A capacidade de ver além do presente e antecipar desafios é uma virtude rara, especialmente quando se trata de questões ambientais complexas. Para alguns, essa visão surge da contemplação, como a dos astronautas que, a 400 km de altitude, desenvolvem um afeto visceral pela Terra ao testemunhar sua beleza e vulnerabilidade.

Contudo, para outros, a percepção do futuro se manifesta como um alerta urgente, uma premonição de perigo. Foi exatamente essa a experiência de uma mulher notável que, décadas atrás, enxergou o destino da Amazônia e não hesitou em agir, confrontando a destruição iminente.

Sua história, repleta de ciência e coragem, é um testemunho do poder do conhecimento em primeira mão para forjar convicções e mudar o curso de uma nação. Conforme informações de um artigo recente, essa mulher foi a química Clara Pandolfo, uma figura central e muitas vezes esquecida na defesa da nossa maior floresta.

A Visão de um Futuro Incendiado: O Contexto da Amazônia nos Anos 70

A romancista Samantha Harvey, em sua obra “Orbital”, descreve a escuridão sem cidades onde uma “colcha de retalhos alinhavados por milhares de pontos alaranjados” revela a floresta tropical em chamas, estendendo-se do leste do Brasil até os contrafortes dos Andes. Essa visão apavorante, que evoca um futuro de devastação, não era estranha a Clara Pandolfo.

Nos anos 1970, em plena ditadura militar, o governo brasileiro defendia um plano agressivo de ocupação da mata “na pata do boi”, priorizando a exploração pecuária. A Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (Sudam), órgão onde Pandolfo atuava como diretora de Recursos Naturais, oferecia incentivos fiscais para o desmatamento e a criação de pastagens.

Clara Pandolfo, uma química com profunda compreensão dos ecossistemas, sabia que os solos pobres da Amazônia tornariam essas pastagens insustentáveis, fadadas à degeneração. Ela deplorava a insanidade desse modelo, que via a floresta como um obstáculo a ser removido, e defendia um manejo sustentável da madeira em florestas públicas, muito antes de o conceito se popularizar.

A Luta por Sustentabilidade e o Poder da Ciência

Apesar de seu cargo na Sudam, Pandolfo enfrentava uma forte corrente contrária às suas ideias. O ímpeto de “ocupar para não entregar” guiava as políticas da época, negligenciando os impactos ambientais a longo prazo. No entanto, ela não se resignou à inação diante da crescente ameaça à Amazônia.

Havia uma obrigação legal de manter 50% da mata intacta, um percentual que hoje é de 80% no bioma amazônico. Ciente dessa legislação e da dificuldade de fiscalizar vastas áreas, Pandolfo buscou soluções inovadoras para garantir o cumprimento das normas e frear o desmatamento desenfreado.

Sua perspicácia científica e seu compromisso com a sustentabilidade a impulsionaram a procurar o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) em 1978, com uma proposta revolucionária para a época: usar satélites para fiscalizar se os latifundiários agraciados com incentivos cumpriam a legislação ambiental.

Como Nasceu o Monitoramento por Satélite da Amazônia: O Legado de Prodes

A iniciativa de Clara Pandolfo junto ao Inpe foi a semente do que se tornaria o Programa de Cálculo do Desmatamento da Amazônia (Prodes). Esse sistema, que até hoje é a principal ferramenta de monitoramento por satélite da devastação florestal no Brasil, foi um salto tecnológico e um marco na proteção ambiental.

O Prodes, idealizado por Pandolfo, permitiu uma visão sem precedentes sobre a escala e o ritmo do desmatamento na Amazônia. Ele se tornou crucial para identificar as áreas mais afetadas e para que as autoridades pudessem atuar, mesmo que de forma limitada inicialmente, contra a destruição da floresta.

O impacto do monitoramento por satélite é imensurável, pois a devastação florestal é a maior fonte de gases do efeito estufa emitidos no Brasil. Sem a visão e a persistência de Pandolfo, a compreensão e o combate a essa questão seriam ainda mais desafiadores.

Uma Vida Dedicada à Ciência e ao Meio Ambiente

A história de Clara Pandolfo, uma das primeiras mulheres formadas em química no Brasil e também uma defensora do voto feminino, é detalhada no livro “Clara Pandolfo, Uma Cientista da Amazônia”, escrito por seu neto, Murilo Fiuza de Melo. Essa obra oferece uma visão minuciosa de sua vida e contribuições.

Seu papel pioneiro no monitoramento por satélite da Amazônia também é destacado em “O Silêncio da Motosserra”, de Claudio Angelo e Tasso Azevedo, livro que revelou a muitos, incluindo o autor da fonte original, a importância dessa paraense cuja presciência nos legou uma ferramenta vital para a conservação.

O legado de Clara Pandolfo transcende seu tempo, servindo como inspiração para jornalistas, cientistas e todos aqueles que buscam um futuro mais sustentável para a Amazônia e para o planeta. Sua visão e coragem demonstram que, mesmo em tempos difíceis, a ciência e a ética podem pavimentar o caminho para a proteção do nosso patrimônio natural.

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