Inteligência Artificial Cria Padronização em Discursos de Políticos Brasileiros nas Redes Sociais

Parlamentares brasileiros têm recorrido cada vez mais a modelos de inteligência artificial (IA) para a produção de conteúdo em suas plataformas digitais. A tendência se manifesta através do uso recorrente de clichês retóricos, estruturas sintáticas previsíveis e conclusões moralizantes, características típicas de textos gerados por IA. Essa padronização pode comprometer a originalidade e a eficácia da comunicação política.

A observação de textos com estrutura engessada, excesso de conectivos e uso de travessões para conferir solenidade levanta suspeitas sobre a intervenção de IA. Especialistas apontam que esses padrões, embora eficientes em gerar conteúdo rapidamente, podem diluir a identidade do político e prejudicar a percepção pública.

O fenômeno, que tem sido chamado em inglês de “AI slop” (lixo de IA ou IA desleixada), reflete um uso preguiçoso da tecnologia, focado em poupar esforço em detrimento da qualidade e da personalização. Conforme informações divulgadas por veículos de comunicação, a análise de postagens de políticos revela marcas claras dessa automação, conforme explica o cientista político Felipe Rodrigues, consultor na área.

O Que Caracteriza um Texto Gerado por Inteligência Artificial?

Felipe Rodrigues destaca que alguns padrões são indicadores quase certos do uso de IA na produção de textos políticos. O mais evidente deles é a estrutura de contraste, explorada de forma exagerada em frases como “não apenas X, mas também Y” ou “mais do que tal, é tal coisa”. Esse recurso, embora retoricamente útil, quando superexplorado, denuncia a mão da máquina.

Outro sinal claro é a presença excessiva de conectivos e uma arquitetura textual previsível, com parágrafos de tamanho similar ou frases que seguem um padrão rígido de sujeito, verbo e complemento, repetidamente. “Essas estruturas bem formatadinhas, que não têm muita quebra, que não têm muito toque pessoal, que são muito genéricas, são evidências de um texto de IA”, explica Rodrigues.

Essa uniformidade se deve a um princípio probabilístico. A IA tende a reproduzir padrões que são estatisticamente mais prováveis de serem aceitos ou considerados bem formatados, e os clichês se encaixam perfeitamente nesse cenário. A falta de um treinamento mais aprofundado da IA com a linguagem e o estilo específicos de cada político contribui para a geração desses conteúdos genéricos.

A “AI Slop”: Preguiça na Calibração e o Preço da Genéricos

A característica de “AI slop” descreve conteúdos de inteligência artificial de baixa qualidade, gerados sem o devido cuidado ou personalização. Evitar esses clichês é possível, mas exige um treinamento mais robusto dos modelos de IA, alimentando-os com a personalidade e os padrões de fala dos políticos. No entanto, essa etapa de calibração demanda tempo e esforço, o que muitas vezes é evitado.

Rodrigues aponta que a IA tem sido utilizada nos gabinetes políticos mais como um atalho para facilitar o trabalho do que como uma ferramenta para elevá-lo. O resultado é um produto final mais genérico e menos impactante. “Muita gente usa a IA como muleta, para facilitar, para deixar o trabalho mais fácil, e não necessariamente para deixar o trabalho melhor”, lamenta o especialista.

Um uso virtuoso da IA, segundo ele, seria empregá-la não apenas para agilizar tarefas, mas principalmente para aprimorar a qualidade da comunicação. Contudo, a realidade observada é que muitos assessores, sobrecarregados e com prazos apertados, recorrem à IA como um “assistente genérico” para dar conta da demanda em larga escala.

Perda de Identidade e Eficácia na Comunicação Política

Embora Rodrigues não veja um grande problema ético na adoção de IA, ele ressalta a perda significativa na eficácia da comunicação. “O que o político mais precisa é ocupar um lugar na cabeça do eleitor ou do cidadão. Se você se comunica como todo mundo, com um padrão muito genérico, você não tem identidade nenhuma. E isso solapa o seu posicionamento na cabeça do eleitor”, comenta.

A consequência direta é a dificuldade em se destacar em um cenário digital saturado de informações. A falta de um “toque pessoal” e a previsibilidade dos textos gerados por IA impedem que o político estabeleça uma conexão genuína com seu público. A principal preocupação que políticos e assessores têm trazido para consultores como Rodrigues é justamente como criar textos que não pareçam ter sido produzidos por IA.

A busca por autenticidade e por uma voz própria na comunicação digital se torna um desafio ainda maior quando se depende de ferramentas que tendem à padronização. A personalização do conteúdo, com a linguagem e os valores do político, é fundamental para construir e manter a confiança do eleitorado.

Eleições e o Aumento Previsto do Uso de IA na Comunicação Política

Com a proximidade das eleições, a pressão por publicar em larga escala e com agilidade tende a aumentar. Felipe Rodrigues prevê, consequentemente, um crescimento no uso de IA para gerar postagens em massa nas redes sociais de políticos. Essa demanda por volume pode intensificar o problema da padronização e da perda de qualidade.

Na visão do especialista, esse cenário pode levar a um empobrecimento das discussões durante o período eleitoral. Textos gerados por IA sem o devido treinamento tendem a apresentar conclusões genéricas e vazias, utilizando “truques retóricos” que se encaixam em qualquer contexto, mas que carecem de profundidade e especificidade.

A falta de originalidade nos discursos pode dificultar o debate público qualificado, pois as mensagens se tornam superficiais e repetitivas. Os eleitores podem ter dificuldade em discernir as propostas e os valores de cada candidato, em meio a um mar de mensagens semelhantes.

IA nos Bastidores: Preparação de Respostas e Checagem de Fatos

Além da produção direta de conteúdo para redes sociais, Rodrigues aposta que a IA começará a ser utilizada de forma mais intensa nos bastidores de debates eleitorais. Ferramentas de IA podem ser empregadas para acelerar a checagem de fatos em tempo real e para auxiliar na preparação de respostas rápidas a questionamentos feitos por adversários.

“A checagem de fatos é mais rápida. Você tem um motor de IA funcionando com uma busca muito ampla, com uma precisão muito grande. Você consegue rebater inclusive com fontes um dado que foi citado errado, por exemplo”, explica o cientista político. Essa capacidade de processamento rápido de informações pode dar uma vantagem estratégica aos candidatos.

Em intervalos de debates ou em momentos de réplica, a IA pode auxiliar assessores a compilar informações e a formular argumentos concisos e embasados para o candidato. Essa agilidade na preparação de respostas pode ser crucial para refutar informações incorretas ou para reforçar pontos de vista em momentos decisivos da campanha. Essa aplicação, segundo Rodrigues, aponta para uma tendência clara no futuro da comunicação política.

O Risco de um Discurso Político Genérico e Desconectado

A padronização imposta pela IA pode levar a um discurso político que carece de autenticidade e, consequentemente, de conexão com os anseios da população. Quando todos os políticos soam de forma semelhante, a capacidade de engajar e de mobilizar o eleitorado é drasticamente reduzida.

A comunicação política eficaz exige não apenas clareza e objetividade, mas também a capacidade de transmitir emoções, valores e uma visão de mundo que ressoe com o público. Textos excessivamente genéricos, por mais bem estruturados que sejam, falham em cumprir esse papel fundamental.

A dificuldade em se diferenciar em um ambiente digital onde a atenção é disputada pode levar a uma campanha eleitoral baseada em slogans vazios e em promessas genéricas, sem aprofundamento em questões cruciais para o país. A personalização e a autenticidade, embora mais trabalhosas, permanecem como pilares essenciais para uma comunicação política de sucesso.

A Busca por Autenticidade em Meio à Automação

Diante desse cenário, a demanda por estratégias de comunicação que preservem a autenticidade e a identidade dos políticos tende a crescer. A inteligência artificial pode ser uma aliada poderosa, mas seu uso deve ser criterioso e focado em aprimorar, e não em substituir, a voz humana.

A reflexão sobre como utilizar a IA de forma a complementar a comunicação, mantendo a personalidade do político e aprofundando o diálogo com os eleitores, torna-se um ponto central. A chave está em equilibrar a eficiência tecnológica com a necessidade intrínseca da política de se conectar em um nível humano e pessoal.

A capacidade de um político de se expressar de forma genuína, com linguagem própria e argumentos que reflitam suas convicções e propostas, continua sendo um diferencial competitivo. A inteligência artificial pode auxiliar em diversas frentes, mas a essência da comunicação política reside na capacidade de inspirar, convencer e dialogar com o eleitorado.

O Impacto da IA na Formação da Opinião Pública

A proliferação de textos genéricos e padronizados gerados por IA pode ter um impacto significativo na formação da opinião pública. Se as mensagens políticas se tornam indistinguíveis, os cidadãos podem desenvolver um sentimento de apatia ou desinteresse em relação ao processo político.

A falta de clareza e de distinção entre as propostas e os valores dos diferentes atores políticos pode dificultar a tomada de decisões informadas por parte dos eleitores. Isso pode levar a escolhas baseadas em fatores superficiais, em vez de uma análise ponderada das plataformas apresentadas.

É fundamental que os políticos e suas equipes estejam cientes dos riscos associados ao uso indiscriminado de IA e busquem estratégias que priorizem a autenticidade, a profundidade e a conexão genuína com o público. A transparência sobre o uso de ferramentas de IA também pode ser um fator importante para construir a confiança com os eleitores.

O Futuro da Comunicação Política: IA como Ferramenta, Não Substituta

O futuro da comunicação política provavelmente envolverá uma integração cada vez maior de ferramentas de inteligência artificial. No entanto, o sucesso dessa integração dependerá da capacidade dos profissionais de utilizá-las de forma estratégica e ética.

A IA deve ser vista como uma ferramenta para potencializar a criatividade humana e aprofundar o alcance das mensagens, e não como um substituto para a inteligência, a empatia e a capacidade de conexão de um líder político.

A busca por uma comunicação autêntica e impactante, que ressoe com os valores e as preocupações dos cidadãos, continuará sendo o cerne da comunicação política bem-sucedida, independentemente das ferramentas tecnológicas empregadas.

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