Violência de colonos israelenses força êxodo de comunidade palestina na Cisjordânia
A comunidade palestina de Ras Ein al-Auja, localizada na Cisjordânia, foi completamente esvaziada de seus moradores após uma campanha intensificada de assédio e violência por parte de colonos israelenses. O êxodo forçado de aproximadamente 800 pessoas, incluindo 120 famílias extensas, culminou no final de janeiro, marcando um novo e grave capítulo na escalada de tensões na região e aprofundando a crise humanitária.
A situação é descrita pelo grupo israelense de direitos humanos B’Tselem como uma forma de “limpeza étnica”, destacando a sistemática expulsão de comunidades pastoris de suas terras ancestrais. Suleiman Ghawanmeh, um dos últimos a deixar a aldeia, expressou sua profunda frustração e raiva, afirmando que suas palavras não puderam impedir a desocupação, sentindo-se desamparado diante da pressão contínua.
Este deslocamento de Ras Ein al-Auja representa a 46ª comunidade pastoril a ser forçada a sair da Cisjordânia desde 7 de outubro de 2023, conforme dados da B’Tselem. Este número alarmante evidencia uma política de controle territorial que impacta diretamente a vida e o sustento dos palestinos, conforme reportagem da CNN que detalha a situação no local.
A escalada da violência e o papel dos colonos armados
A violência contínua contra aquela que já foi a maior comunidade pastoril da Cisjordânia aumentou consideravelmente nos últimos meses, intensificando-se ainda mais em janeiro. Moradores e ativistas relatam que colonos armados e mascarados, muitos deles adolescentes, invadiam a comunidade diariamente, aterrorizando as famílias que ali viviam e forçando a partida de muitos.
Suleiman Ghawanmeh, de 44 anos, que partiu com sua família no domingo, 25 de fevereiro, foi categórico ao afirmar que o problema vai além de ataques isolados. “Não fomos deslocados porque um pastor ou um colono nos atacou. Não. A questão é maior do que isso. O pastor é uma ferramenta – um instrumento da ocupação”, declarou Ghawanmeh à CNN, sublinhando a percepção de que os colonos agem como parte de uma estratégia mais ampla e coordenada.
A B’Tselem, organização de direitos humanos israelense, tem monitorado de perto esses eventos e classificado o deslocamento forçado de comunidades como Ras Ein al-Auja como uma forma de “limpeza étnica”. Esta definição reflete a preocupação com a expulsão sistemática de populações palestinas de suas terras, alterando a demografia e o controle territorial da Cisjordânia de maneira irreversível.
Histórico de assédio e a influência dos novos assentamentos ilegais
O assédio contra os moradores de Ras Ein al-Auja não é um fenômeno recente, com relatos de intimidação por parte de colonizadores judeus desde 2010. No entanto, a situação se deteriorou drasticamente após os ataques do Hamas em 7 de outubro de 2023 e a subsequente ofensiva israelense em Gaza, criando um ambiente de maior vulnerabilidade para as comunidades palestinas já fragilizadas.
Desde abril de 2024, quatro novos assentamentos ilegais foram construídos ao redor da vila, segundo o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA). Esses assentamentos cercaram as casas palestinas, intensificando a pressão e o isolamento dos moradores, que se viram cada vez mais encurralados e sem saída para suas atividades diárias.
A CNN tentou conversar com os colonizadores em um desses novos assentamentos, mas foi recusada por dois homens que declararam: “Não aceitamos jornalistas”. Pouco depois, outro colono chegou filmando e chamou a polícia, recusando-se a responder perguntas sobre o suposto assédio aos palestinos em Ras Ein al-Auja. Essa postura dificulta a obtenção de esclarecimentos sobre as motivações e ações desses grupos e a verificação independente dos fatos.
Estratégias de desmantelamento: água, energia e gado como alvos
A campanha de assédio contra Ras Ein al-Auja foi multifacetada, visando desmantelar a infraestrutura e o sustento da comunidade. Moradores, ativistas e vídeos obtidos pela CNN revelam que colonizadores, supostamente provenientes desses novos assentamentos, roubaram ou danificaram reservatórios de água, comprometendo severamente o acesso da comunidade a esse recurso vital e sua capacidade de manter a vida e a agricultura.
Além da água, as linhas de eletricidade foram cortadas, privando as famílias de energia elétrica em suas casas e instalações. Milhares de cabeças de gado, a base econômica de muitas famílias pastoris, foram roubadas, e currais de ovelhas e outras propriedades palestinas foram vandalizados. Esses atos deliberados visam a inviabilizar a permanência das comunidades, tornando a vida insustentável e forçando o deslocamento.
Os moradores e ativistas denunciam que todas essas ações ocorreram com o “apoio ou a inação do exército israelense”. Embora o exército tenha declarado em comunicado que “considera a violência de qualquer tipo com severidade e a condena, pois prejudica a segurança na região”, a experiência no terreno, segundo os palestinos, diverge dessa afirmação, sugerindo uma cumplicidade ou omissão que agrava a situação e a impunidade dos agressores.
O deslocamento como “Nakba” e a memória histórica palestina
Para os palestinos de Ras Ein al-Auja, a expulsão de suas casas não é apenas um evento isolado, mas uma dolorosa repetição de sua história. Enquanto desmontavam suas moradias, homens pichavam as palavras “o último deslocamento 2026” e “a terceira Nakba” em galpões de metal, fazendo uma clara referência à “Nakba” – que significa “catástrofe” em árabe – de 1948.
A Nakba de 1948 marcou a fuga ou expulsão de aproximadamente 700 mil palestinos de suas casas no que hoje é Israel, durante a guerra que levou à criação do Estado. A própria família de Ghawanmeh foi deslocada de uma aldeia perto de Be’er Sheva, no sul de Israel, naquela época, sendo transferida à força para Ramallah. Em 1967, após a Guerra dos Seis Dias, eles foram deslocados novamente, evidenciando um padrão histórico.
Agora, forçados a deixar suas casas pela terceira vez, a família de Ghawanmeh e outros moradores de Ras Ein al-Auja estão acampados a cerca de três quilômetros de sua aldeia, sem saber para onde irão em seguida. Essa experiência de deslocamento contínuo reforça a sensação de uma história de perseguição e a luta pela sobrevivência em suas próprias terras, com a memória da Nakba sempre presente.
Apropriação de terras e o controle israelense sobre o Vale do Jordão
A situação de Ras Ein al-Auja está intrinsecamente ligada a uma política mais ampla de controle territorial por parte de Israel. A aldeia está localizada no sul do Vale do Jordão, uma área estratégica que Israel tem buscado consolidar sob seu domínio. Em junho de 2024, Israel declarou cerca de 3 mil acres do Vale do Jordão, incluindo Ras Ein al-Auja, como terras estatais.
Esta declaração representa a maior apropriação de terras palestinas desde os Acordos de Oslo, conforme a organização israelense de monitoramento dos assentamentos, Peace Now. Na prática, isso significa que a terra não é mais considerada propriedade privada dos palestinos, impedindo-os de usá-la ou acessá-la legalmente, e facilitando a expansão dos assentamentos israelenses de forma acelerada.
A Peace Now afirma que este é “um dos principais métodos pelos quais o Estado de Israel busca exercer controle sobre as terras nos territórios ocupados”. Essa estratégia legaliza a tomada de terras, transformando a posse palestina em uma ocupação ilegal sob a lei israelense, e forçando o deslocamento de comunidades que dependem dessas terras para sua subsistência, alterando a paisagem demográfica e geográfica da região.
Perspectivas futuras e a sensação de “limpeza étnica” contínua
A experiência de Ras Ein al-Auja é vista por muitos palestinos como parte de uma “política sistemática” do governo israelense para “esvaziar as terras palestinas de palestinos”. Haitham Zayed, de 25 anos, que viveu em Ras Ein al-Auja a vida toda, expressou essa convicção, refletindo a desesperança de muitos diante da contínua pressão e da falta de perspectivas de segurança e estabilidade.
Duas semanas antes do êxodo final, quando algumas famílias já começavam a partir devido à intensificação da intimidação, Zayed jurou ficar. “Você acha que se eu for para outro lugar, estarei a salvo dos colonos ou do exército? Não existe lugar na Cisjordânia que seja seguro contra os colonos ou o exército”, disse ele na ocasião, demonstrando a percepção de que a ameaça é generalizada e inescapável para os palestinos.
No entanto, apenas dois dias depois, ele comunicou à CNN que não teve outra opção a não ser partir. “Não há mais vida em Ras Ein al-Auja”, escreveu ele em uma mensagem de texto, com um tom de resignação profunda. “Estamos revivendo a Nakba.” Essa afirmação final encapsula o sentimento de perda, a continuidade de um ciclo de deslocamento e a luta pela existência que marca profundamente a identidade e a história palestina na região.