Há 67 anos, desde a Revolução, a ilha de Cuba não vivenciava uma crise econômica tão profunda e abrangente. Os indicadores apontam para um cenário de deterioração sem precedentes, que vai muito além das dificuldades enfrentadas em décadas passadas, como migrações em massa e escassez de alimentos.
O que se observa hoje é um colapso generalizado da rede de proteção social, que sempre foi um pilar do regime cubano. Serviços básicos que antes eram motivo de orgulho, como saúde e educação, agora lutam para funcionar, deixando a população em uma situação de vulnerabilidade extrema.
Este momento crítico é resultado de uma complexa combinação de fatores, incluindo o embargo americano, a queda no apoio venezuelano e problemas internos de gestão, conforme análise de especialistas e relatos coletados sobre a atual realidade cubana.
O Colapso do Dia a Dia: Escassez e Falta de Serviços Essenciais
A vida cotidiana em Cuba é um testemunho da severidade da crise. A costureira Odalis Reyes, de 56 anos, moradora de Havana Velha, relata que os apagões são constantes e duram por horas. “Sim, muitas horas sem eletricidade, muitas, muitas, 14, 15 horas”, disse ela, expressando o medo de que a comida, já tão difícil de conseguir, estrague. “A gente nem sabe mais como vai sobreviver. Somos como robôs humanos.”
A escassez de alimentos é outro drama. Os cartões de racionamento, que antes garantiam cotas mensais de arroz, feijão e outros itens, tornaram-se praticamente inúteis, pois as lojas estatais raramente têm produtos disponíveis. A população se vê em uma busca incessante por itens básicos.
Para conseguir gasolina, a situação é ainda mais crítica. É preciso usar um aplicativo e agendar o atendimento com semanas de antecedência. Um morador de Havana relatou que entrou na fila há três meses e ainda ocupa a posição de número 5.052, um exemplo da burocracia e da lentidão que afetam a vida dos cubanos.
A falta de combustíveis também impactou a coleta de lixo, que se tornou esporádica, elevando o risco de surtos de doenças transmitidas por mosquitos, como dengue e chikungunya. Além disso, medicamentos são quase impossíveis de encontrar, forçando muitos a depender de parentes no exterior.
Nas províncias fora da capital, a situação é ainda mais grave, com a energia podendo faltar por até 20 horas por dia. Omar Everleny Pérez, economista de Havana, resumiu o cenário: “Está escuro, as pessoas estão doentes e não há remédios.”
As Causas da Crise: Embargo, Má Gestão e a Queda do Petróleo Venezuelano
O regime cubano, liderado por Miguel Díaz-Canel, consistentemente atribui a crise em Cuba ao embargo comercial imposto pelos Estados Unidos há décadas. Havana argumenta que as sanções americanas estrangulam a capacidade do país de negociar no mercado internacional, apesar de excluírem alimentos e medicamentos.
Em discurso recente, Díaz-Canel reconheceu a gravidade da situação, afirmando que “corrigir distorções e reanimar a economia não é um slogan”. Ele prometeu “uma batalha concreta pela estabilidade da vida cotidiana, para que os salários sejam suficientes, para que haja comida na mesa, para que acabem os apagões, para que o transporte seja retomado, para que escolas, hospitais e serviços básicos funcionem com a qualidade que merecemos.”
O ditador cubano informou que, ao fim do terceiro trimestre do ano passado, o PIB havia recuado mais de 4%, a inflação disparava e as entregas de alimentos racionados não estavam sendo cumpridas. Entre os objetivos de longa data do regime estão a priorização da produção de alimentos e o aumento da eficiência das empresas estatais.
A queda de Nicolás Maduro na Venezuela e o controle americano sobre o setor petrolífero venezuelano também agravaram a situação. Durante o governo de Hugo Chávez, a Venezuela enviava cerca de 90 mil barris diários de petróleo a Cuba, volume que caiu para 35 mil no último trimestre do ano passado, impactando diretamente o fornecimento de energia na ilha.
Setores cruciais da economia de Cuba, como a indústria de níquel, sofrem com os apagões, que paralisam as fábricas. O turismo, outra fonte vital de receita, também está em baixa. Antes da pandemia, o país recebia cerca de 4 milhões de visitantes anualmente, número que agora tem dificuldade para superar os 2 milhões.
Analistas concordam que, embora as políticas dos EUA tenham prejudicado Cuba, o mau planejamento e a má gestão interna também são fatores determinantes para a crise. Tentativas de ampliar o espaço para a iniciativa privada esbarraram em regulações rígidas e excessivas.
A Luta pela Sobrevivência: Salários Insuficientes e a Ascensão do Setor Privado
Diante do colapso econômico, as micro, pequenas e médias empresas (MPMEs), legalizadas em 2021, tornaram-se uma tábua de salvação para muitos cubanos. Algumas lojas privadas se assemelham a supermercados americanos, oferecendo produtos importados como alimentos da marca Goya e cream cheese Philadelphia.
No entanto, esses produtos têm preços exorbitantes, inacessíveis para a maioria da população que recebe salários em moeda local. A remuneração mensal típica é de 3.000 pesos, o equivalente a menos de US$ 7, enquanto uma cartela com 30 ovos pode custar 3.600 pesos, cerca de US$ 8.
O economista Omar Everleny Pérez destaca a disparidade: “Há comida, e muita, mas os preços são inacreditáveis. Ninguém que vive de salário, nem mesmo um médico, consegue comprar nessas lojas.” Essa realidade cria uma divisão social, onde cerca de um terço dos cubanos recebe ajuda financeira do exterior ou ganha dólares no setor privado, enquanto outro terço, principalmente aposentados, vive em condições de pobreza extrema.
Êxodo e Desesperança: O Futuro Incerto da População Cubana
As duras condições econômicas e sociais impulsionaram protestos em 2021, que foram duramente reprimidos pelo regime. O colapso da economia de Cuba também alimentou um êxodo sem precedentes: cerca de 2,75 milhões de cubanos deixaram o país desde 2020, segundo o demógrafo Juan Carlos Albizu-Campos.
Ele estima que a população real da ilha esteja mais próxima de 8,25 milhões, em contraste com a cifra oficial de 9,7 milhões, evidenciando a magnitude da migração. Com a produção de energia 25% menor do que em 2019, alguns moradores de Cuba chegaram a cozinhar com lenha, um retrocesso que ilustra a gravidade da situação.
Ricardo Torres, economista cubano e pesquisador da American University, afirmou que a economia cubana encolheu pelo terceiro ano consecutivo. “A economia doméstica está em queda livre”, alertou ele, sublinhando a deterioração contínua das condições de vida.
Até mesmo o sistema de saúde, historicamente elogiado, está em colapso. Yoan Nazabal, um barman e motorista de 32 anos em Havana, relatou o choque ao ter que levar o próprio cateter para a cesariana de sua esposa há seis meses. “Todo mundo fala como nosso sistema de saúde é bom e gratuito, e historicamente foi. Nossos médicos são de primeira linha, mas não têm recursos para fazer seu trabalho”, lamentou Nazabal, revelando a dura realidade por trás da fachada dos serviços básicos.