A narrativa sobre a prisão de um chefe de Estado pode ser moldada de diversas formas, especialmente quando há um forte viés ideológico envolvido. Na Venezuela, a TV chavista Telesur demonstrou maestria nessa arte, reclassificando a captura de Nicolás Maduro como um ‘sequestro imperialista’.

Essa transformação não foi um ato isolado, mas o ápice de uma estratégia de comunicação meticulosamente planejada. Ela visava deslegitimar a ação americana e consolidar a imagem de Maduro como vítima de uma agressão externa, em vez de um líder detido por acusações graves.

De acordo com informações detalhadas, a emissora, criada para combater a ‘mídia hegemônica capitalista’, utilizou cada ferramenta à sua disposição para construir uma realidade paralela, onde a verdade dos fatos foi substituída por uma versão conveniente ao regime.

O Discurso Antes da Virada

Na noite de 31 de dezembro, Nicolás Maduro concedeu sua tradicional entrevista de fim de ano à Telesur. A conversa, gravada em um suposto carro particular dirigido pelo próprio líder, apresentava um tom quase conciliador.

Maduro afirmou ao povo dos EUA que, na Venezuela, existia um ‘povo amigo’. Questionado sobre uma possível intervenção americana, ele desconversou, dizendo ter um ‘bunker infalível: Deus Todo-Poderoso’.

O líder venezuelano esbanjou confiança, citando números de crescimento econômico não verificados e afirmando ter ‘mais de 70% de apoio’ na defesa da soberania nacional. ‘A vitória, em qualquer circunstância, sempre será nossa’, declarou, apenas dois dias antes de sua captura.

A Reclassificação da ‘Captura’

Tudo mudaria na madrugada de 3 de janeiro. O ministro da Defesa, Vladimir Padrino López, comunicou a ocorrência de ‘bombardeios’ em território venezuelano. A Telesur, sem hesitar, classificou o episódio como uma ‘agressão militar criminosa’.

Horas depois, quando Donald Trump anunciou a custódia de Nicolás Maduro pelo governo dos EUA, o canal rapidamente ajustou seu foco. A notícia passou a ser o ‘sequestro do presidente’, evitando palavras como ‘captura’ ou ‘prisão’.

Essa escolha terminológica tinha um objetivo claro, enquadrar a ação americana como um crime comum, desprovido de qualquer legalidade internacional. O vocabulário dos apresentadores transformou a detenção em uma epopeia anti-imperialista.

Maduro virou o ‘presidente constitucional’, enquanto Cilia Flores foi elevada a ‘primeira combatente’. Os militares cubanos mortos foram descritos como em uma ‘missão de cooperação’. O canal ainda noticiou ‘dezenas de mortos’ civis nos bombardeios, sem fornecer nomes, números ou fontes verificáveis.

No sábado, a vice-presidente Delcy Rodríguez apareceu cercada por militares, exigindo a libertação de Maduro. A Telesur transmitiu o pronunciamento sem questionar seu paradeiro, ignorando rumores de que ela estaria na Rússia.

A emissora destacou manifestações de apoio de países como México, Colômbia, Cuba, Nicarágua, Rússia e China, além do presidente Lula. Declarações da oposição venezuelana ou de governos de democracias liberais foram simplesmente omitidas.

Uma inconsistência notável surgiu quando Trump afirmou que Delcy Rodríguez havia sido ‘juramentada’ e estaria disposta a cooperar com os EUA. A notícia foi descartada pela TV chavista. Contudo, dois dias depois, quando a própria Delcy convidou os EUA para uma ‘agenda de cooperação’ nas redes sociais, a Telesur deu destaque à declaração, em tom menos combativo.

O mais inusitado foi a insistência da Telesur em exigir uma ‘prova de vida’ de Maduro, mesmo enquanto informava que ele havia comparecido a uma audiência judicial em Nova York, estava detido em uma prisão federal americana e respondia por narcoterrorismo.

A Estratégia da ‘Guerra Híbrida’

Essa narrativa não começou em 3 de janeiro. A Telesur já vinha preparando o terreno há meses para repercutir uma possível ação americana. Desde agosto de 2025 (sic), as operações de Trump na região eram descritas como ‘ameaças imperialistas disfarçadas de combate ao narcotráfico’.

Expressões como ‘pretexto’, ‘cerco militar’ e ‘agressão regional’ tornaram-se recorrentes. Reportagens sobre ataques dos EUA a embarcações no Caribe enfatizavam que os tripulantes eram ‘pescadores humildes’, vítimas de uma ‘máquina militar descontrolada’, e não narcoterroristas.

A estratégia era clara, quando a captura de Maduro acontecesse, ela já estaria previamente explicada dentro de uma lógica de agressão. Dois conceitos, ‘guerra híbrida’ e ‘bombas semióticas’, foram exaustivamente repetidos.

Segundo a emissora, a Venezuela está sob um ataque permanente, econômico, informativo e psicológico, caracterizando uma ‘guerra híbrida’. Já as ‘bombas semióticas’ seriam notícias falsas ‘detonadas’ pela imprensa internacional para fazer o público acreditar que Maduro lidera um regime autoritário.

Patricia Villegas Marín, presidente da Telesur, resumiu essa concepção em uma entrevista, afirmando que ‘a emissora nasceu para vacinar a sociedade contra o golpismo’. Ela foi enfática, ‘Não damos voz para quem tenta derrubar um governo’.

Raízes e Influências da Telesur

Fundada em 24 de julho de 2005, a Telesur nasceu de conversas entre Hugo Chávez e Fidel Castro, idealizada como uma ‘rede multiestatal internacional e alternativa’. Seu lema, ‘Nosso Norte é o Sul’, reflete seu posicionamento ideológico.

Hoje, a emissora é financiada pelos governos da Venezuela, de Cuba e da Nicarágua, empregando cerca de 600 funcionários. A falta de relatórios financeiros detalhados reforça o caráter político e estratégico do projeto.

Estudos de think tanks conservadores e liberais, como o German Marshall Fund e o National Endowment for Democracy, apontam que a Telesur funciona como uma ‘redistribuidora’ de mensagens de interesse da Rússia e da China.

Essas análises descrevem um ‘sistema de lavagem de informação’, onde conteúdos de agências estatais russas e chinesas são reempacotados com um verniz latino-americano. O objetivo seria a ‘disseminação de narrativas autoritárias e de demonização do Ocidente’.

No Brasil, embora nunca tenha sido ‘sócio’ formal, o país participa indiretamente. A TV pública do Paraná já exibia programas da TV chavista nos anos 2000, e hoje a Empresa Brasil de Comunicação (EBC) frequentemente replica conteúdos que criticam a política externa dos EUA ou promovem a ‘integração latino-americana’.

Curiosamente, logo após a captura de Maduro, um dos poucos textos de opinião no portal da Telesur foi de Frei Betto, amigo e conselheiro de Lula. Em seu artigo, ‘Terrorismo imperialista’, Betto citou Lula, que classificou a captura como ‘afronta gravíssima à soberania’ e ‘precedente extremamente perigoso’, reforçando a convergência ideológica com o eixo bolivariano.

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