Alerta de calamidade pública em Juiz de Fora após chuvas torrenciais deixarem 24 mortos e centenas de desabrigados

As chuvas que assolam a Região Sudeste do país desde a noite de segunda-feira (23/2) provocaram uma tragédia na Zona da Mata de Minas Gerais, com um balanço oficial de ao menos 30 mortes, segundo o Corpo de Bombeiros. Juiz de Fora, uma das cidades mais afetadas, registra 24 óbitos confirmados e ao menos 37 desaparecidos. A cidade decretou estado de calamidade pública, reconhecido pelo governo federal, diante de um cenário de devastação com deslizamentos de terra e inundações.

O volume de chuva em Juiz de Fora foi alarmante, atingindo cerca de 80% da média esperada para todo o mês em apenas sete horas. A prefeita Margarida Salomão (PT) declarou ser o dia mais triste de seu governo, lamentando as perdas de vida decorrentes dos fenômenos climáticos. Ao menos 20 imóveis foram soterrados, principalmente nas regiões sudeste, leste e nordeste da cidade, deixando 440 pessoas desabrigadas, que estão sendo acolhidas em três escolas municipais.

Entre as vítimas em Juiz de Fora, a notícia mais dolorosa é a perda de três alunos da Escola Municipal Vereador Raymundo Hargreaves: Maitê Cedlia Pereira Fernandes, e os irmãos Arthur Rafael de Oliveira Machado e Miguel Carlos da Silva Machado. A mãe de Arthur e Miguel, Rosimeire do Carmo de Oliveira Souza, também faleceu na tragédia. A diretora da escola, Delba Vieira Garcia, descreveu a situação como devastadora e caótica, com previsão de mais chuva, e informou que a instituição abriu as portas para receber desalojados.

Tragédia em Juiz de Fora: Escola Municipal lamenta a morte de três alunos e da mãe de um deles

A Escola Municipal Vereador Raymundo Hargreaves se tornou um símbolo da dor que assola Juiz de Fora. Três de seus alunos, Maitê Cedlia Pereira Fernandes, Arthur Rafael de Oliveira Machado e Miguel Carlos da Silva Machado, foram vítimas fatais de um soterramento. A tragédia se agravou com a morte de Rosimeire do Carmo de Oliveira Souza, mãe de Arthur e Miguel, que também perdeu a vida. A diretora da instituição, Delba Vieira Garcia, relatou a comoção e a devastação nos bairros Bom Jardim e Linhares, onde a maioria das vítimas reside.

“Perdemos três alunos soterrados e a mãe de um aluno. A situação dos bairros Bom Jardim e Linhares, onde a maioria mora, está devastadora. Está muito caótica e com previsão de mais chuva”, disse a diretora, evidenciando a gravidade do momento. A escola, que está recebendo doações e desalojados, espera abrigar cerca de 60 pessoas, demonstrando a solidariedade em meio ao desespero. O corpo de bombeiros recebeu reforço de 150 agentes de outras cidades e cães farejadores para auxiliar nas buscas.

No bairro Parque Jardim Burnier, um deslizamento de encosta soterrou 12 imóveis, resultando em ao menos quatro mortes confirmadas e 17 desaparecidos. A escala da destruição em Juiz de Fora levou a prefeita a decretar estado de calamidade pública, medida que foi reconhecida pelo governo federal, sinalizando a urgência e a magnitude do desastre.

Ubá também decreta calamidade pública após rio transbordar e causar a maior enchente da história

A cidade de Ubá, localizada a aproximadamente 100 quilômetros de Juiz de Fora, também foi severamente atingida pelas chuvas. Cerca de 170 mm de chuva caíram em aproximadamente três horas e meia, provocando o transbordamento do rio Ubá, que atingiu 7,82 metros. O rio inundou diversos bairros, causando um cenário de destruição. Seis mortes foram confirmadas na cidade e duas pessoas seguem desaparecidas.

O prefeito de Ubá, José Damato Neto (PSD), também decretou estado de calamidade pública, classificando o evento como a “maior enchente da história” do município. Ele fez apelos urgentes ao governador Romeu Zema (Novo) e ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) por auxílio. A situação em Ubá reflete a vulnerabilidade da região aos eventos climáticos extremos, exigindo ações coordenadas de resposta e recuperação.

O governador Romeu Zema decretou luto oficial de três dias no estado e assegurou que o governo estadual fará “tudo o que estiver ao seu alcance para amenizar esse sofrimento”. A declaração demonstra o reconhecimento da gravidade da situação e o compromisso em oferecer suporte às vítimas e às cidades afetadas pela tragédia.

Governo Federal envia equipes e reconhece calamidade em Minas Gerais e São Paulo

Em resposta à crise, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que está em viagem oficial pela Ásia, determinou o envio de equipes federais para auxiliar os municípios da Zona da Mata Mineira. O governo federal já reconheceu o estado de calamidade pública em Juiz de Fora, com a publicação do decreto no Diário Oficial da União. Lula enfatizou que o foco será em garantir a assistência humanitária, o restabelecimento dos serviços básicos, o auxílio aos desabrigados e o suporte à reconstrução.

O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) informou que o volume acumulado recente na Zona da Mata de Minas Gerais chegou a 209,4 mm, totalizando 589,6 mm em fevereiro. A previsão indica a continuidade das instabilidades, com possibilidade de novos acumulados entre 40 e 60 mm em diferentes regiões do estado nos próximos dias, o que aumenta a preocupação com novos deslizamentos e inundações.

Em São Paulo, a Defesa Civil registra 19 mortes desde o início da Operação Verão, em 1º de dezembro, superando o número de óbitos do ano anterior. O litoral paulista é a região de maior risco, com alerta vermelho para acumulado de chuva até sexta-feira (27/2). Peruíbe, no litoral sul, foi o município mais atingido, registrando 282 mm de chuva entre sábado (21) e segunda (23), 46% acima da média histórica de fevereiro, com 213 desalojados.

Sismólogo descarta relação entre tremor de terra e deslizamentos em Juiz de Fora

Moradores de Juiz de Fora relataram ter sentido um tremor de terra no fim de semana anterior aos deslizamentos causados pelas chuvas. Um abalo sísmico de magnitude 2,1 foi registrado no sábado (21/2). No entanto, o sismólogo Bruno Collaço, da Universidade de São Paulo (USP), descartou qualquer relação entre o fenômeno e a tragédia. Ele explicou que tremores com essa magnitude são comuns no Brasil e não possuem força suficiente para afetar construções ou desencadear deslizamentos.

“Terremotos com magnitude entre 2 e 3 acontecem toda semana em alguma parte do Brasil, e na maioria das vezes as pessoas nem ficam sabendo. Minas Gerais, inclusive, é um dos estados com maior registro de tremores”, afirmou o especialista. Collaço detalhou que, embora de baixa magnitude, o abalo pôde ser percebido devido à pouca profundidade dos sismos no Brasil, que podem ser sentidos a distâncias de 10 a 15 quilômetros do epicentro.

A declaração do sismólogo é crucial para direcionar os esforços de resposta e prevenção para as causas reais do desastre: as chuvas intensas e a ocupação em áreas de risco. A análise científica afasta qualquer especulação sobre a origem dos deslizamentos, focando a atenção na necessidade de infraestrutura adequada e planejamento urbano para mitigar os efeitos de eventos climáticos extremos.

Rio de Janeiro em alerta: idosa morre afogada e cidades da Baixada Fluminense registram desalojados

No Rio de Janeiro, as chuvas também causaram transtornos e perdas. Uma idosa de 85 anos morreu afogada em São João de Meriti, na Baixada Fluminense, após ficar presa em sua residência durante o temporal. Cerca de 600 pessoas estão desalojadas no município, que decretou situação de emergência. A Rodovia Presidente Dutra chegou a ser interditada por cerca de duas horas devido a alagamentos.

Outras cidades da Baixada Fluminense, como Duque de Caxias e Nova Iguaçu, seguem em alerta para cheias. Na capital, o Centro de Operações registrou mais de 90 ocorrências, incluindo alagamentos, bolsões d’água e quedas de árvores. A situação no Rio de Janeiro demonstra a abrangência dos impactos das chuvas na Região Sudeste, exigindo atenção e ações de resposta em diversas frentes.

O cenário de emergência se estende a outras regiões. Em São Paulo, o litoral enfrenta os maiores riscos, com alertas de alto risco para movimentos de massa emitidos pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden). Deslizamentos bloquearam rodovias importantes no litoral norte, como a Oswaldo Cruz e a serra antiga da Tamoios, evidenciando a fragilidade da infraestrutura diante das fortes chuvas.

O que são deslizamentos de terra e por que eles ocorrem com chuvas intensas

Os deslizamentos de terra são movimentos rápidos de massas de solo e rochas encosta abaixo, geralmente desencadeados por fatores naturais ou antropogênicos. No contexto das chuvas intensas em Minas Gerais, a principal causa é a saturação do solo. Quando o solo absorve uma quantidade excessiva de água, o peso aumenta e a força de atrito que mantém as partículas unidas diminui, facilitando o escorregamento.

A topografia acidentada da Zona da Mata de Minas Gerais, combinada com a ocupação desordenada em áreas de encosta, agrava o risco. A remoção da vegetação nativa, que atua como um elemento estabilizador do solo, e a construção de moradias em locais inadequados aumentam significativamente a vulnerabilidade a esses eventos. A urbanização sem planejamento adequado, muitas vezes, ignora os riscos geológicos inerentes a essas regiões.

A combinação de chuvas torrenciais, como as registradas recentemente, com a ocupação de encostas e a falta de infraestrutura de drenagem adequada cria um cenário propício para tragédias como a ocorrida em Juiz de Fora. A falta de sistemas eficientes de contenção e alerta precoce também contribui para o alto número de vítimas e a extensão dos danos materiais.

Prevenção e resposta: o papel das autoridades e da sociedade civil diante de desastres climáticos

A tragédia em Minas Gerais e em outras regiões do Sudeste reforça a urgência de políticas públicas eficazes de prevenção e resposta a desastres climáticos. O reconhecimento do estado de calamidade pública por parte das prefeituras e do governo federal é um passo importante para a liberação de recursos e a mobilização de esforços de socorro e reconstrução. No entanto, é fundamental que essas ações sejam acompanhadas por investimentos contínuos em:

  • Mapeamento e monitoramento de áreas de risco: Identificar e monitorar constantemente as áreas mais suscetíveis a deslizamentos e inundações.
  • Urbanização planejada: Evitar a ocupação de encostas e áreas de preservação ambiental, com rigor na fiscalização e no licenciamento de construções.
  • Infraestrutura de drenagem e contenção: Investir em sistemas eficientes de escoamento de água e em obras de contenção para estabilizar encostas.
  • Sistemas de alerta precoce: Implementar e aprimorar sistemas de alerta para que a população em áreas de risco seja informada com antecedência sobre a iminência de desastres.
  • Educação e conscientização: Promover campanhas de educação ambiental e conscientização sobre os riscos e as medidas de segurança em caso de chuvas fortes.

A sociedade civil também desempenha um papel crucial, seja através do voluntariado, doações, ou da participação em conselhos e audiências públicas para cobrar ações do poder público. A colaboração entre governo, iniciativa privada e comunidade é essencial para construir cidades mais resilientes e seguras diante dos desafios impostos pelas mudanças climáticas.

Desafios da reconstrução e o impacto a longo prazo nas comunidades afetadas

A reconstrução das áreas atingidas pelas chuvas em Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo será um processo longo e complexo. Além da necessidade de reconstruir moradias e infraestrutura danificadas, é fundamental oferecer suporte psicossocial às famílias que perderam entes queridos e tiveram suas vidas drasticamente alteradas. A recuperação econômica das regiões afetadas também demandará atenção especial.

A tragédia atual serve como um alerta sobre a necessidade de adaptação às mudanças climáticas. Eventos extremos, como chuvas torrenciais e inundações, tendem a se tornar mais frequentes e intensos, exigindo um planejamento urbano e territorial que leve em consideração essa nova realidade. A busca por soluções sustentáveis e a valorização da proteção ambiental são caminhos indispensáveis para garantir um futuro mais seguro.

A solidariedade demonstrada pelas escolas que abrem suas portas para acolher desalojados e as campanhas de doação são exemplos inspiradores da capacidade de mobilização da sociedade. No entanto, é o compromisso contínuo das autoridades em implementar políticas de prevenção e gestão de riscos que determinará a capacidade do país de enfrentar e superar futuras adversidades climáticas.

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