A China encerrou o ano de 2025 com um feito notável: o maior superávit comercial de sua história. Este resultado impressionante, de US$ 1,2 trilhão, marca um aumento de 20% em relação ao ano anterior e sinaliza uma reconfiguração significativa das estratégias comerciais globais do gigante asiático.
Em um período marcado por intensa pressão comercial dos Estados Unidos, a nação asiática demonstrou uma capacidade ímpar de adaptação. Empresas chinesas aprofundaram sua diversificação, reduzindo a dependência do mercado americano e expandindo sua presença em mercados emergentes.
Essa façanha, embora celebrada internamente como um triunfo, projeta um cenário de crescente atrito nas relações comerciais internacionais. Os dados recentes indicam que a estratégia chinesa de desviar o foco dos EUA para outras regiões consolidou a sua posição econômica global.
Desafios e a Estratégia de Diversificação
Apesar da retórica e das tarifas impostas, a China conseguiu não apenas manter, mas expandir seu fluxo comercial. As exportações para os EUA, historicamente o maior mercado individual do país, registraram uma queda de 19,5% em 2025, em comparação com o ano anterior, mas essa diminuição foi compensada.
A estratégia de Pequim envolveu uma guinada decisiva para mercados emergentes e outras economias. As exportações para a África subiram 26,5%, para a Asean (Associação de Nações do Sudeste Asiático) aumentaram 14%, para a União Europeia 9% e para a América Latina 8%, em comparação com o ano anterior.
Essa diversificação não é apenas uma resposta às tensões, mas uma consolidação das estratégias desenvolvidas por empresas chinesas desde a primeira guerra comercial de Donald Trump, demonstrando a capacidade de Pequim de “seguir em frente” diante de um “ambiente externo complexo e desafiador”, conforme afirmou Wang Jun, vice-administrador da alfândega chinesa, em coletiva de imprensa.
Setores Chave Impulsionam a Resiliência Chinesa
O superávit comercial foi fortemente impulsionado por setores de alta tecnologia e produtos de valor agregado. As exportações de bens de alta tecnologia, que incluem máquinas-ferramenta de ponta e robôs industriais, cresceram 13% em relação ao ano anterior.
Um destaque ainda maior foi o desempenho de produtos da “nova economia”. As exportações de veículos elétricos, baterias de lítio e produtos fotovoltaicos, como painéis solares, registraram um crescimento robusto de 27%.
Esses números sublinham a aposta da China em inovação e manufatura avançada, consolidando sua imagem de maior fabricante mundial e desafiando a percepção de que suas exportações seriam facilmente abaladas por barreiras comerciais.
Tensões Comerciais Globais e Negociações com os EUA
Apesar do sucesso interno, o superávit comercial recorde da China em 2025 eleva as preocupações internacionais. Parceiros comerciais em todo o mundo expressaram receio com o que consideram práticas comerciais desleais e uma entrada maciça de produtos chineses de baixo custo.
O presidente francês, Emmanuel Macron, durante uma visita recente a Pequim, descreveu o crescente desequilíbrio comercial de seu país com a China como “insustentável”. Líderes europeus instaram Pequim a aumentar o consumo interno e a conter as exportações, temendo o impacto em suas indústrias nacionais e empregos.
No entanto, as fortes exportações deram a Pequim confiança nas negociações com os EUA. Em outubro, o presidente Trump e o líder chinês Xi Jinping se encontraram, concordando com uma trégua que reduziu as novas tarifas sobre produtos chineses para 20%, após terem chegado a 145% no início daquele ano.
Apesar da trégua, a tensão persiste. Donald Trump anunciou recentemente que países que fazem negócios com o Irã enfrentarão uma nova tarifa de 25%, o que poderia novamente impactar a China, um importante parceiro econômico de Teerã. Exportadores chineses se preparam para mais atritos, já que Trump tem a redução da dependência da China como um pilar de seu governo.
Perspectivas Futuras e Desafios Internos
Analistas questionam a sustentabilidade do nível de exportações da China para o resto do mundo no próximo ano. Muitos países estão buscando maneiras de proteger seus mercados domésticos do que é chamado de “excesso de capacidade industrial” chinesa, o que pode gerar novas barreiras.
Internamente, a dependência da China das exportações como principal motor de crescimento está ligada a desafios significativos. A economia do país ainda é afetada por uma crise contínua no setor imobiliário, e as autoridades têm lutado para impulsionar o consumo interno.
O modelo desejado por Pequim, onde o vasto setor manufatureiro seja impulsionado por uma forte demanda tanto interna quanto externa, ainda é um objetivo a ser plenamente alcançado. O cenário para 2026, portanto, promete ser de contínuas adaptações e desafios para a segunda maior economia do mundo.