A China emergiu como uma força global incontestável no mercado de terras raras, um grupo de 17 metais essenciais para a economia moderna, desde motores elétricos a mísseis. Este domínio, que hoje representa cerca de 90% da produção mundial, não é acidental, mas sim o resultado de um planejamento estratégico de longo prazo.
A jornada começou longe dos laboratórios de alta tecnologia, em 1964, com a descoberta de um vasto depósito perto de Baotou, no norte do país. Essa descoberta foi um ponto de virada que moldou as décadas seguintes da política industrial e tecnológica chinesa.
O controle de Pequim sobre as terras raras confere um poder geopolítico imenso, influenciando cadeias industriais globais e tecnologias limpas. Entenda como a China construiu essa hegemonia, conforme informações divulgadas.
As Raízes de um Império: A Descoberta e a Visão Estratégica Inicial
Em 1964, geólogos chineses fizeram uma descoberta monumental: uma mina de ferro perto de Baotou abrigava o maior depósito conhecido de terras raras. Naquela época, Deng Xiaoping, uma figura de alto escalão do Partido Comunista, visitou a área e estabeleceu uma prioridade estratégica clara: desenvolver o aço e, simultaneamente, as terras raras.
Essa diretriz inicial se mostraria decisiva. Nos anos 1970, mesmo em meio à Revolução Cultural, o Exército de Libertação Popular lançou programas de pesquisa focados nos usos militares desses metais. Um nome crucial nesse avanço foi o químico Xu Guangxian.
Xu Guangxian foi o responsável por desenvolver um método barato e eficiente para a purificação das terras raras, superando um gargalo tecnológico que impedia sua exploração em larga escala. Esse desenvolvimento foi fundamental para o futuro da indústria chinesa.
Consolidação e Aquisição de Tecnologia: O Salto para a Indústria Global
Após a morte de Mao Tsé-Tung, Deng Xiaoping aprofundou a agenda de priorizar ciência e tecnologia. Nos anos 1980 e 1990, ao lado de Wen Jiabao, um geólogo que se tornaria primeiro-ministro, Pequim reorganizou um setor fragmentado.
Foram fechadas minas ilegais, o contrabando foi reduzido e o controle estatal sobre toda a cadeia produtiva das terras raras foi consolidado. Nesse período, as aplicações dos metais ainda eram relativamente simples.
A mudança veio com a descoberta, nos Estados Unidos e no Japão, de ímãs ultrapotentes feitos a partir desses metais, essenciais para motores elétricos e eletrônicos. Sem dominar essa tecnologia, a China optou por comprá-la.
O episódio mais emblemático foi a venda, em 1995, da americana Magnequench, uma subsidiária da General Motors, para um consórcio que incluía empresários chineses com fortes laços estatais. Poucos anos depois, a produção foi transferida para a China, encerrando as operações nos EUA e ensinando ao país como fabricar ímãs de terras raras em escala industrial.
Geopolítica e Controle Total: O Poder das Terras Raras como Arma Estratégica
O peso geopolítico do controle chinês sobre as terras raras ficou evidente em 2010. Naquele ano, Pequim suspendeu discretamente as exportações desses minerais ao Japão, em meio a uma disputa territorial por ilhas ao norte de Taiwan.
O embargo forçou Tóquio a negociar e, internamente, revelou fragilidades chinesas, como o contrabando. A resposta foi uma repressão dura, que colocou o setor definitivamente sob comando estatal, reforçando o poder de Pequim.
Sob a liderança de Xi Jinping, as terras raras passaram a ser tratadas explicitamente como um recurso estratégico. Em 2024, a China impôs novos controles de exportação, impactando cadeias industriais no Ocidente e pressionando os Estados Unidos em negociações comerciais.
Para analistas, o impacto desses controles só encontra paralelo no embargo do petróleo dos anos 1970, demonstrando a importância crucial das terras raras na política internacional atual.
O Futuro do Domínio: Investimento em Ciência e Tecnologia Avançada
Atualmente, Pequim busca consolidar sua vantagem investindo pesadamente em educação e pesquisa. Dezenas de universidades chinesas oferecem programas especializados em terras raras, enquanto países como EUA e Europa carecem de formação equivalente.
O resultado é um domínio que não se limita apenas à extração, mas se estende ao refino e às aplicações mais avançadas desses minerais. A China possui centenas de cientistas dedicados a explorar novas tecnologias ligadas às terras raras.
Um exemplo notável é uma refinaria em Wuxi, perto de Xangai, onde técnicos passaram sete anos refinando o disprósio, uma terra rara, a um grau extraordinário de pureza. Essa refinaria é hoje a única fonte mundial desse elemento, usado em capacitores presentes nos chips de inteligência artificial Blackwell, da Nvidia.
Recentemente, uma empresa controlada pelo Estado chinês adquiriu a maior parte das ações dessa refinaria, que até o ano passado pertencia à canadense Neo Performance Materials. Três dias após a compra, em 4 de abril, Pequim interrompeu as exportações de disprósio e de outros seis tipos de terras raras para os Estados Unidos e seus aliados.
Em outubro, a China adotou novos controles de exportação que lhe permitiram reter o fornecimento de terras raras e de ímãs de terras raras, forçando o então presidente dos EUA, Donald Trump, a ceder em tarifas. Esse movimento demonstra a crescente influência da China no cenário global através do controle desses recursos vitais.