Conselho da Paz de Trump se reúne pela 1ª vez em Washington: entenda a polêmica

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, convocou para esta quinta-feira (19/2), em Washington, a primeira reunião oficial do seu recém-criado Conselho da Paz. O encontro, que acontece no Instituto da Paz dos EUA – rebatizado em dezembro como “Donald J. Trump Institute of Peace” após intervenção do governo republicano –, visa discutir os rumos de uma iniciativa que já desperta controvérsias internacionais.

Ainda não há confirmação sobre o número exato de membros presentes, mas cerca de 20 países já concordaram em integrar o polêmico órgão. A proposta, apresentada inicialmente em setembro de 2025 como parte de um plano de paz para Israel e Hamas, ganhou contornos mais amplos e gerou preocupações sobre a possível sobreposição de funções com a Organização das Nações Unidas (ONU).

Com Trump atuando como presidente vitalício e com ampla autoridade decisória, o Conselho da Paz é apresentado pelo ex-presidente como uma nova e importante organização internacional para a resolução de conflitos. No entanto, a sua estrutura e a ausência de alguns atores-chave levantam questionamentos sobre sua legitimidade e eficácia, conforme informações divulgadas pela BBC.

Origem e Objetivos: Um Plano de Paz com Contornos Amplos

A iniciativa do Conselho da Paz surgiu no fim de setembro de 2025, como um componente do plano de paz de 20 pontos proposto por Donald Trump com o objetivo de encerrar o conflito entre Israel e Hamas e supervisionar a reconstrução de Gaza. Embora a ideia tenha sido posteriormente endossada por uma resolução do Conselho de Segurança da ONU, a carta constitutiva do órgão não menciona explicitamente Gaza ou os territórios palestinos. Essa omissão gerou temores de que o conselho possa ter um escopo de atuação mais abrangente, assumindo funções tradicionalmente desempenhadas pela ONU.

Formalmente lançado em 22 de janeiro, à margem do Fórum Econômico Mundial em Davos, o conselho tem Trump como seu presidente vitalício, conferindo-lhe uma significativa autoridade de decisão. O ex-presidente tem promovido o órgão como um marco na diplomacia internacional. “O Conselho da Paz provará ser o órgão internacional mais importante da história, e é uma honra para mim servir como seu presidente”, declarou Trump em sua plataforma de mídia social, Truth Social, no último domingo (15/2).

Composição do Conselho: Quem Adere à Iniciativa de Trump?

Dos 60 países convidados pela Casa Branca, mais de 20 aceitaram integrar o Conselho da Paz. Entre os membros confirmados estão Israel, Catar, Arábia Saudita, Turquia e Egito. No entanto, o grupo carece da adesão de importantes aliados europeus dos Estados Unidos, como o Reino Unido e a França, que manifestaram preocupação com a possibilidade de o novo conselho ofuscar o papel da ONU.

O Brasil foi convidado, mas o presidente Luiz Inácio Lula da Silva condicionou a participação à inclusão de representantes palestinos. “Eu disse ao presidente Trump que se o Conselho for para cuidar de Gaza, o Brasil tem todo o interesse de participar. Agora, é muito estranho que você tenha um Conselho e você não tenha um palestino na direção desse Conselho”, afirmou Lula em entrevista ao UOL em 5 de fevereiro. Anteriormente, em janeiro, Lula já havia criticado a proposta, sugerindo que Trump desejava “ser dono da ONU”.

Outros países convidados ainda não responderam ao convite, deixando em aberto a extensão final da participação internacional no órgão. A composição atual reflete uma divisão global em relação à iniciativa, com algumas nações aderindo e outras mantendo uma postura de cautela ou crítica.

Financiamento e Força de Estabilização: Os Compromissos Financeiros e Militares

Donald Trump anunciou que os membros permanentes do Conselho da Paz deverão pagar uma taxa de adesão de US$ 1 bilhão, destinada à reconstrução de Gaza. Em outra publicação no Truth Social, o ex-presidente afirmou que os países membros já prometeram US$ 5 bilhões para a recuperação do território devastado pela guerra. Além disso, os membros se comprometeram a enviar milhares de efetivos para uma força internacional de estabilização e policiamento em Gaza.

Embora Trump não tenha especificado quais países fizeram essas promessas financeiras ou de envio de tropas, o Exército da Indonésia comunicou que cerca de 8 mil soldados estarão prontos até junho para um possível destacamento em Gaza, como parte de uma missão humanitária e de paz. Este seria o primeiro compromisso significativo de tropas garantido até o momento.

Um documento oficial da União Europeia, citado pela agência Reuters, indicou que a comissária europeia para o Mediterrâneo, Dubravka Suica, participará como observadora da reunião do Conselho da Paz. O memorando também sugere que a missão policial da UE contribuirá para a Força Internacional de Estabilização (ISF) através do treinamento e equipamento da polícia civil palestina e das instituições de justiça criminal.

Estrutura de Governança: Conselhos Executivos e Liderança

Além do Conselho da Paz principal, foram anunciados dois conselhos executivos subordinados: o Founding Executive Board (Conselho Executivo Fundador) e o Gaza Executive Board (Conselho Executivo de Gaza). O primeiro terá foco em investimentos e diplomacia em alto nível, enquanto o segundo será responsável por supervisionar o trabalho em campo do Comitê Nacional para a Administração de Gaza, grupo encarregado da governança temporária e reconstrução do território.

A Casa Branca informou que os integrantes desses conselhos atuarão para garantir “governança eficaz e a prestação de serviços de excelência que promovam a paz, estabilidade e prosperidade para o povo de Gaza”. Donald Trump presidirá o “Conselho Executivo Fundador”, composto por sete membros, incluindo o Secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, o enviado especial dos EUA para o Oriente Médio, Steve Witkoff, Jared Kushner, genro de Trump, e o ex-primeiro-ministro do Reino Unido, Tony Blair.

A inclusão de Tony Blair é vista como controversa, dada sua participação na decisão de levar o Reino Unido à Guerra do Iraque em 2003, baseada em alegações de armas de destruição em massa que se mostraram falsas. Cada integrante terá um portfólio específico, considerado “crítico para a estabilização de Gaza”. É notável a ausência de representantes palestinos em ambos os órgãos executivos.

O Desafio da Reconstrução de Gaza: Custos e Complexidades

A reconstrução de Gaza é um empreendimento monumental, estimado em mais de US$ 70 bilhões, segundo uma avaliação de danos realizada pela ONU, União Europeia e Banco Mundial. Cerca de 80% dos edifícios no território foram destruídos ou danificados, gerando milhões de toneladas de escombros. Famílias deslocadas enfrentam condições precárias, incluindo baixas temperaturas, abrigo limitado e escassez de alimentos.

O cessar-fogo mediado pelos EUA em 10 de outubro visava interromper mais de dois anos de combates entre Israel e o Hamas. Apesar da diminuição dos confrontos mais intensos, relatos indicam que forças israelenses continuaram com ataques aéreos e disparos contra palestinos em áreas sob controle militar. A complexidade da situação humanitária e de segurança em Gaza representa um desafio significativo para qualquer iniciativa de paz e reconstrução.

Jared Kushner apresentou um “plano diretor” para Gaza que inclui arranha-céus, novas cidades e uma zona turística costeira, com um investimento estimado de pelo menos US$ 25 bilhões e um prazo de dois a três anos para a construção. No entanto, a prioridade imediata continua sendo a ajuda humanitária. Trump reiterou a exigência de desarmamento do Hamas como condição central para o acordo, enquanto o Hamas e Israel mantêm suas próprias exigências para a desmilitarização.

Críticas e Controvérsias: Legitimidade e Relação com a ONU

A iniciativa do Conselho da Paz de Trump tem sido alvo de críticas contundentes, que variam desde questionamentos sobre sua legitimidade até preocupações com a representatividade de seus membros. Muitos aliados dos EUA alertam que o conselho pode minar a autoridade da Organização das Nações Unidas e do seu Conselho de Segurança, órgãos responsáveis pela manutenção da paz e pela aplicação de sanções internacionais.

O governo Trump já havia reduzido o financiamento dos EUA para a ONU e retirado o país de 31 entidades da organização consideradas “operando contra os interesses nacionais dos EUA”. A chefe da diplomacia da União Europeia, Kaja Kallas, descreveu o Conselho da Paz como um “instrumento pessoal de Trump”, desprovido de mecanismos de responsabilização perante os palestinos ou a ONU. Ela destacou que, embora o Conselho de Segurança da ONU tenha aprovado uma resolução apoiando um conselho temporário para Gaza com participação palestina, a carta constitutiva do órgão de Trump omitiu esses elementos cruciais.

Ausência Palestina e Reações Internacionais: Um Conselho Dividido

A ausência de representantes palestinos nos conselhos executivos é um dos pontos mais controversos. O político palestino Mustafa Barghouti criticou o órgão, descrevendo-o como “basicamente um conselho americano, com alguns elementos internacionais”, e expressou a expectativa de uma “representação muito mais ampla”. A clareza sobre o papel do grupo administrativo palestino, aprovado em negociações de paz no Cairo, também é vista como problemática.

A inclusão de um membro israelense, o bilionário Yakir Gabay, no Conselho Executivo de Gaza, e a participação de políticos do Catar e da Turquia, países críticos à atuação de Israel, geraram reações negativas entre políticos israelenses. O gabinete do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu afirmou que a composição dos conselhos executivos “não foi coordenada com Israel e contraria sua política”. O líder da oposição israelense, Yair Lapid, classificou o movimento como um “fracasso diplomático para Israel”, enquanto o ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben-Gvir, defendeu a “limpeza” de Gaza de “terroristas do Hamas” em vez de um “comitê administrativo”.

O Futuro do Conselho da Paz: Entre a Reconstrução e a Política

A reunião desta quinta-feira em Washington marca um momento crucial para o Conselho da Paz. A capacidade do órgão em efetivamente contribuir para a reconstrução de Gaza e para a resolução do conflito israelense-palestino dependerá de sua capacidade de superar as controvérsias em torno de sua criação e composição. A ausência de uma representação palestina significativa e a percepção de que o conselho pode enfraquecer a ONU são obstáculos consideráveis.

Enquanto isso, a comunidade internacional observa com atenção os próximos passos do conselho. A promessa de financiamento e o envio de tropas, se concretizados, podem ter um impacto tangível na região. No entanto, a politização da iniciativa e a ênfase na liderança de Trump levantam dúvidas sobre se o Conselho da Paz se tornará um instrumento genuíno de paz ou mais uma ferramenta em sua agenda política.

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