O Epicentro da Disputa Territorial: Cidades-Fortaleza Ucranianas Tornam-se Chave para a Paz
A invasão russa à Ucrânia, que completou quatro anos, encontra nas cidades-fortaleza do leste ucraniano o ponto nevrálgico das negociações de paz. Localidades como Sloviansk, Kramatorsk e Kostiantynivka, que resistem bravamente há anos, tornaram-se pilares da defesa ucraniana e, consequentemente, o principal entrave para a Rússia consolidar seus objetivos territoriais. As conversas, mediadas pelos Estados Unidos, esbarram nas exigências de Moscou sobre essas regiões, transformando a resistência em um fator decisivo para o futuro do conflito.
Nos últimos meses, esforços diplomáticos intensificados, com encontros no Oriente Médio e na Suíça, avançaram em questões técnicas como trocas de prisioneiros e cessar-fogo. No entanto, o cerne das negociações, que envolve o destino do Donbas e garantias de segurança, permanece em um impasse significativo. A meta americana de um acordo até meados do ano enfrenta desafios consideráveis diante da intransigência russa em relação ao controle territorial.
O destino de Donetsk, em particular, está intrinsecamente ligado à capacidade de Kiev de manter o controle sobre suas cidades-fortaleza. A Rússia alega ter conquistado Pokrovsk, mas a Ucrânia sustenta que a cidade ainda é parcialmente contestada. A manutenção dessas posições defensivas é crucial para a estratégia de atrito da Ucrânia e para pressionar Moscou a fazer concessões nas mesas de negociação, conforme informações de especialistas em relações internacionais.
Donbas: O Coração Territorial das Ambições Russas e o Foco da Resistência Ucraniana
O conflito na Ucrânia tem no leste do país, especificamente na região do Donbas, seu principal palco e foco de disputa. A Rússia ambiciona consolidar seu domínio sobre cinco províncias estratégicas: a Crimeia, anexada em 2014, Luhansk, que se encontra praticamente sob controle russo, e as províncias de Donetsk, Zaporizhzhya e Kherson, onde o controle é parcial e disputado.
Enquanto em Kherson e Zaporizhzhya o Rio Dnipro serve como uma barreira natural para o avanço russo, a província de Donetsk apresenta um cenário diferente. A contenção do avanço de Moscou depende quase inteiramente das fortificações militares construídas pela engenharia ucraniana. Essas estruturas defensivas, erguidas ao longo dos anos, transformam cidades como Sloviansk, Kramatorsk e Kostiantynivka em verdadeiros escudos contra as ambições territoriais russas, tornando-as o principal ponto de bloqueio para o cumprimento integral dos objetivos do Kremlin.
Segundo o coronel da reserva Marco Antonio de Freitas Coutinho, especialista em relações internacionais, a importância dessas cidades transcende o aspecto militar, sendo também um símbolo de resistência e um componente vital da estratégia defensiva ucraniana. A capacidade de manter o controle sobre essas localidades é fundamental para prolongar a capacidade de resistência da Ucrânia e desgastar o inimigo, uma tática conhecida como guerra de atrito.
O Legado de Fortificações: Como Cidades Ucranianas Viraram Bastilhas Modernas
As cidades-fortaleza no leste da Ucrânia não surgiram da noite para o dia. Sloviansk, Kramatorsk e Kostiantynivka foram strategicamente fortificadas durante a Guerra do Donbas, que se estendeu de 2014 a 2022. Nesse período, as forças ucranianas investiram na construção de um robusto sistema defensivo, que inclui quilômetros de trincheiras, fossos anticarro projetados para deter veículos blindados, bunkers reforçados e extensos campos minados. Essa infraestrutura foi meticulosamente planejada para impedir qualquer avanço das forças separatistas apoiadas pela Rússia.
O coronel Marco Antonio de Freitas Coutinho destaca que, na província de Donetsk, onde a ausência de barreiras naturais relevantes torna a defesa mais desafiadora, a engenharia militar ucraniana se tornou o principal baluarte. A complexidade e a extensão dessas fortificações são um testemunho da determinação ucraniana em defender seu território, transformando essas cidades em verdadeiras bastilhas modernas contra o avanço russo.
Além da proteção militar, essas cidades concentram importantes eixos de transporte e infraestrutura logística. Essa característica eleva ainda mais a relevância estratégica e econômica delas, tornando sua conquista um objetivo primordial para a Rússia, não apenas pelo controle territorial, mas também pela capacidade de desarticular a logística ucraniana na região.
O Impacto da Conquista de Donetsk: Um Objetivo Territorial Russo em Jogo
A eventual conquista de Sloviansk, Kramatorsk e Kostiantynivka pelas forças russas representaria um marco significativo no conflito, pois simbolizaria o domínio completo da província de Donetsk. Esse seria um dos principais objetivos territoriais que a Rússia declarou desde o início da invasão em larga escala, em fevereiro de 2022. A obtenção desse controle pressionaria Kiev a fazer concessões mais significativas nas negociações de paz.
O analista Marco Antonio de Freitas Coutinho explica que a exigência russa de que os ucranianos deixem essas cidades e suas áreas municipais é um ponto central nas discussões para um cessar-fogo. A Ucrânia, por sua vez, resiste a essa demanda, pois ceder tais posições seria reconhecer, ainda que indiretamente, os ganhos territoriais da Rússia e enfraquecer sua própria capacidade de negociação e defesa. A guerra de atrito ucraniana se baseia justamente na capacidade de manter essas linhas defensivas, desgastando o inimigo e elevando o custo de uma eventual paz imposta.
A complexidade da situação é amplificada pelo fato de que a Rússia alega já ter consolidado o controle de Pokrovsk, uma das cidades que compunham o cinturão defensivo. No entanto, a Ucrânia contesta essa afirmação, indicando que a luta pela cidade ainda persiste. Essa disputa em Pokrovsk reflete a intensidade dos combates e a importância estratégica que cada centímetro de território possui no atual cenário do conflito.
O Papel Estratégico de Outras Cidades: Kupyansk e Zaporizhzhya na Balança
Além do cinturão defensivo em Donetsk, outras cidades ucranianas ganharam relevância estratégica e se tornaram focos de atenção nas negociações e no campo de batalha. Kupyansk, localizada na província de Kharkiv, e Zaporizhzhya, capital da província de mesmo nome, são exemplos notórios.
No caso de Kupyansk, a região de Kharkiv tem sido alvo de interesse russo por diversas razões. Um dos motivos é a busca por ampliar o estoque de “moedas de troca” territoriais, que podem ser usadas como barganha em futuras negociações. Além disso, o controle de Kupyansk permitiria à Rússia estabelecer uma zona de amortecimento mais sólida na faixa de fronteira terrestre entre os dois países, reduzindo a vulnerabilidade de suas próprias posições.
Quanto a Zaporizhzhya, a capital regional não possui o mesmo nível de fortificação que as cidades-fortaleza de Donetsk. Isso se deve, em parte, ao fato de a cidade ter permanecido, inicialmente, mais distante da linha de frente. Contudo, com o avanço russo em outras frentes e a dificuldade em romper as defesas de Sloviansk e Kramatorsk, Moscou teria redirecionado seus esforços para esse setor. Atualmente, a frente de Zaporizhzhya figura entre as mais ativas em termos de número de combates, indicando a crescente importância estratégica da região.
O Ponderamento Político e Simbólico: O Que Está em Jogo nas Negociações
Para estrategistas internacionais como Cezar Roedel, as cidades-fortaleza do Donbas não são apenas pontos de controle militar, mas também concentram um peso político e um valor simbólico imensos nas negociações de paz. No plano militar, elas impedem que a Rússia declare o controle pleno do Donbas ou avance com facilidade sobre o restante do país.
Politicamente, a cessão dessas cidades por parte da Ucrânia significaria um reconhecimento, ainda que indireto, de que a invasão russa produziu ganhos concretos para o Kremlin. Em um conflito onde a narrativa da vitória é crucial para ambos os lados, o controle dessas localidades pode definir quem poderá alegar ter “vencido” a guerra, mesmo que, como lembra Roedel, seja uma guerra de atrito, inerentemente custosa e sem vencedores claros.
Se o controle dessas regiões permanecer com Kiev, a Ucrânia reforça sua imagem de resistência e demonstra que a Rússia não cumpriu totalmente seus objetivos no Donbas. Por outro lado, se forem cedidas ou tomadas por Moscou, elas se tornam uma prova concreta para o público interno russo de que a meta territorial foi alcançada, legitimando o esforço de guerra.
A Pressão Americana por um Acordo e as Difíceis Escolhas de Kiev
A disposição dos Estados Unidos, mediadores das negociações, em considerar concessões territoriais como parte de um eventual acordo de paz coloca uma pressão direta sobre o governo ucraniano. A Casa Branca, buscando uma saída para o conflito, pode estar inclinada a aceitar trocas territoriais como um dos pilares de um cessar-fogo duradouro.
Nesse cenário, o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky pode se ver diante de duas opções difíceis. A primeira seria reconhecer oficialmente as perdas territoriais em um acordo de paz, formalizando juridicamente a cessão das áreas ocupadas pelo Kremlin. Essa seria uma admissão dolorosa, mas que poderia trazer o fim das hostilidades e a possibilidade de reconstrução.
A segunda opção seria buscar um congelamento da atual linha de frente sem o reconhecimento jurídico das perdas, adiando a definição sobre o status dos territórios em disputa. Esse formato, no entanto, dependeria de robustas garantias de segurança por parte do Ocidente, as quais, segundo analistas, ainda não estão claras. A decisão sobre qual caminho seguir será crucial para o futuro da Ucrânia e para a estabilidade geopolítica global.
Precedente Global: O Risco de Fronteiras Mudarem pela Força
A inclusão do reconhecimento formal das áreas ocupadas pela Rússia em um acordo de paz enviaria um sinal preocupante para a comunidade internacional. A possibilidade de fronteiras serem alteradas pela força, como defendido por Moscou no caso do Donbas, criaria um precedente perigoso e “tóxico”, segundo o estrategista Cezar Roedel.
Tal cenário colidiria diretamente com o princípio fundamental do direito internacional público de não aquisição territorial pela força. A comunidade internacional tem se pautado, desde o fim da Segunda Guerra Mundial, na ideia de que a integridade territorial dos Estados deve ser respeitada, e que mudanças de fronteiras devem ocorrer por meios pacíficos e acordados.
Um exemplo de como essa decisão poderia ter repercussões globais é o caso de Taiwan e da China. A concessão integral do Donbas à Rússia poderia ser interpretada por Pequim como um sinal de que anexações pelo uso da força têm um custo político administrável. Isso poderia encorajar ações futuras e desestabilizar ainda mais a ordem internacional, tornando a resolução do conflito ucraniano um teste crucial para os princípios que regem as relações entre nações.