O ano começou com um cenário internacional de instabilidade sem precedentes, marcado por uma série de crises que se desenrolam em diversas partes do globo. Da América do Sul ao Leste Asiático, os conflitos e as tensões geopolíticas se intensificam, exigindo atenção e posicionamento estratégico de todas as nações.
Este ambiente volátil não só redesenha as alianças e as dinâmicas de poder, mas também impulsiona uma corrida armamentista global, com investimentos massivos em defesa. A complexidade dos desafios exige uma abordagem multifacetada e integrada por parte dos países.
Nesse contexto, o Brasil se vê diante de um desafio estratégico crucial: como navegar em meio a essa turbulência e proteger seus interesses nacionais? A resposta passa por uma profunda reflexão e ação coordenada, conforme análises recentes do cenário geopolítico global.
Cenário Geopolítico em Ebulição: Focos de Crise pelo Mundo
Na América do Sul, a Venezuela vivenciou uma ação militar norte-americana que retirou seu ditador do poder, mas o regime chavista mantém o controle, e a democracia segue distante. Este evento, de acordo com as informações, marca uma intervenção inédita na região e adiciona uma camada de complexidade à estabilidade regional.
A atenção dos Estados Unidos se voltou, então, para a Groenlândia. O presidente Donald Trump declarou repetidamente que os EUA possuirão o território, “por bem ou por mal”, gerando perplexidade na Dinamarca e na Europa. A primeira-ministra dinamarquesa chegou a alertar que uma ação militar contra a ilha significaria, na prática, o fim da OTAN.
A razão para tal preocupação é evidente: a OTAN, fundamentada na defesa coletiva, enfrentaria a impensável situação de um de seus membros atacar outro. Isso colocaria em xeque a própria fundação da maior aliança militar da história, com repercussões globais.
Na Europa Oriental, a guerra na Ucrânia, iniciada em fevereiro de 2022 com a invasão russa, aproxima-se de seu quarto ano. Recentemente, a Rússia lançou um míssil balístico contra Lviv, a apenas 70 quilômetros da fronteira com a Polônia. Embora com cargas convencionais, o míssil tem capacidade nuclear, acionando todos os alarmes nos países europeus membros da OTAN.
O Oriente Médio também não oferece um panorama mais tranquilo. No Irã, o governo dos aiatolás bloqueou a internet enquanto protestos massivos são reprimidos, resultando em centenas de mortes. O presidente Trump ameaçou atacar o governo iraniano em caso de novas mortes de civis, enquanto Israel intensificou ataques ao Hezbollah no Líbano, elevando o risco de escalada regional.
Novos Blocos e a Corrida pela Militarização Global
No Atlântico Sul, um movimento significativo de alinhamento militar foi observado. As marinhas da China, Rússia e Irã uniram-se à da África do Sul para os exercícios navais “Will for Peace 2026”. Washington interpreta essas manobras como um aprofundamento da cooperação militar entre os países dos BRICS, em um cenário de crescente militarização das disputas marítimas globais.
Esses exercícios também podem ser vistos como uma resposta a eventos recentes, como o apresamento de um petroleiro de bandeira russa pelos Estados Unidos no Mar do Norte, ocorrido na semana passada. Tais eventos sinalizam uma nova dinâmica de poder e confrontação em águas internacionais.
A instabilidade se estende ao Leste Asiático. As tensões entre China e Japão se acirraram após Pequim proibir a exportação de bens de “uso dual” para os japoneses e ameaçar cortar o fornecimento de terras raras, em retaliação a declarações da primeira-ministra japonesa sobre Taiwan. Paralelamente, a Coreia do Norte lançou mísseis hipersônicos em direção ao Mar do Japão, reafirmando suas capacidades nucleares.
O resultado desse ambiente de profunda instabilidade global é um aumento quase automático nos investimentos em Defesa. O presidente Trump anunciou que os Estados Unidos investirão US$ 1,5 trilhão em seu orçamento militar em 2027, um aumento de 66,6% em relação aos US$ 901 bilhões previstos para 2026.
Se esse objetivo for concretizado, a já enorme distância entre as capacidades militares norte-americanas e as dos demais países tende a se ampliar ainda mais. Isso, por sua vez, estimulará um crescimento generalizado dos investimentos em defesa em todo o mundo e, muito provavelmente, impulsionará uma nova corrida nuclear, elevando os riscos globais.
O Desafio Estratégico do Brasil: Urgência no Debate Nacional
Navegar em meio a essa enorme instabilidade é o desafio estratégico que se impõe a todos os países, e o Brasil não é exceção. A pergunta crucial é: como reagir a tantos e tão complexos desafios para garantir a segurança e os interesses nacionais?
A primeira resposta reside na urgência de colocar esse tema no centro do debate nacional. É indispensável que o Brasil retome a discussão sobre sua Estratégia, entendida como a teoria que orienta o emprego do poder militar visando a vitória em um eventual conflito armado. Esta é uma tarefa primordialmente atribuída aos militares e ao Ministério da Defesa, exigindo um planejamento robusto.
Contudo, isso por si só é insuficiente. Tão ou mais importante é a definição de uma Grande Estratégia nacional. Esta deve ser uma teoria capaz de coordenar, de forma integrada e permanente, todos os instrumentos de poder à disposição do país, incluindo recursos políticos, econômicos, científico-tecnológicos, psicossociais e militares.
Essa coordenação deve ser feita em torno dos grandes objetivos nacionais e da segurança dos brasileiros. Trata-se de uma responsabilidade do governo como um todo, que exige também a participação ativa e a cobrança permanente da sociedade brasileira, para construir um futuro mais seguro e próspero em um mundo cada vez mais incerto.