as limitações são ainda maiores, pois os laços entre China e Irã não são tão estreitos quanto os estabelecidos com a Rússia. Isso demonstra que o poder econômico por si só não se traduz automaticamente em influência política direta em todos os cenários globais, especialmente quando se trata de intervenções em disputas complexas e sensíveis.
A máxima chinesa: “Reagimos da forma que nos tratam”
A essência da política externa chinesa, segundo Zeidan, pode ser resumida em uma máxima simples e direta: “A China tem uma posição muito simples. Ela reage da forma que tratam ela. Se tratarem como adversário, ela vai ser adversário. Se tratarem como inimigo, ela vai tratar como inimigo”. Essa declaração sublinha a natureza reativa da diplomacia chinesa, que se molda com base nas ações e percepções externas.
Essa abordagem significa que a forma como os Estados Unidos e os países europeus decidem interagir com a China tem um impacto direto e significativo em como Pequim se posicionará nos conflitos globais. Se a China for tratada com desconfiança e hostilidade, é provável que adote uma postura mais assertiva e defensiva. Por outro lado, uma abordagem mais colaborativa e respeitosa poderia incentivar uma participação mais construtiva da China na resolução de crises internacionais.
O impacto da instabilidade global na economia chinesa
Embora a China possa parecer distante de alguns conflitos, a instabilidade internacional tem repercussões diretas em sua economia. Como mencionado anteriormente, a dependência de importações de petróleo torna o país vulnerável a choques de preços causados por tensões geopolíticas. Uma escalada de conflitos no Oriente Médio, por exemplo, poderia elevar os custos de energia e afetar a produção industrial chinesa.
Além do petróleo, a instabilidade global pode perturbar as cadeias de suprimentos, afetar a demanda por produtos chineses em mercados internacionais e gerar incerteza econômica, o que desestimula investimentos. Portanto, uma ordem internacional calma e previsível é fundamental para a continuidade do crescimento econômico chinês e para a estabilidade social interna. A China busca um ambiente propício para seus negócios e para a manutenção de sua influência global.
China e a busca por uma ordem internacional diferente
A China não almeja uma volta à antiga ordem mundial dominada pelos Estados Unidos, mas sim uma reconfiguração que reflita seu crescente poder e influência. O desejo por uma “ordem internacional calma” expresso por Zeidan não implica a manutenção do status quo liderado pelo Ocidente, mas sim um ambiente mais multipolar e equilibrado, onde a China tenha um papel mais proeminente.
Essa busca por uma nova ordem se manifesta em iniciativas como a Nova Rota da Seda (Belt and Road Initiative), que visa expandir a conectividade e a influência econômica chinesa globalmente. A posição da China em conflitos, portanto, é também uma forma de testar os limites da ordem existente e de moldar a futura arquitetura de segurança e cooperação internacional, de acordo com seus próprios interesses e visão de mundo.
O papel dos EUA e da Europa na definição da postura chinesa
A maneira como os Estados Unidos e a Europa escolhem interagir com a China é um fator determinante para a postura que Pequim adotará em questões de segurança e diplomacia global. Zeidan enfatiza que a percepção chinesa de ser tratada como adversária ou inimiga levará a uma resposta correspondente. Essa dinâmica de causa e efeito é central para entender a política externa chinesa atual.
Se as potências ocidentais optarem por uma abordagem de confronto, impondo sanções ou restrições comerciais, a China tenderá a se fechar e a fortalecer suas alianças estratégicas, possivelmente com países que compartilham de visões críticas em relação à ordem liderada pelos EUA. Por outro lado, um diálogo aberto e a busca por áreas de cooperação mútua poderiam mitigar tensões e incentivar uma China mais engajada em soluções pacíficas para os desafios globais.