Trump questiona apoio da Otan no Afeganistão e provoca revolta na Europa, com líderes exigindo desculpas e enfatizando os sacrifícios de suas tropas na guerra.
Um novo comentário do ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre a participação dos aliados da Otan na guerra do Afeganistão (2001-2021) está causando grande repercussão e indignação em diversos países europeus. Trump questionou o nível de ajuda prestada, minimizando o esforço das nações parceiras e levantando dúvidas sobre a confiabilidade mútua dentro da aliança militar.
As declarações do republicano, que já manifestou ceticismo em relação ao Artigo 5º da Otan, que prevê defesa coletiva em caso de ataque, são vistas como um desrespeito aos militares que serviram e aos que perderam suas vidas. A fala surge em um momento em que Trump também justifica seus planos de anexar a Groenlândia, território autônomo dinamarquês, como essencial para a defesa nacional americana.
Líderes e ex-militares da Europa reagiram imediatamente, expressando choque e exigindo um pedido de desculpas. As declarações, divulgadas em entrevista à Fox News, geraram rapidamente uma onda de indignação, conforme apurado por diversas agências de notícias internacionais.
A Polêmica Declaração de Trump
Em entrevista concedida na quinta-feira (22), Donald Trump ironizou a contribuição dos aliados na guerra do Afeganistão, a única vez na história em que o Artigo 5º da Otan foi invocado após os ataques de 11 de setembro de 2001 aos Estados Unidos. Ele questionou a lealdade dos membros da Otan, afirmando: “Eu sempre falo: ‘Eles nos ajudarão, se precisarmos deles?’ E esse é realmente o teste final. E eu não tenho certeza disso. Sei que nós os ajudaríamos, mas eles nos ajudariam?”
O ex-presidente foi ainda mais longe ao criticar a atuação das tropas aliadas no conflito. “Nunca precisamos deles. Nunca realmente pedimos nada a eles. Sabe, eles dizem que enviaram algumas tropas para o Afeganistão, ou isso ou aquilo. E enviaram mesmo, ficaram um pouco para trás, um pouco afastados da linha de frente”, ironizou Trump, minimizando o papel crucial desempenhado por militares de diversas nações da Otan no Afeganistão.
O Sacrifício da Otan no Afeganistão
A guerra no Afeganistão foi um esforço conjunto que envolveu milhares de militares de diferentes países da Otan. Mais de 3,5 mil militares da coalizão que combateu a Al-Qaeda morreram no conflito. Desses, cerca de 2,4 mil eram americanos, mas um número significativo de vidas também foi perdido por outras nações aliadas.
Entre os países da Otan que sofreram grandes perdas, destacam-se o Reino Unido, com 457 mortos, o Canadá, com 158, e a França, com 90 militares falecidos. Esses números sublinham o pesado custo humano e o profundo sacrifício que os aliados pagaram em nome da segurança internacional e em resposta à invocação do Artigo 5º.
Reação Europeia: Pedidos de Desculpas e Indignação
As palavras de Trump foram recebidas com forte repúdio na Europa. Nesta sexta-feira (23), o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, afirmou que Trump deveria pedir desculpas pela declaração. “Não me surpreende que [a entrevista] tenha causado tanto sofrimento aos entes queridos daqueles que foram mortos ou feridos”, disse Starmer, conforme informações da CNN. “Se eu tivesse me expressado mal dessa forma ou dito essas palavras, certamente me desculparia.”
Na Polônia, a reação também foi veemente. Roman Polko, general polonês da reserva e ex-comandante que serviu no Afeganistão e no Iraque, cobrou um pedido de desculpas, declarando que Trump “cruzou uma linha vermelha”. Polko enfatizou o custo da aliança: “Pagamos com sangue por esta aliança. Sacrificamos verdadeiramente nossas próprias vidas.”
Wladyslaw Kosiniak-Kamysz, vice-primeiro-ministro e ministro da Defesa polonês, usou o X (antigo Twitter) para reforçar o compromisso de seu país. Ele destacou que o exército polonês participou de missões no Afeganistão e no Iraque, entre outras, e que a Polônia “é e sempre será uma aliada responsável e confiável”. Kosiniak-Kamysz concluiu que “Os momentos trágicos em que nossos soldados morreram demonstraram que estamos dispostos a pagar o preço máximo em defesa da segurança internacional e da segurança da Polônia. Esse sacrifício jamais será esquecido e não pode ser minimizado. A Polônia é uma aliada confiável e comprovada, e nada mudará isso.”