Conceição Evaristo celebra “escrevivência” na avenida em noite de consagração

A renomada escritora Conceição Evaristo viveu um momento de profunda emoção e reflexão neste sábado (14), ao ser homenageada pela escola de samba Império Serrano na Marquês de Sapucaí. A celebração ocorreu durante a segunda noite de desfiles da Série Ouro do Carnaval do Rio de Janeiro, onde sua trajetória e obra foram o fio condutor do enredo.

Para a autora, ver sua produção literária ganhar vida na avenida representa mais do que um reconhecimento pessoal; simboliza a força coletiva da literatura e o poder da “escrevivência” em alcançar e ressoar com o público. Evaristo destacou a importância de sua obra ser apropriada coletivamente, cumprindo um papel social fundamental.

A escritora enfatizou que a “escrevivência” tem a capacidade de cativar as pessoas, promovendo uma identificação que transcende o individual. Ao ser levada ao universo do samba e do Carnaval, sua literatura adquire um percurso democrático, reforçando seu entendimento de que a literatura é um direito de todos, especialmente das classes populares, conforme informações divulgadas pela própria escritora.

A “escrevivência” como força motriz da homenagem

A emoção tomou conta da Marquês de Sapucaí quando Conceição Evaristo, figura central da homenagem do Império Serrano, compartilhou seus sentimentos sobre a experiência. A escritora, conhecida por sua profunda conexão com as narrativas de mulheres negras e a luta contra o racismo e a opressão, viu sua obra ser traduzida em cores, ritmos e versos na passarela do samba.

“A escrevivência realmente captura as pessoas. Eu penso no texto que tenha tanto uma ressonância coletiva como o sujeito coletivo se apropriando desse texto”, afirmou Conceição Evaristo, explicando o conceito que permeia sua produção literária. A “escrevivência”, termo cunhado por ela, é uma forma de escrita que entrelaça vivência, escrita e ancestralidade, dando voz a experiências silenciadas e marginalizadas.

A escolha de seu nome e obra como enredo para uma escola de samba de tradição como o Império Serrano é um marco significativo. Representa não apenas a consagração de uma carreira literária brilhante, mas também a validação da importância de suas temáticas e da força de suas personagens no imaginário popular. A “escrevivência” na avenida se tornou um ato político e cultural de grande relevância.

Literatura como direito: o papel social na Sapucaí

Conceição Evaristo ressaltou a importância da apropriação coletiva de sua obra, argumentando que é nesse momento que a literatura cumpre seu papel social de forma mais efetiva. Para a escritora, a literatura não deve ser um privilégio de poucos, mas sim um direito acessível a todas as pessoas, independentemente de sua classe social ou origem.

“Quando a apropriação é coletiva, estamos experimentando uma fala que eu tenho dito sempre: a literatura como direito das pessoas. Todas as classes populares têm o direito à literatura”, declarou a autora. A ideia de que a literatura é um direito humano fundamental é um dos pilares de seu pensamento e atuação, buscando democratizar o acesso à leitura e à escrita.

Ao ver sua literatura ecoando nos sambas e na performance do Império Serrano, Conceição Evaristo percebeu a concretização desse ideal. A avenida, palco de celebração popular, tornou-se um espaço para a difusão de suas mensagens, alcançando um público vasto e diversificado que, de outra forma, talvez não tivesse contato direto com seus escritos. Essa experiência reforça a visão da escritora sobre o potencial transformador da arte.

O Carnaval como plataforma democrática para a literatura

A escritora celebrou o caráter intrinsecamente democrático do Carnaval, especialmente quando este se torna um veículo para a disseminação de conteúdos culturais e literários. Para ela, levar sua obra para a Marquês de Sapucaí é a materialização de um desejo de alcançar o maior número de pessoas possível, rompendo barreiras e preconceitos.

“Apropriando a minha literatura e levando essa literatura para o samba, para o Carnaval, é fazer com que essa literatura tenha o percurso mais democrático possível”, pontuou Conceição Evaristo. O samba-enredo do Império Serrano, ao contar sua história e celebrar seus temas, funcionou como um portal, convidando o público a mergulhar em suas narrativas e reflexões.

Essa iniciativa do Império Serrano não apenas homenageia uma das mais importantes vozes da literatura brasileira contemporânea, mas também demonstra o potencial do Carnaval como espaço de afirmação cultural e social. A escola, ao escolher Conceição Evaristo, contribui para o reconhecimento e a valorização de uma produção literária que tem sido fundamental na construção de uma identidade mais plural e representativa para o Brasil.

Quem é Conceição Evaristo e por que sua obra ressoa tanto?

Conceição Evaristo nasceu em Belo Horizonte, Minas Gerais, em 1946, e é uma das escritoras mais influentes e respeitadas do Brasil. Sua obra, marcada pela “escrevivência”, aborda de maneira sensível e contundente as experiências de mulheres negras, a ancestralidade, a violência, a pobreza e a resistência.

Seus livros mais conhecidos incluem “Ponciá Vicêncio” (2003), “Elegbara” (2010), “Olhos d’água” (2014) e “Canção para Ninar Menino Grande” (2017). Em suas narrativas, Evaristo dá voz a personagens que lutam por dignidade e sobrevivência em um contexto de profundas desigualdades sociais e raciais. A força de suas personagens femininas, a delicadeza com que descreve as relações humanas e a força poética de sua escrita são características que encantam leitores e críticos.

A relevância de sua obra transcende o campo literário, impactando o debate sobre representatividade, racismo e justiça social no Brasil. Ao ser homenageada na Sapucaí, sua “escrevivência” ganha uma nova dimensão, alcançando corações e mentes através da linguagem universal da música e da dança, reforçando a ideia de que a literatura pode ser uma ferramenta poderosa de transformação social.

A força do coletivo na “escrevivência” e no samba

A conexão entre a “escrevivência” de Conceição Evaristo e a energia coletiva do samba é notável. Ambos os universos, embora distintos em suas formas de expressão, compartilham a capacidade de dar voz a experiências coletivas e de construir narrativas que ressoam com a identidade de um povo.

Na “escrevivência”, o indivíduo se expressa a partir de uma vivência coletiva, compartilhada com sua comunidade e ancestralidade. Da mesma forma, o samba, especialmente no contexto do Carnaval, é uma manifestação artística que nasce e se fortalece no coletivo, unindo pessoas em torno de um objetivo comum: a celebração e a expressão cultural.

A homenagem do Império Serrano, portanto, não foi apenas um reconhecimento individual, mas uma celebração da força do coletivo. A comunidade da escola de samba se apropriou da obra de Evaristo, transformando-a em um espetáculo que, por sua vez, foi recebido e interpretado pelo público de forma coletiva. Essa troca, esse movimento de apropriação e ressignificação, é o que confere à arte, e à “escrevivência” em particular, seu poder transformador e sua relevância social.

O impacto da homenagem no reconhecimento da literatura negra

A celebração de Conceição Evaristo na Marquês de Sapucaí tem um impacto significativo para o reconhecimento e a valorização da literatura negra no Brasil. Ao colocar uma escritora negra e sua obra no centro de um dos maiores espetáculos populares do país, o Carnaval envia uma mensagem poderosa sobre a importância da diversidade e da representatividade na cultura nacional.

Historicamente, a literatura produzida por autores negros, especialmente autoras, enfrentou e ainda enfrenta barreiras para o reconhecimento e a circulação. Homenagens como essa ajudam a romper com esse cenário, abrindo portas e inspirando novas gerações de escritores e leitores a se engajarem com essas produções.

A “escrevivência” de Conceição Evaristo, ao ser apresentada em um palco tão grandioso e acessível como o Carnaval, contribui para desmistificar a literatura e torná-la mais próxima do cotidiano das pessoas. Isso reforça a ideia de que a literatura pode e deve ser um espaço de encontro, de diálogo e de afirmação das identidades plurais que compõem a sociedade brasileira.

O futuro da “escrevivência” e o legado de Evaristo

A homenagem a Conceição Evaristo na Sapucaí não é apenas um reconhecimento do passado e do presente, mas também um aceno para o futuro da literatura brasileira e do legado que a escritora vem construindo. Sua obra continua a inspirar e a provocar reflexões, e sua “escrevivência” certamente ecoará por muitas outras gerações.

A consolidação da “escrevivência” como um conceito literário potente e a sua projeção através de um evento de tamanha magnitude como o Carnaval demonstram o poder transformador da arte e da palavra. A escritora, ao ver sua obra abraçada pelo público e pela cultura popular, reforça a crença na literatura como instrumento de emancipação e de construção de um futuro mais justo e igualitário.

O legado de Conceição Evaristo se estende para além de seus livros; ele reside na forma como ela nos ensina a olhar para o mundo, a reconhecer as dores e as alegrias de sua gente, e a encontrar na escrita um caminho para a resistência e a esperança. A “escrevivência” na avenida é a prova viva de que a literatura, quando conectada à vida, tem o poder de transformar realidades e de inspirar sonhos.

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