Congresso do Peru destitui presidente interino José Jerí e aprofunda instabilidade política no país
O cenário político peruano viveu mais um capítulo de turbulência nesta terça-feira (05/03/2024), com o Congresso destituindo o presidente interino José Jerí. Apenas quatro meses após assumir o cargo, e a menos de dois meses da realização das eleições gerais, Jerí foi afastado sob a acusação de tráfico de influência. A decisão do parlamento, que contou com 75 votos a favor, 24 contra e três abstenções, intensifica um período de instabilidade que já dura quase uma década.
Segundo informações divulgadas pela CNN, a alegação contra Jerí refere-se à realização de encontros não oficiais com um empresário chinês. Apesar da defesa do agora ex-presidente argumentar que o processo deveria ter sido um impeachment, que exigiria uma maioria qualificada de 87 votos, ele declarou que respeitaria a decisão do Legislativo. Esta substituição é a oitava alteração na presidência peruana desde 2016, refletindo um histórico de fragilidade institucional.
O Congresso agora tem a tarefa de eleger um novo presidente interino, que completará o mandato até a posse do vencedor das eleições marcadas para 12 de abril. No entanto, a escolha se apresenta desafiadora, dada a proximidade do pleito e a baixa popularidade dos parlamentares, além de muitos estarem envolvidos em investigações ou questionamentos, o que dificulta a formação de um consenso para a nomeação de um nome que gere apoio suficiente para assumir o cargo em um momento tão delicado.
José Jerí deixa a presidência em meio a acusações e um cenário de incerteza
A destituição de José Jerí do cargo de presidente interino do Peru encerra um mandato breve e conturbado, marcado por acusações de conduta inadequada. A votação no Congresso, que decidiu por sua saída, foi baseada em alegações de tráfico de influência, especificamente por ter se reunido com um empresário chinês fora dos canais oficiais. A decisão, que exigiu maioria simples dos parlamentares presentes em uma sessão com quórum, foi vista por alguns como um movimento político para remover Jerí antes que pudesse consolidar sua posição ou influenciar o processo eleitoral.
A defesa de Jerí tentou argumentar que o processo correto seria um impeachment, que requer uma votação mais qualificada e um rito mais formal, mas essa argumentação não prevaleceu. Apesar de afirmar que respeitaria a decisão, a saída de Jerí adiciona mais um capítulo à já longa história de instabilidade política no Peru. A fragilidade da governabilidade tem sido uma constante, com sucessivas trocas de poder que impedem o país de avançar em suas agendas de desenvolvimento e segurança.
O impacto imediato dessa decisão é a necessidade urgente de o Congresso peruano encontrar um substituto. O novo presidente interino terá a responsabilidade de gerenciar o país nos meses que antecedem as eleições gerais, garantindo a transição pacífica e a organização do pleito. A escolha, no entanto, é complexa, pois o clima político está polarizado e a confiança nas instituições é baixa, o que pode dificultar a escolha de um nome que traga estabilidade e credibilidade.
Oito presidentes em uma década: um reflexo da crônica instabilidade peruana
A destituição de José Jerí não é um evento isolado, mas sim mais um sintoma da profunda instabilidade política que assola o Peru há quase uma década. Desde as eleições de 2016, o país já testemunhou oito mudanças na chefia do Poder Executivo, um número alarmante que revela a dificuldade em manter a continuidade e a solidez da governança. Essa sucessão de crises presidenciais tem minado a confiança da população nas instituições e dificultado a implementação de políticas de longo prazo.
A instabilidade recente começou a se acentuar após o mandato de Pedro Pablo Kuczynski, eleito em 2016. Ele renunciou em 2018 em meio a um escândalo envolvendo a empreiteira brasileira Odebrecht. Seu sucessor, Martín Vizcarra, também foi afastado por impeachment em 2020, acusado de corrupção. A linha sucessória levou Manuel Merino ao cargo, mas sua permanência durou apenas cinco dias, sendo substituído por Francisco Sagasti, que concluiu o mandato e passou o bastão a Pedro Castillo.
Pedro Castillo, eleito em 2021, tentou um autogolpe em 2022, o que resultou em sua destituição e prisão. Sua vice, Dina Boluarte, assumiu a presidência, mas também foi deposta pelo Congresso em outubro de 2025, sob a alegação de “incapacidade moral” para lidar com a crise de segurança pública. Agora, José Jerí, seu sucessor interino, também cai, evidenciando a fragilidade do sistema político peruano em encontrar lideranças capazes de completar seus mandatários e promover a estabilidade.
Opções limitadas para a sucessão presidencial em meio a um cenário eleitoral iminente
Com a destituição de José Jerí, o Congresso peruano volta a ter a responsabilidade de escolher um novo presidente interino. Essa figura terá a missão de governar o país até que o vencedor das eleições gerais, marcadas para 12 de abril, tome posse. Contudo, o processo de escolha se depara com um cenário complexo e com poucas opções viáveis.
A principal dificuldade reside na proximidade das eleições. Muitos congressistas que poderiam ser candidatos à presidência interina estão, na verdade, concorrendo a cargos no Senado, na Câmara dos Deputados ou no Parlamento Andino. Dos 130 parlamentares, uma parcela significativa já está focada em suas próprias campanhas eleitorais, deixando um número limitado de congressistas elegíveis para assumir a presidência interina. Além disso, muitos dos que estão disponíveis enfrentam investigações ou questionamentos, o que dificulta a obtenção do consenso necessário para serem eleitos.
A busca por um nome que gere consenso é crucial, mas desafiadora. A baixa popularidade dos parlamentares em geral, somada à polarização política, torna a tarefa árdua. A imprensa local já cogita alguns nomes, como a direitista Maricarmen Alva, o esquerdista José María Balcázar e o militar aposentado Roberto Chiabra, que teria que renunciar à sua própria candidatura presidencial. A definição do próximo líder interino ocorrerá em meio a debates intensos e à pressão por uma solução que não aprofunde a crise de governabilidade.
O legado de instabilidade: presidentes anteriores e investigações de corrupção
A trajetória política recente do Peru é marcada por um ciclo vicioso de instabilidade e escândalos de corrupção que atingiram as mais altas esferas do poder. A saída de José Jerí se insere nesse contexto, onde a incapacidade de completar mandatos e a fragilidade das instituições se tornaram a norma, e não a exceção.
A história recente é repleta de exemplos: Ollanta Humala, presidente entre 2011 e 2016, está preso por acusações de corrupção. Seu antecessor, Alejandro Toledo (2006-2011), também enfrenta problemas judiciais. O caso mais emblemático da influência da Operação Lava Jato no Peru envolve a empreiteira brasileira Odebrecht, que teria financiado campanhas e recebido favores em troca. A esposa de Humala, Nadine Heredia, chegou a buscar asilo no Brasil para evitar a prisão.
A própria Dina Boluarte, que antecedeu Jerí, assumiu após a destituição de Pedro Castillo, que por sua vez havia substituído a linha sucessória após a renúncia de Kuczynski e o impeachment de Vizcarra. Cada troca de poder vinha acompanhada de novas crises e acusações, demonstrando a dificuldade do sistema político peruano em se estabilizar. A falta de confiança nas instituições e a polarização política criam um terreno fértil para novas turbulências, e a eleição de um novo presidente interino é apenas mais um passo em um caminho incerto.
O futuro imediato: a escolha do próximo líder interino e o caminho para as eleições
A destituição de José Jerí coloca o Congresso peruano diante de uma nova e urgente tarefa: escolher o próximo presidente interino. Este líder terá a responsabilidade de conduzir o país nos próximos meses, até a posse do vencedor das eleições gerais de 12 de abril. A decisão precisa ser tomada rapidamente, mas o cenário político apresenta inúmeros obstáculos.
Os grupos parlamentares terão um prazo curto para dialogar, apresentar candidatos e chegar a um acordo. A expectativa é que as discussões se intensifiquem nas próximas horas, com o objetivo de debater e votar as opções nesta quarta-feira. No entanto, a polarização e a desconfiança mútua entre as bancadas podem dificultar o consenso, levando a um impasse ou à escolha de um nome que não represente uma solução duradoura.
A busca por um candidato que consiga unir diferentes setores do Congresso é o grande desafio. A baixa popularidade dos parlamentares, somada à iminência das eleições, faz com que muitos evitem assumir um cargo tão exposto e de curta duração. A imprensa local aponta alguns nomes como possíveis substitutos, mas a oficialização das candidaturas ainda é aguardada. A forma como o Congresso conduzirá essa sucessão definirá, em grande parte, o clima político e a estabilidade do Peru nos meses que antecedem o novo pleito eleitoral.